JORNALEGO
ANO VI - Nº. 167, em 10 de
agosto de 2007
Conto curta-metragem
O CONTRATO SOCIAL
A seguir,
devidamente ficcionada para torná-la mais verossímil, uma história que
aconteceu sob minhas barbas brancas, aqui e agora.
Casal sem
filhos, recém-chegado à cidade, procura empregada doméstica que cuide da limpeza
de um apartamento de três quartos e do preparo das refeições diárias. Trivial
variado. Pedem-se referências e experiência. Oito horas diárias de serviço.
Descanso semanal aos sábados e domingos. Registro em carteira. INSS, FGTS e 13º.
Férias anuais com gratificação correspondente. Paga-se bem.
O extenso anúncio
equivalia a um contrato de trabalho entre as partes. Tudo nos conformes da
legislação pertinente. Talvez faltasse algum detalhe a ser acertado
posteriormente, sintonia fina, o que ficaria para uma conversa pessoal da dona
de casa com as candidatas.
O contato inicial e
a triagem foram feitos por telefone, dada a experiência da contratante.
Classificou-se a Marcelina.
Tudo ficou combinado
de antemão, inclusive o mais importante: o salário. A aspirante ao emprego era
realmente qualificada, apresentou os números de telefones da filha da ex-patroa
que, coitada – a ex-patroa, bem entendido – tinha morrido havia pouco. Ao
telefone, a filha teceu os maiores encômios (!) sobre a moça Marcelina,
que só ficou sem trabalho por força do infausto acontecimento aqui aludido.
Comunicou que sua
carteira profissional estava assinada, mostrando os serviços prestados à
macróbia senhora durante os últimos anos. A admissão fora assinada pelo marido,
que falecera anteriormente, fazendo com que ela viesse a servir exclusivamente à
velha matrona, fazendo as vezes de enfermeira e acompanhante. A baixa
tinha sido dada pela própria filha, que morava em São Paulo. Viera passar um
tempo aqui, para tratar do inventário e da posterior venda da casa, do
encaminhamento dos pertences da mãe a quem de direito e aos amigos mais íntimos,
bem como para honrar compromissos assumidos pelos falecidos progenitores.
Nesse telefonema
adiantou que a Marcelina tinha o segundo grau completo, era inteligente,
asseada, honesta, discreta, mãe de família, dois filhos adolescentes, marido
trabalhador. Para a velha senhora sua mãe lia livros de literatura da biblioteca
da família. Enfim, seria uma bela contratação.
Escolhida entre uma
dezena de candidatas, marcou-se o dia da apresentação num telefonema em que a
dona de casa já lhe adiantara alguns costumes de sua casa, os horários de
trabalho dela e do marido e outras tantas coisinhas.
– Tem uma coisa que
eu preciso esclarecer à senhora e que pode, talvez, complicar a nossa relação
ainda nem começada. É bom ficar tudo esclarecido direitinho para evitar qualquer
tipo de constrangimento posterior.
A senhora pensou no
pior, quem sabe: uma doença contagiosa, ou alguma restrição ao serviço, algum
compromisso assumido durante o horário de trabalho, coisas que tais.
– Diga-me,
Marcelina, de que se trata?
– Senhora, sou
negra.
Por um bom par de
minutos, sons de lágrimas (lágrimas emitem sons, sabiam?) foram ouvidos e
trocados, sem que fosse desfeita a ligação. Sem palavras. Nada que pudesse ser
dito. Tampouco aqui neste final de conto.