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JORNALEGO ANO VI - Nº. 174, em 20 de outubro de 2007
Conto
UM HOMEM E UM HOMEM
De menino raquítico a halterofilista musculoso foi uma transição tão rápida quanto a passagem da infância para a adolescência. Criança magra e raquítica se destacava, no entanto, como bom aluno, tendo se distinguido na escola pública pelas poesias que escrevia e por sua participação nas peças teatrais que representava ao final dos anos letivos. Mas a ambição por maior destaque levou-o ao fisiculturismo. Ao final de poucos anos tinha um corpo invejável e bem-definido, nada que beirasse uma anomalia, como é comum acontecer. Essa nova postura física levou-o à prática de artes marciais e daí, por uma questão de afinidade com a atividade desportiva e em busca de melhor estabilidade financeira, cursou a academia da Polícia Militar, tornando-se oficial da corporação. Seu casamento se deu na igreja da noiva, para a qual fora convertido, celebrado por um pastor que fez considerações superficiais de cunho psicanalítico sobre a vida em comum de um casal religioso. Culminou com aquela tocante cerimônia, quando os nubentes passaram pelo corredor formado por espadas desembainhadas e cruzadas ao alto, por seus colegas oficiais em uniformes de gala. Pensei que isso fosse coisa do passado remoto! A vida corria normalmente, equilibrando o trabalho duro na polícia e nas ruas agitadas com a tranqüilidade do lar e as mensagens e bênçãos recebidas nos cultos religiosos. Em cinco anos já eram três os pimpolhos. O casal começou a servir de exemplo aos mais jovens freqüentadores das reuniões evangélicas, tornando-se palestrantes em várias oportunidades, dando testemunhos de vida, em cursos de preparação para o casamento. Esse é Giovane. Agora vamos ao outro. Para os fins deste texto, não interessa o nome que lhe deram ou se lhe dê, pois, no decurso deste conto, incorporará outro, autodenominação do próprio personagem. Ainda na infância escolhia brincadeiras de boneca em detrimento dos jogos de bola; suas companhias eram sempre as meninas, ignorando os meninos e, com isso, ia adquirindo trejeitos femininos no falar e no gesticular. Outra coisa mais imediata que preocupava seus pais era o fato de ser canhoto. Desde os primeiros rabiscos de desenhos abstratos e os garranchos iniciais, onde escrevia o seu detestado nome (desde pequeno o detestava), observaram a sua sinistra tendência a usar a mão esquerda. Naquele tempo, quando não existiam carteiras apropriadas para tais “aberrações”, como eram conhecidas, as professoras e os pais se esforçavam para endireitar a criançada. “É de menino que se torce o pepino”. Foi tanto o empenho e a pressão sofrida pelo garoto que o sucesso foi total. Nosso personagem passou a escrever com a destra, embora tudo o mais fizesse com os membros do lado esquerdo. Para não sofrer mais punições, algumas duras, sucumbiu. Mas o que vale é que estava dentro dos conformes estabelecidos pelos padrões da época. Ponto para os pais e educadores. As outras tendências, contudo, iam se desenvolvendo aceleradamente diante dos olhos estarrecidos dos familiares, sem possibilidade de serem consertadas, apesar dos vários intentos. Foi assim que se mudou para a capital, abandonando a casa paterna, logo que atingiu a idade da insubordinação, comum aos adolescentes com personalidade forte. Na verdade já o tinham abandonado, desprezando-o, há mais tempo. Foi quando adotou o nome de Anabela, não muito moderno, mas que lhe satisfazia pela sonoridade da palavra, pela tradição que encerrava e ainda porque correspondia a um belo rosto feminino, agora emoldurado por cabelos que lhe chegavam aos ombros, presos por um gracioso arquinho no alto da cabeça. Era, efetivamente, uma pessoa linda, com aqueles finos traços femininos, imberbe. Cuidava-se no salão de beleza onde empregava seus dotes de cabeleireiro e maquiador e, inevitável, fez implantação de silicone nos, digamos, seios, que ficaram discretos e, segundo amigos e amigas, a quem mostrava orgulhoso sua nova conquista, sensuais. Num início de noite, findo o turno de sua ronda pela orla marítima, para onde fora escalada a sua turma, Giovane, ao passar pelo calçadão da praia tomou um susto com a graça e a beleza daquela moça, de calça Jean tipo corsário, blusinha leve sem mangas e bolsinha a tiracolo. Parou estupefato. Chamou-a, a despeito de não querer parar, ofereceu-lhe uma carona e foram até o fim da praia. Ali pararam e entre beijos e abraços veio a confissão de quem realmente se tratava e o que estava ali fazendo. Houve um movimento brusco de repúdio por parte dele que, logo depois se acalmou e continuou conversando, embora sem trocar as carícias de antes. Deixou-a ali mesmo e ao retornar, o viu caminhando calmamente em sentido contrário de onde vieram. Naquela noite fez, agoniado, amor com sua mulher, pois, pela primeira vez abordara alguém que lhe chamara atenção, e logo quem. A ansiedade fora sentida por sua parceira. Provavelmente, pensou ela, isso era decorrente do estafante e perigoso trabalho em que ele, como a polícia em geral, estava empenhado, inclusive lidando com problemas dentro da própria corporação. Os dias que se passaram foram angustiantes, diante dos seus princípios morais, difundidos pela doutrinação religiosa e militar, dias em que o encontro com Anabela não lhe saía da cabeça. Foi difícil conter a vontade de revê-la. Abordou-o novamente num início de noite no mesmo local, para onde ela ia logo que acaba o seu trabalho de coiffeur. Convidou-o a entrar no carro e parou no mesmo fim de praia onde estacionara na semana anterior. A conversa prosseguiu normal, sem o susto e os percalços daquela noite, embora com toda a carga de nervosismo dele e a completa descontração dela. O que o encantou foram a liberdade, a desenvoltura, a postura pouco afetada, a maneira de encarar a vida (leve e solta) de Anabela, tão em confronto com as suas características há muito já incorporadas na mente e no físico másculo. E por que silenciar, ficou encantado com seu cativante rosto. Dali partiram para o primeiro encontro em local discreto e... não há criatividade que faça discorrer o que houve por lá, mesmo porque, noblesse oblige, deve-se adotar o silêncio nessas oportunidades, o mesmo silêncio que fez calar o par, durante os poucos minutos que Giovane ainda permaneceu no local. Saiu sem se despedir, o que foi notado e, devidamente compreendido, por Anabela. Nunca mais houve paz na vida dos dois. Por um lado o nervosismo de um dia-a-dia angustiante do Giovane, principalmente da noite-a-noite do casal e o relacionamento com os filhos. Foram notadas e sentidas as ausências a alguns cultos da igreja a pretexto de serões fictícios. Aumentou o nível de agressividade do tenente diante de seus subordinados. Um inferno! Por outro lado, dias de amor e excitação por parte de Anabela, que se sentia amada e querida como nunca fora em sua vida. E mais, planejava como amansar o leão, seu companheiro, que sentia, vivia dias atormentados. Mas um dia ele se apascentará! Sucederam-se os encontros. Passaram-se dois meses. A vida em casa estava horrível. Anabela cessara suas caminhadas à beira-mar. Foi quando, num transporte de amor e plenitude desse amor, Anabela, após a primeira troca de afetos disse ao ouvido de Giovane: Querido, sinto-me mulher, pela primeira vez na minha vida. Amo-te. Sou totalmente sua. Contudo sinto um vazio. Exigência da minha natureza. Quero intensamente que você seja meu assim como sou seu. Inicialmente, Giovane não compreendeu. Depois, induzido a entender por meio das sugestivas carícias recebidas, surpreendeu-se quase ao limite do pânico. Meneando a cabeça dizia não, não, não, não, nem pensar, não, não, não e não. E antes que pronunciasse o último não, já se entregara totalmente ao parceiro amoroso. Dali saiu direto e reto para o seu gabinete de trabalho no quartel de sua corporação e escreveu três cartas, dirigidas ao pastor de sua igreja, ao comandante da polícia e à sua esposa e aos filhos. Sem ser explícito, confessara a conduta inadequada com que vinha conduzindo a sua vida, pedindo perdão a essas três instâncias e dizendo-se envergonhado e culpado de tudo, ia providenciar sua punição. Oportunamente iriam tomar conhecimento de tudo. Colocou as cartas no Correio. Conscientizou-se e com isso consolou-se, ao pensar que certos detalhes desse envolvimento jamais seriam conhecidos por alguém, a confiar na discrição do parceiro. Se aqui eles são relatados com muito cuidado, deve-se a uma inusitada ousadia literária, para satisfação da curiosidade dos leitores. Inconscientemente, estava se dirigindo aos três níveis de instituições simbolicamente representativas da sagrada trindade: Deus, Pátria e Família, que baliza a vida de muita gente, na tentativa de “disciplinar” os comportamentos humanos, demasiadamente humanos. Encontrou-se novamente com Anabela. Novamente trocaram carícias e palavras de amor eterno. Giovane e Anabela, depois de cederem mais uma vez à sua paixão, ajoelham-se um diante do outro e disseram: “Você é meu irmão, Giovane”. “E você minha irmã, Anabela”. Resumo da ópera: após essa dupla confissão, sacou sua pistola automática e distribuiu fraternalmente toda a carga entre eles. Primeiramente, apontou para o seu obscuro objeto de desejo, contando os três disparos iniciais. Picolo intermezzo. Depois, voltando a arma para a altura de seu coração, pressionou com força o gatilho com os polegares, segurando vigorosamente o cabo do revólver com ambas as mãos e acionou novamente o mecanismo do equipamento até o fim.
Notas do autor: A cena amorosa final foi citada por Marguerite Yourcenar (1903-1987), no posfácio do conto de sua autoria “Ana, Soror...”, reportando-se, por sua vez, à cena de amor incestuoso da peça “Tis pity she’s a whore”, do dramaturgo elisabetano John Ford (1586-c.1640). Os nomes dos personagens teatrais foram aqui mantidos, devidamente aportuguesados. O presente conto é o terceiro da tetralogia que passou a ser denominada de “Umas e Uns”. O próximo texto, o final da série, se conseguir escrevê-lo, será “Uma Mulher e Uma Mulher”. Esses escritos foram feitos para focar aspectos específicos do multifacetado relacionamento humano. Os dois primeiros contos podem ser resgatados clicando nos atalhos: http://www.ecen.com/jornalego/no_169_um_homem_e_uma_mulher_br.htm http://www.ecen.com/jornalego/no_172_uma_mulher_e_um_homem_br.htm
Genserico Encarnação Júnior, 68. Itapoã, Vila Velha (ES)
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