JORNALEGO
ANO VI - Nº. 168, em 20 de
agosto de 2007
Opinião
FOGO VIVO
“Cansei da política que nos ilude com ciclos econômicos
que pouco deixam
para a nação, como os do açúcar, do ouro,
do café, da
borracha, do algodão, da soja, da industrialização,
e que agora nos
iludirá novamente com o etanol”.
Cristovam Buarque
Fogo Morto pode ser
considerado como o último livro do ciclo da cana-de-açúcar, de autoria do
escritor paraibano José Lins do Rego (1901-1957). Do conjunto dessa obra-prima
temática constam ainda: Menino de Engenho, Doidinho, Bangüê, O Moleque Ricardo e
Usina, uma coleção de excelente qualidade literária que oferece ao leitor
grandes momentos de prazer e conhecimento. Tais livros cobrem o final do
primeiro ciclo (fins do século XIX e início do XX) no Nordeste brasileiro. Esse
ciclo, aqui definido como o primeiro, vem desde o período colonial.
Fogo Morto é uma
metáfora sobre o apagar do fogo das usinas de cana-de-açúcar, dando início ao
ciclo da monocultura cafeeira. Fogo que, efetivamente, nunca apagou;
simplesmente arrefeceu entre um ciclo e o seguinte.
Para efeito
didático, considera-se como o segundo ciclo aquele que se inicia com o choque do
petróleo (1973), quando os preços desse produto se elevaram substancialmente, e
vai até quando os mesmos passaram a ser mais accessíveis, inviabilizando por
isso, mas não somente por isso, o grande mercado nacional criado com o advento
do álcool combustível (etanol) – hidratado e anidro. Como se sabe, nessa época,
no mercado automobilístico brasileiro só existiam para venda, praticamente, os
carros a álcool hidratado, enquanto o anidro era misturado com a gasolina para
quem ainda a usava.
Esse ciclo
chegou ao fim, ou ao esmorecimento, com a diminuição do preço do petróleo e o
aumento do preço do açúcar no mercado internacional, incentivando sua
exportação, o fim do apoio prestado pela infra-estrutura da Petrobras e os erros
estratégicos de sua concepção. Nunca um produto regional poderia ser usado
nacionalmente, em regiões muito distantes, tais como os extremos sul e norte do
país, não produtores de álcool. A importação de automóveis, iniciada na era
Collor, também colaborou para o encolhimento do mercado de álcool, agora em
recuperação com o advento dos carros Flex.
Por contraste, este
texto usa como título a antonímia do nome do último livro para caracterizar o
início do terceiro ciclo da cana-de-açúcar no país. O período que agora se
inicia com o programa do biocombustível lançado como a grande realização dos
dois mandatos do Presidente Lula.
Antigamente, tudo
começou com os precários engenhos, os bangüês, que evoluíram para as grandes e
mais sofisticadas usinas. Agora chegou a vez das grandes destilarias,
incorporando tecnologia de ponta à cultura e à industrialização do produto. Em
suma, o fogo voltou a acender.
A cana-de-açúcar é
uma cultura extensiva, exclusiva dos trópicos, até agora intensiva de
mão-de-obra não-qualificada, o que vem a caracterizar as famosas plantations,
como eram conhecidas tais atividades nas colônias dos países desenvolvidos.
Pois não é que, no
início do século XXI, quando a tecnologia em quase todas as atividades chega a
níveis dificilmente imaginados há alguns anos, o Brasil volta às plantations
de cana-de-açúcar, agora complementadas com as culturas de outras
matérias-primas passíveis de produzir combustíveis para competir com os
derivados de petróleo?
É lógico que a
produção de etanol e de biocombustíveis, de uma maneira geral, se bem planejada
e operacionalizada, é uma coisa muito boa, principalmente num cenário de preços
altos do petróleo, quando se vislumbra a possibilidade de sua finitude. Assim,
as energias renováveis são bem-vindas e recomendáveis. Contudo, no caso do
etanol, tudo tem que ser muito bem organizado e planejado, para não incorrermos
nos mesmos erros do segundo ciclo anteriormente mencionado.
Os governos
brasileiros não têm um plano de nação e muito menos um plano estratégico para o
setor de energia. Haja vista o que vem ocorrendo no setor petróleo. Desde o
governo FHC, com a mudança da lei do petróleo, a Petrobras passou a ser uma
grande multinacional que tem no seu plano exportar 20% do petróleo aqui
produzido e investir pesadamente no exterior, notadamente nos Estados Unidos. É
inconcebível, em pleno cenário de aumento de preços e escassez do produto,
abastecer outros mercados e investir alhures, enquanto as grandes empresas estão
operando em nosso território. Pérolas do neoliberalismo tucano e petista!
No caso do
biocombustível, estamos propondo ser uma alternativa de abastecimento mundial,
uma nova OPEP do etanol, competindo com os derivados de petróleo. O
biocombustível deveria ser entendido como complemento, nunca como possibilidade
de substituição do petróleo em nível internacional. E mais: deveria cingir-se a
um projeto nacional.
Tal programa requer
políticas públicas, visando notadamente os seguintes pontos: