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JORNALEGO ANO VI - Nº. 178, em 10 de dezembro de 2007
Opinião O ADMIRÁVEL MUNDO WIKI
O mundo vem sendo assolado, nesta passagem de século, por novas idéias, novos costumes e pela evolução avassaladora da tecnologia, que inclui a telemática (telecomunicação e informática). A grande primeira novidade a ser abordada aqui é o planeta Wiki. A origem desse neologismo vem da Wikipédia, a enciclopédia livre. O termo Wiki é utilizado para identificar um tipo específico de coleção de documentos em hipertexto ou o software colaborativo para criá-lo. O termo Wiki significa “super-rápido” no idioma havaiano. Assim explica a própria Wikipédia. Um amigo me conta que Wiki é também um acrônimo formado pelas iniciais de “what I know is”. Possivelmente, essa explicação é posterior à concepção do nome para a enciclopédia, adaptação de uma frase em inglês à estranha palavra, uma vez que ela se coaduna muito bem com o que se propõe. Uma curiosidade para os capixabas: Wiki também é a forma diminutiva de Wikitoria, na versão Maori, para o nome Victoria. Na enciclopédia virtual Wikipédia quem quiser mete o bedelho, escrevendo o que pensa sobre o verbete que escolher. Wiki também é usado no neologismo inglês wikonomics, título de um livro que me veio ter às mãos, mas não li, e que, pelo que entendi, dando uma olhada na contracapa e na orelha, é uma forma de conhecimento econômico a que se chega pela associação de idéias de várias contribuições. Outra grande novidade nesse admirável mundo novo também é o Google, a marca do potente e conhecido Site de busca na Internet. A palavra provém da expressão googol (não sei em que língua), que representa o número 1 seguido de 100 zeros, para demonstrar assim a imensidão da rede. Notem que nas páginas do Site, as possibilidades de consultas além das dez primeiras apresentadas são encimadas por uma palavra escrita assim: Goooooooooooooooooooooooooooooogle. Se me permitem a brincadeira, a propósito dos grandes e pequenos números, lembro-me de um chefe, na empresa em que trabalhava, que chamava àqueles de pentilhões e a esses de culhonésimos. O advento da Internet está se constituindo numa possibilidade de reviravolta no conceito de democracia, de participação popular, no século atual, pelas possibilidades de comunicação universal. Isso, além das manifestações populares e públicas, das quais não se deve prescindir. Trata-se da visão eletrônica da ágora helênica. Em oportunidade anterior, cunhei o termo “ágora de agora”. Seria inimaginável, alguns anos atrás, pensar em elaborar e transmitir a declaração do imposto de renda e fazer transações bancárias e financeiras via Internet. São alguns dos exemplos da expansão da rede. Como será o dia em que todos poderão ter acesso a ela, seja pelo computador, seja pela interação com a tevê digital ou via telefonia celular? Passei por uma experiência maravilhosa ao ler, recentemente, a História da Literatura Brasileira de Nelson Werneck Sodré. Todas as citações, dos autores às suas obras, poderiam ser facilmente consultadas no Google, meu companheiro na leitura, quase no ato dela. O Google tem tudo! Impressionante! Como enriqueceu o conhecimento do assunto tratado no livro! Essa evolução tecnológica, contudo, tem implicações muito maiores, além de sua utilização nos serviços em geral. Pode contribuir para mudar comportamentos e concepções, o que encoberta alguns perigos como os que serão comentados a seguir. Costumo utilizar o Google como aferidor da correção de certos nomes próprios e mesmo expressões estrangeiras. O Site usa um artifício interessante quando se escreve algo errado. Ele pergunta se você não queria dizer tal ou qual nome, a forma correta da palavra. Mas, em outros casos, não existe essa certeza de que o nome, a expressão, ou o tema abordado que o Google apresenta estejam corretos. Por exemplo, quando o consultei para saber a maneira certa de escrever aquela admoestação espanhola ao presidente venezuelano (mais ridícula pela arrogância real do que pela impertinência plebéia, na minha visão um tanto plebéia): ¿Por que non te callas? Assim escrevi e o Site me confirmou essa forma, evidentemente errada. Muita gente já tinha entulhado a rede com essa maneira de escrever e o que o Google fez foi somente registrar esses erros me apresentando os textos em que eles apareciam. Assim, a wikimoda não representa a verdade e sim o que está na mídia eletrônica seja a forma certa ou a errada. O correto é ¿Por qué no te callas? Evidentemente também registrado milhares de vezes mais que a forma não correta. A rede não analisa, não tem a palavra final sobre os temas ou palavras, ela faz uma compilação total de tudo o que cai na malha. Como se sabe, um procedimento estatístico como este não prova nada, muito menos a verdade das coisas, a despeito de esta ser um tanto escorregadia. Pois, nem tampouco a ciência é dona da verdade. Ela apresenta a última versão da suposta verdade que, de acordo com a evolução da própria ciência, pode mudar, como é comum acontecer. Portanto, precisamos ter muito cuidado quanto ao modo wiki de ser e de pensar. Não se dispensa a opinião dos cientistas, sábios, professores, artistas e pessoas ligadas ao saber universal ou específico das coisas, especialmente das não-coisas. Tentar privilegiar o entendimento das coisas pela maioria de uma votação eletrônica não faz sentido. É bom saber o que a maioria está pensando, mas não sair cegamente atrás do que ela pensa. Mesmo porque ela pode ser manipulada pela propaganda, marketing, e outros expedientes muito em voga pelos donos do poder no mundo. Como todo mundo sabe, mas às vezes esquece, nem tudo que sai nos jornais, nas revistas ou nas tevês tem foros de verdade. A despeito de todo esse avanço tecnológico e da enxurrada de informações que nos chegam nunca se pode pôr de lado a análise crítica pessoal originada na formação cuidadosa e criteriosa de cada um. Não é como se faz patê de foie gras, entupindo o papo do pato com comida pela goela abaixo, no caso aqui tratado com um googalhão de informações, que encontraremos as opiniões corretas e aceitáveis. Muita informação intoxica.
Genserico Encarnação Júnior, 68. Itapoã, Vila Velha (ES).
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