Jornalego

No 167: O Contrato Social

Página Inicial
No 204: Humano, Demasiado Humano
No 203: O Brasil vai virar Bolívia
No 202: Ensaio s/ a Cegueira e a Lucidez
No 201: ¿Por qué no Hablar?
No 200: O Tempo não se Bloqueia
No 199: Relatos de uma Viagem
No 198: O Tempo Bloqueado
No 197: Tempos do Futebol
No 196: Por um Tempo Ecológico
No 195: Pesos e Medidas
No 194: O Fascínio da Literatura
No 193: Bom Apetite
No 192: O Mural
No 191: Retrato de Mulher
No 190: Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
No 189: Existencialismo Caboclo
No 188: Danação
No 187: Saga
No 186: Redenção
No 185: Por que não Callas?
No 184: Destino
No 183: O Frade Ateu
No 182: O Retrato do Artista
No 181: O Retrato de minha Mãe
No 180: O Retrato de meu Pai
No 179: Mensagem de Fim de Ano
No 178: O Admirável Mundo Wiki
No 177: O Futebol da Integração
No 176: O Ser Obscuro
No 175: Uma Mulher e Uma Mulher
No 174: Um Homem e Um Homem
No 173: Cidadela Sitiada
No 172: Uma Mulher e Um Homem
No 171: Literatura de Apoio
No 170: Porque nao sou Religioso
No 169: Um Homem e Uma Mulher
No 168: Fogo Vivo
No 167: O Contrato Social
No 166: Humana Humildade
No 165: Espelho em Mosaico
No 164: Colcha de Retalhos
No 163: Infância
No 162: O DNA do Petróleo
No 161: Amor Ponto com Ponto br
No 160: O Moderno é Antigo
No 159: "Big Brother"
No 158: Nongentésimo Nonagésimo Nono
No 157: A Morte é para Todos
No 156: O Velório
No 155: Movimento dos Sem-Chapéu
No 154: Xarás
No 153: Amigo
No 152: Madame Hummingbird
No 151: Morte e Vida Severina
No 150: Capitalismo Global
No 149: Na Ponta da Língua
No 148: Pelas Costas do Cristo
No 147: Moral da História
No 146: Antes do Antes e Depois do Depois
No 145: Cerimônia do Adeus
No 144: Ode ao Sono
No 143: Ideologias
No 142: Reminiscências
No 141: Fé Demais & Pouca Fé
No 140: Biocombustíveis
No 139: Quarto de Despejo
No 138: Pavana para um irmão
No 137: Anorexia Eleitoral
No 136: O Mundo é um Moinho
No 135: Habitantes de Bagdá
No 134: Sonata ao Sol
No 133:Bodas de Jacarandá
No 132: Assim também não!
No 131: Reflexões Gasosas
No 130: Vovó Maluca
No 129: De Causar Espécie
No 128: Lula vai Raspar a Barba
No 127: O Pregoeiro de Itapoã
No 126: A República dos Sonhos
No 125: O’
No 124: Rio de Fevereiro
No 123: Seu Boiteux
No 122: Loquacidade Onírica
No 121: Os perigos da literatura
No 120: Entre o céu e a terra
No 119: Globanalização
No 118: Nojo e Luto
No 117: Meu Caso com a Super Star
No 116: Da informação. Do conhecimento. Da sabedoria.
No 115: O Último Tango
No 114: Pelo Sim pelo Não
No 113: Curriculum Vitae
No 112: Eterna Idade
No 111: Guanabara
No 110: Corrupção, Corruptos e  Corruptores
No 109: Quem tem medo de MRS. Dalloway
No 108: O Equilibrista na Corda Bamba
No 107: Conto no Ar
No 106: Divagações Amazônicas
No 105: O Espírito Santo vai virar Bolívia
No 104: "Tristes Trópicos"
No 103: Super-Heróis
No 102: Ilusões Perdidas
No 101: Praia das Virtudes
No 100: Sem
No 99: Brainstorming
No 98: Il Papa Schiavo
No 97: Samba-Enredo
No 96: Decamerão
No 95: Comentários Econômicos
No 94: Batismo Laico
No 93: Boa Convivência
No 92: Tsunamis
No 91: O Drama Do DNA
No 90: Natureza Viva
No 89: Educação Sentimental
No 88: Transbordamentos e Pressentimentos
No 87: A Volta e a Volta de Washington Luiz
No 86: Eros & Onã
No 85: A Viagem
No 84: Soy Loco por ti America
No 83: Mote (I)
No 82: ACRE Telúrico e Emblemático
No 81: Bigode
No 80: Golpes Cruzados
No 79: Rio de Julho e Agosto
No 78: Estado Pequeno Grandes Empresas
No 77: Dinossauro
No 76: Vida Leva Eu
No 75: Quando pela Segunda Vez Lula Treme na Base
No 74: Quotas? Sou Contra!
No 73: Indignação
No 72: O Outro
No 71: Memórias Postumas
No 70: A Outra
No 69: Ave-Maria
No 68: O Enxoval
No 67: Satã e Cristo
No 66: O Buquê
No 65: Belo Horizonte 2
No 64: Belo Horizonte
No 63: O Dia Que Nunca Houve Nem Haverá
No 62: Eletra Concreta
No 61: Motim A Bordo
No 60: O Sul do Mundo
No 59: Conto de Ano-Novo
No 58: O Capelão do Diabo
No 57: Um Ano-Lula
No 56: Conto de Natal
No 55: Desemprego
No 54: Inflação
No 53: O Tempo Poetizável
No 52: Pendão da Esperança
No 51: O Terrorista de Itapoã
No 50: Vícios
No 49: Nós
No 48: Discurso
No 47: Especulação Retrospectiva
No 46: Meu Tipo Inesquecível
No 45: Especulação Prospectiva
No 44: Branquelinha
No 43: Cara a Cara Carioca
No 42: Aquiri
No 41: Iá! Ó quem vem lá!
No 40: O Guardião
No 39: Questão de gênero
No 38: O Fescenino Papalvo
No 37: Imigrações
No 36: A Vigília e o Sono
No 35: O Novelo da Novela
No 34: O Pianista
No 33: Fast Love
No 32: O Nada
No 31: Movimento
No 30: Bagdá
No 29: Literatura
No 28: Estações
No 27: Conto do Vigário
No 26: Cenas da Infância
No 25: FHC.
No 24: Fazendo Chover
No 23: Fênix.
No 22: Operação Segurança
No 21: O Mundo Encantado da Loucura
No 20: O Mundo Encantado da Velhice
No 19: O Mundo Encantado da Infância
No 18: O Povo no Poder
No 17: Monteiro Lobato
No 16: Álcool Revisitado
No 15: Ficção ou Realidade
No 14: Analfabetismo
No 13: De Cabeça para Baixo
No 12: Candidatos e Partidos
No 11:Ao Fundo Novamente
Extra: Acre Doce
No 10: Jacques
No 9: Carta ao Professor N.
No 8: Viagem a Outro Mundo
No 7: do Prazer
No 6: Os Fins e os Meios
No 5: O Tempo da Memória
No 4: A Mulher do Romualdo
No 3: Voto Aberto
No 2: Malvadezas
No 1: O Sequestro
O Autor
Download
Favoritos

JORNALEGO

ANO VI - Nº. 167, em 10 de agosto de 2007

 

Conto curta-metragem

 

O CONTRATO SOCIAL 

 

            A seguir, devidamente ficcionada para torná-la mais verossímil, uma história que aconteceu sob minhas barbas brancas, aqui e agora.

Casal sem filhos, recém-chegado à cidade, procura empregada doméstica que cuide da limpeza de um apartamento de três quartos e do preparo das refeições diárias. Trivial variado. Pedem-se referências e experiência. Oito horas diárias de serviço. Descanso semanal aos sábados e domingos. Registro em carteira. INSS, FGTS e 13º. Férias anuais com gratificação correspondente. Paga-se bem. 

            O extenso anúncio equivalia a um contrato de trabalho entre as partes. Tudo nos conformes da legislação pertinente. Talvez faltasse algum detalhe a ser acertado posteriormente, sintonia fina, o que ficaria para uma conversa pessoal da dona de casa com as candidatas. 

            O contato inicial e a triagem foram feitos por telefone, dada a experiência da contratante. Classificou-se a Marcelina. 

            Tudo ficou combinado de antemão, inclusive o mais importante: o salário. A aspirante ao emprego era realmente qualificada, apresentou os números de telefones da filha da ex-patroa que, coitada – a ex-patroa, bem entendido – tinha morrido havia pouco. Ao telefone, a filha teceu os maiores encômios (!) sobre a moça Marcelina, que só ficou sem trabalho por força do infausto acontecimento aqui aludido. 

            Comunicou que sua carteira profissional estava assinada, mostrando os serviços prestados à macróbia senhora durante os últimos anos. A admissão fora assinada pelo marido, que falecera anteriormente, fazendo com que ela viesse a servir exclusivamente à velha matrona, fazendo as vezes de enfermeira e acompanhante. A baixa tinha sido dada pela própria filha, que morava em São Paulo. Viera passar um tempo aqui, para tratar do inventário e da posterior venda da casa, do encaminhamento dos pertences da mãe a quem de direito e aos amigos mais íntimos, bem como para honrar compromissos assumidos pelos falecidos progenitores. 

            Nesse telefonema adiantou que a Marcelina tinha o segundo grau completo, era inteligente, asseada, honesta, discreta, mãe de família, dois filhos adolescentes, marido trabalhador. Para a velha senhora sua mãe lia livros de literatura da biblioteca da família. Enfim, seria uma bela contratação. 

            Escolhida entre uma dezena de candidatas, marcou-se o dia da apresentação num telefonema em que a dona de casa já lhe adiantara alguns costumes de sua casa, os horários de trabalho dela e do marido e outras tantas coisinhas. 

            – Tem uma coisa que eu preciso esclarecer à senhora e que pode, talvez, complicar a nossa relação ainda nem começada. É bom ficar tudo esclarecido direitinho para evitar qualquer tipo de constrangimento posterior. 

            A senhora pensou no pior, quem sabe: uma doença contagiosa, ou alguma restrição ao serviço, algum compromisso assumido durante o horário de trabalho, coisas que tais. 

            – Diga-me, Marcelina, de que se trata? 

            – Senhora, sou negra. 

            Por um bom par de minutos, sons de lágrimas (lágrimas emitem sons, sabiam?) foram ouvidos e trocados, sem que fosse desfeita a ligação. Sem palavras. Nada que pudesse ser dito. Tampouco aqui neste final de conto.

                          

Genserico Encarnação Júnior, 68.

Itapoã, Vila Velha (ES)

jornalego@terra.com.br

http://www.ecen.com/jornalego

 

 

     Hit Counter