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JORNALEGO ANO VI - Nº. 179, em 26 de dezembro de 2007
Crônica MENSAGEM DE FIM DE ANO
Estava escrevendo com muito cuidado uma série para ser divulgada em três edições, a começar ainda neste final de ano, quando fui almoçar com dois amigos. O esmero na construção desses textos se justificava porque o tema, se maltratado, levaria os escritos a descambar para um lado perigoso, tornando-os pegajosos, piegas ou sentimentalóides. Vocês vão saber por quê, se vier a divulgá-los, no início de 2008. Na conversa ao almoço sugeriram-me escrever uma mensagem otimista de fim de ano, pois de coisa ruim já estávamos cheios. Se, por um lado, o papo fez-me sentir comprometido com os meus comensais, dado o apreço que merecem, por outro lado me deu um alívio. Senti que a sugestão encerrava uma crítica velada a alguns números do Jornalego que, sei muito bem, são céticos, tratam de assuntos pesados, enfim, são pessimistas. Saí prometendo pensar nesse tipo de mensagem “edificante” de final de ano. Quanto ao alívio, ele se deve ao fato de que posterguei para o próximo ano o início daquela série. Ganhei tempo para pensar mais, para trabalhar mais sobre ela, e até para decidir se a divulgo ou não, alertado pela minha vigilante autocrítica. Durante o almoço, expliquei aos meus interlocutores a dificuldade que tenho em ser otimista. Na idade em que me encontro, observando a vida, a história recente do meu país, os acontecimentos que marcaram a humanidade durante todo a sua existência, a despeito da grande evolução verificada, sou geralmente cético. Não que viva de cara fechada, seja anti-social, nada disso. Trata-se de uma postura intelectual que deixo transparecer nos meus escritos, pretensamente literários. Socialmente, asseguro, sou pessoa de fino trato. Talvez o pessimismo seja um ato de defesa, pois considero a pessoa otimista, idealista e esperançosa mais à mercê das frustrações, quando suas expectativas não são correspondidas. Sem mais delongas, vamos à mensagem otimista para este final de ano. Atualmente, estamos vivendo uma mudança silenciosa no Brasil. Não nos estamos dando conta do movimento que se está processando. Não sei precisar como será o novo tempo, mas as placas tectônicas da história estão em franco e rápido movimento. Sinto o ronco da Terra. O Brasil termina este ano com todos os indicadores macroeconômicos muito bem comportados. Por esse lado, não há crítica maior a fazer. As críticas ficam com alguns setores que andam a reboque desse sucesso macroeconômico: infra-estrutura, violência urbana, saúde e educação. No campo social, recente pesquisa do Datafolha mostra que houve migração de grande número de pessoas das classes mais baixas para as mais altas e vizinhas, não as da cúpula. O que indica melhoria na distribuição da renda. O nível de renda individual subiu, e o número de empregos também. O Datafolha acredita que isso seja resultado da política assistencial do governo e do ótimo resultado que vem apresentando a atividade econômica no momento. De 2005 para cá, dois acontecimentos foram importantíssimos para a evolução da sociedade brasileira. O primeiro foi o mensalão; e o segundo, o fim da CPMF. Isso foi muito bom para o governo e para a Nação. Quanto ao primeiro, o Supremo Tribunal Federal colocou todo mundo para responder perante a justiça. No que diz respeito ao segundo, a despeito de se perder um ótimo expediente de fiscalização financeira (que poderia ser mantido com baixas taxas da contribuição), deu-se uma balançada no governo que deverá envidar esforços para baixar a carga tributária e conter despesas. Espero que sem diminuir recursos para os programas educacionais, de saúde e assistenciais. O mensalão também deve ter colocado um freio na sede dos parlamentares em se locupletar do dinheiro público e disciplinar um pouco mais os caixas dois das campanhas eleitorais. Até que venha o financiamento público das campanhas, que não será a solução de tudo, mas acredito que diminuirá bastante a farra. O mensalão serviu também para desvestir a vestal PT, revelando toda a sua nudez, assim como a assunção ao governo central fez o partido se sentir mais responsável do que quando esbravejava na oposição. Qualquer que seja a avaliação do papel da oposição de hoje no senado, acho que foi boa, fazendo valer o poder legislativo. Quanto à Justiça Eleitoral, destacou-se por manter a fidelidade partidária evitando assim o indecente troca-troca de partidos por força de motivos inconfessáveis. A Polícia Federal vai bem, obrigado. A política externa atual é boa, principalmente no que diz respeito à sua atuação no continente sul-americano. O Itamaraty, sem as bravatas exigidas pela mídia nos casos da Venezuela e da Bolívia, tem levado com cautela as ligações do Brasil com esses dois países, exercendo a legítima função de líder que o país possui no cenário sul-americano. Não me surpreende se qualquer dia desses nós formos admitidos como membro titular no Conselho de Segurança da ONU. Voltando à América do Sul, o processo da consolidação do Mercosul vai bem, principalmente na tentativa de abarcar todo o subcontinente, administrando logicamente os percalços normais. O mais significativo evento dos últimos dias foi a criação do Banco do Sul, o banco de fomento regional. É incontestável que os países emergentes como o Brasil estão criando um novo equilíbrio de forças nas relações internacionais. Afinal, estamos entre as dez maiores economias do mundo, segundo avaliação de organização internacional. A seguir, a constatação que vai irritar muita gente: o governo do Presidente Lula, a despeito de não ter sido o dos meus sonhos, vai ser consagrado, se até o final do seu mandato não acontecer algo escabroso, como o melhor governo da Nova República. Essa, como se sabe, foi batizada por Tancredo Neves, em Vitória, para identificar o período republicano que se seguiria aos governos militares. Para não incensar muito o atual Presidente, acredito mesmo que, do modo em que as coisas andam, qualquer futuro governo, se não acontecer alguma catástrofe daqui para frente, terá todas as chances de ser sempre melhor do que o anterior, consolidando assim um regime democrático sustentável no Brasil. Também não me surpreenderei se nos próximos anos o Lula for considerado o Homem do Ano do Time Magazine. Se Putin pode, por que Lula não pode? É esperar para conferir. Afinal, só vinte e poucos anos se passaram desde o fim da ditadura militar. Isso, no processo histórico, é muito pouco. Chou En Lai, então primeiro ministro chinês, quando lhe perguntaram sobre o que ele achava da Revolução Francesa de 1789, respondeu que era ainda muito cedo para emitir algum parecer. O paraíso nunca chegará para o Brasil nem para nenhum de nós. O processo continuará com toda a manha dos descontentes e com o tratamento nervoso dos acontecimentos conjunturais, engordando pautas da mídia, que tanto perturbam e confundem espectadores e leitores, sem o devido distanciamento do dia-a-dia. O atual não é um ótimo governo. Estou comparando-o com os imediatamente anteriores. Não se trata de melhorar o mundo político infundindo-lhe nobres princípios éticos e morais. Não se trata de saber se Deus é brasileiro. Tudo isso seria ótimo se fosse possível e verdadeiro. A verdade é que o Brasil é um grande país. A Nação brasileira é robusta. O povo brasileiro é ótimo. É só não atrapalhar. Nossa auto-estima é que anda baixa. Muito baixa na classe média. Não há razão para isso. Menos xenofilia seria bom. Um pouquinho de xenofobia não faz mal ao nosso amor próprio. Menos USA, menos Europa, mais Sul América, mais Brasil. Yes, nós temos banana e petróleo! Esta é minha mensagem otimista de final de ano. Você pode achá-la irônica ou otimista. Eu a considero de um otimismo plausível, não-falastrão e nada ingênuo. Se, no entanto, vocês a reputam irreal, não sou eu o pessimista. Espero que tenham tido um Feliz Natal. Resta-me desejar muitas felicidades em 2008. “Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu”. E “viva o povo brasileiro” (*).
(*) Pela ordem, essas frases são títulos de livros, o primeiro de Roberto Freire, psiquiatra e escritor, o segundo do escritor e acadêmico João Ubaldo Ribeiro.
Genserico Encarnação Júnior, 68. Itapoã, Vila Velha (ES).
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