JORNALEGO
ANO VI - Nº. 164, em 10 de
julho de 2007
Miscelânea
COLCHA DE
RETALHOS
Com esse
título meio batido, vou compor um mosaico com textos começados, não
desenvolvidos e, portanto, não concluídos. São números natimortos do Jornalego,
projetos não terminados. O que se encontra entre parênteses são comentários
atuais sobre o que escrevi anteriormente.
O ALEATÓRIO E O EFÊMERO (à guisa de epígrafe para o que se
segue).
A vida é aleatória e efêmera.
Aleatória a partir da sua concepção. Uma imensidão de possibilidades existem
para gerar um ser, com as suas peculiaridades e características. O processo da
vida também é aleatório: quantos acidentes e incidentes podem modificá-lo ou
mesmo encerrá-lo?
(É o que se passa também quando
se pretende fazer literatura, como testemunha este número do Jornalego).
A ÁGORA DE AGORA
O capitalismo e seus tentáculos
modernos – a globalização, o marketing, o consumismo – são os carrascos da
democracia.
* ambientalista se imola
tocando fogo às vestes contra usina de álcool em Mato Grosso do Sul;
* padre faz greve de fome
contra a transposição das águas do rio São Francisco;
* jovens queimam carros na
periferia de Paris;
* as invasões dos Movimentos
dos Sem-Terra e dos Sem-Teto;
* interdições de rodovias;
* terrorismo em geral: Torres
Gêmeas em Nova Iorque, ônibus e metrô em Londres, trem em Madrid, hotel em Amam,
boate na Indonésia;
* professor dá bengalada em
José Dirceu.
* pressões pela Internet.
O não comparecimento às
eleições é cada vez maior, dado que não é obrigatório em muitos paises. Mais ou
menos a metade dos eleitores americanos não foi às urnas na última eleição para
presidente. Dos que foram, pouco mais da metade votou em Bush.
(A idéia a ser desenvolvida,
neste caso, era mostrar a falência da democracia representativa. As
reivindicações se fazem de outro modo e não somente pela eleição de políticos
como representantes do povo).
DOMINGO DE VERÃO
Meio-dia. O Sol caustica lá
fora. Minha pele alva e velha e minha calva, não o suportam. A água fria da
praia também não suporto. A mistura de sal e sol provoca uma urticária brava nas
minhas pernas e nos meus braços. Comida em casa não há, tenho que ir à luta nos
restaurantes lotados. Férias! Cinema não há. Já fui a todos os filmes em cartaz.
Os shoppings, onde está a maioria das salas de projeção, estão cheios de
jovens espaçosos, gargalhantes e barulhentos. Os programas da TV são umas merdas.
Mas merda mesmo é o corretor de texto do meu micro. Ele, pudico, não aceita a
palavra merda nem o comando para ignorar ou adicionar merda ao seu dicionário.
Merda! Nos noticiários, notícias plantadas para encher pautas jornalísticas. Na
televisão e nos jornais. Principalmente nesses jornais provincianos de minha
terra. De cerveja, vinho, uísque, de que gosto tanto e me estão disponíveis,
devo me abster. Diabetes. Além do mais, álcool, frutos do mar e pimenta
provocaram o aparecimento de uma infecção epidérmica chamada desidrose. Ainda
bem que foi só um ponto no delo anular da mão direita. Cansei-me do livro que
estou lendo. É um livro grosso que conta histórias dos primórdios da humanidade.
Não tenho sono, faz pouco que acabei de acordar. Minha saúde, considerando a
idade, é relativamente boa. As anormalidades foram acertadas ou estão sendo
mantidas sob controle. Por mérito da medicina, devo viver muito ainda. Assim
espero.
Depois do domingo vem segunda,
terça, quarta, quinta, sexta, sábado e outro domingo.
Quando o verão terminar, vem o
outono, o inverno, a primavera e outro verão.
“Só a imaginação vence o
cansaço de viver.”
Morrer é bom! Porque morrer é
um evento pontual. Pimba: morreu. A merda deve ser a agonia de morrer. Quanto a
viver, é um processo que às vezes cansa. Às vezes, é uma agonia.
AS VÍSCERAS EXPOSTAS DAS TREVAS
Feudalismo, mercantilismo,
revolução industrial. Colonialismo, neocolonialismo e colonialismo global.
O avanço da tecnologia, a
gênese da informática, tudo moldava o surgimento de um século esplendoroso.
O genocídio dos gentios. A
escravidão morreu sem dar à luz a liberdade do escravo.
Assim chegaram e se passaram os
anos do século XX da era cristã!
O socialismo nascente empolgou
corações e mentes. Deu apoio às lutas de emancipação nacional sem viabilizar os
países infantes. Em seu berço instituiu novas formas de violência. Enquanto
durou foi um contraponto a uma única hegemonia mundial, ajudou a nos salvar do
nazifascismo, embora passássemos a viver num tênue equilíbrio da força, cuja
confrontação poderia nos liquidar a todos.
O "pequeno século" (1914-1989),
segundo Hobsbawn,
foi realmente exuberante: duas guerras mundiais. Foram sacrificados
aproximadamente duzentos milhões de pessoas em confrontações dessa ordem e
revoluções ao redor do mundo.
Ave argentum, morituri te
salutant.
Referências:
Coração das Trevas
(1899), Novela de Joseph Conrad.
Apocalypse Now (1979),
Filme de Francis Ford Coppola, com Marlon Brando, Martin Sheen e Robert Duvall.
Quanto Vale ou é por Quilo?
(2005) Filme brasileiro de Sérgio Bianchi, com Lázaro Ramos.
Êxodos (Vitória-ES,
Setembro/2005), Exposição fotográfica de Sebastião Salgado.
OFICINA DA MORTE
Como será que morrerei?
Acidentado, de câncer, sofrendo de mal de Alzheimer ou de Parkinson, velhinho
gagá e esclerosado ou de um benevolente infarto, preferencialmente aquele
noturno. Quando se desperta morto (!).
Depois de certa idade as
expectativas se voltam para o fim. “Esperando sem esperanças” [Guimarães Rosa].
(Aqui eu queria desenvolver a
idéia da possibilidade da existência de oficinas da morte, onde, se alguém
quisesse dar fim à própria vida, poderia se internar e morrer placidamente,
muito bem assistido pela medicina moderna.)
TEMPO
Eu acreditava que a infância e
a juventude fossem fases preparativas para a maturidade. Já a velhice seria a
decadência da vida. Assim eu não via presente nas duas fases iniciais, elas
seriam voltadas para o futuro. Só a maturidade seria plena de presente. A
velhice estaria povoada de passado.
Essa visão, como se sabe, está
errada, além de ser extremamente pobre, ao atribuir somente à maturidade a
plenitude do presente. Só a maturidade teria sentido em si própria. As outras
fases da vida estariam voltadas de uma ou outra maneira para ela.
Todas as fases são prenhes de
presente.
A infância não tem passado, tem
presente e futuro.
A juventude tem um pequeno
passado, presente e futuro.
A maturidade tem um grande
passado que, inclusive, a forma. Tem presente e futuro.
A velhice tem enorme passado e
presente. Seu futuro é nada, salvo especulações metafísicas.
A realidade (?) da vida é o
presente. O passado é memória. O futuro previsão.
Embora o presente seja nada
diante da eternidade. Uma grande ilusão. Assim como o tempo da vida é nada.