Jornalego
|
|
|
JORNALEGO ANO VI - Nº. 169, em 30 de agosto de 2007
Conto longa-metragem
UM HOMEM E UMA MULHER
Inicialmente, pensei em narrar este conto na primeira pessoa. Por vezes, gosto de exercer o papel de ator, assumindo o personagem principal. Contudo, diante da delicadeza do tema, e para não encher de preocupações uma cabecinha muito querida, mas cheia de suspeitas (infundadas, a bem dizer), resolvi convocar dois protagonistas sobejamente conhecidos em histórias dessa natureza. A eles foram dados os papéis principais nesta ficção que, se não aconteceu de fato, pois aqui se trata de ficção, ocorreram em outras, inúmeras situações reais. Em cena: Marcello e Sophia. Silêncio! Luz! Câmera! Ação! Depois que ele se aposentou, faz um ano e meio, para encher o tempo, programou um almoço semanal com alguns dos ex-colegas da empresa. Ora um, ora outro, os mais chegados. Sempre no meio da semana. Ela já sabia: quarta-feira era sempre o dia dele, saía por volta das onze horas e voltava no final da tarde, depois do lauto almoço, com direito a uma biritas e papos infindáveis. Política, lembranças, causos, idéias, futebol e... mulheres, naturalmente. Ela sempre sabia das suas companhias, por isso não se preocupava. Eram velhos amigos com quem tinha criado laços fortes de afeição e amizade ao longo de três décadas de trabalho. Agora os papos são mais descontraídos, mais livres, sem o indefectível viés da corporação, especialmente com “Os Companheiros”, como assim se referia àqueles que também estavam no gozo da aposentadoria. Não obstante, o Marcello gostava também de se encontrar com o pessoal da ativa, para ficar por dentro das coisas que estão acontecendo no setor e no trabalho. Sentia-se assim atualizado e ativo. Uma pessoinha muito interessante, ainda na labuta, era uma jovem socióloga com quem, nos últimos anos dele na firma, participara de um projeto dos mais importantes em sua carreira. Continuar com essas conversas inteligentes e com a interação multidisciplinar experimentada no passado foi a causa do insistente convite a Stephanie para alguns daqueles almoços. Por fim, a moça sucumbiu aos seus rogos. Lógico que contou, como usualmente fazia, à sua doce e fiel companheira de tantos anos, de tantas lutas, mãe amantíssima e avó coruja. Estratégia matreira para se resguardar de um possível encontro com algum conhecido, parente, ou amiga fofoqueira, sabe-se lá. Ela respondeu com um humm espremido e desconfiado vindo das profundezas do peito. Depois de alguns almoços com a Stephanie, onde a conversa sempre se mantinha em alto padrão, muitos papos-cabeça, altamente intelectualizados, Sophia começou a dar sinais de preocupação, especialmente porque depois dos encontros, ele ficava horas a pensar, a divagar, sobre os instigantes assuntos tratados durante o ágape (!). Quando saía desses estados letárgicos virava um amante extremamente viril, o que aumentava ainda mais as inquietações da pobre mulher. Às vezes chegava a casa assoviando o tema musical do antológico filme do Lelouch, cantarolando o bebop do refrão: sabadoeladá, sabadoeladá! Sophia começou delicadamente, como quem não quer nada, inquirindo sobre os almoços das quartas-feiras. “Por que não mais se encontrava com a freqüência anterior com o Carlos Alberto, por exemplo, seu velho amigo, seu guru, quando o assunto era a complicada economia e a danada da política?”. Ele já comentara com ela as ausências do contumaz comensal; porventura teriam discutido num dos últimos encontros? “E o Silveirinha, com suas tiradas filosóficas, sempre elogiadas por você?” Sophia enchia-o de perguntas. “O Silveirinha virou um chato, sempre teve suas inclinações metafilosóficas, agora radicalizou, acho que está vendo a hora da morte se aproximar e quer colocar em dia sua contabilidade com o além”, retorquia ele. ”Não o agüento mais”. “Quanto ao Carlos Alberto, fica querendo defender o Lula e o PT do que estão falando e fazendo”. “Dei um upgrade nas minhas interlocuções”. “Não estou parado no tempo, quero continuar evoluindo”. “Procuro novos interlocutores”. Concluiu. Depois de algumas cobranças conjugais, Sophia começou a apelar, baixando o nível dos comentários sobre o assunto. Devo admitir que chegaram a alcançar o patamar das discussões calorosas. Vejam essa: “Não era você que dizia que homem que tem amiga é viado (sic)?” Aí o caldo entornou, ele chutou o pau da barraca e, expelindo fogo e palavrões, refugiou-se, com uma longneck na mão, a ver o jogo do Flamengo no brasileirão pela tevê. “Já ‘tá apelando pra baixaria”, comentava intradentes sobre as reações da mulher. “Ô mulher anacrônica!” “É isso que dá ficar o tempo todo em casa, recebendo e repassando mensagens na Internet”. “Não lê um livro, fica de monitor para monitor, do micro para a tevê, vendo essas novelas da Globo”. Resmungava Marcello. Por seu turno, o casal moderninho já tinha saído várias vezes, explorando vários restaurantes igualmente moderninhos. Serve-serve a kilo nem pensar! Stephanie ouvia sempre muito interessada os conselhos e os comentários, muito circunspecta e atenta. Mulher ativa, profissional competente, culta, estava muito focada em progredir na Companhia. Mas já se acercava a hora de o ansioso Marcello desviar os passos daqueles tipos de conversa, assuntos profissionais, para ele agora um tanto maçantes, e enveredar por outros caminhos mais lúbricos. Tentou teatro, música, literatura e artes plásticas. Psicanálise também. Tudo sem sucesso. Chegou a ligar para seu antigo analista querendo mais insights nesse campo. No que o competente profissional perguntou sem rodeios: “Marcello, tu ‘tá querendo comer quem?” Ele riu e encerrou o papo por ali mesmo, muito diplomaticamente. Mas represando um xingamento cabeludo para o “psicólogo de merda”. À menina só interessavam negócios, trabalho, carreira. Foi quando, apelando para algumas abordagens muito usadas pela turma de recursos humanos da empresa, começou a retirar da cartola alguns clichês e expedientes empregados pelos técnicos do setor em palestras motivadoras para aumentar a coesão entre os empregados. Tudo fora do devido contexto, o aprendiz de feiticeiro foi ficando empolgado com sua retórica, virou-se para ela e lascou-lhe um beijo nas faces. Ah! Aqueles olhos cor de mel, tez alvíssima, lábios de jambo de vez, covinhas mortíferas! E ele com aquele olhar esgazeado e o sorriso sutil prenhe de mensagens amorosas. Cheio de amor para dar! O que fez com que ela recuasse os laterais para guarnecer melhor a defesa de sua baliza. Não estava interessada no joguinho. “Mulher que tem amigo hétero um dia vai levar uma cantada, quando o superego dele der uma relaxada”, era o que pensava. “O superego geralmente se dilui em álcool, dizia Erica Jong em Medo de Voar”. “Se me lembro bem, era a primeira frase do romance ou a epígrafe”. Recordou o letrado Marcello, endossando sua investida. Quebrou a cara! Levou de pronto, um cartão vermelho. Mas quem saiu de campo foi ela. Ficou sozinho com sua cara de tacho e, como de hábito, com a conta por pagar. O trauma foi tão grande que o Marcello baixou a crista, adotou a técnica do low profile, mais condizente com a sua idade provecta e nunca mais viu a moça, nem quis falar sobre a Stephanie. Esqueceu os papos-cabeça dos almoços semanais e continuou a aturar os antigos amigos, que nunca lhe deixaram de ser fiéis, mesmo durante aqueles transportes de romantismo. Começou a ficar pianinho com a Sophia que, como todos sabem, é um mulherão e precisava ser preservada para seu próprio bem. Ficou tão transtornado com o que passou que, a partir daí, escolheu histórias menos másculas para atuar, tais como Um Dia Muito Especial e O Belo Antônio. A Doce Vida terminou e passou a admirar mais a Esposamante. The end.
Genserico Encarnação Júnior, 68. Itapoã, Vila Velha (ES)
|
|
|