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JORNALEGO ANO VI - Nº. 162, em 20 de junho de 2007
Ficção pseudocientífica
O DNA DO PETRÓLEO
“A vida é uma doença letal transmissível sexualmente”
Por se tratar de produto resultado da decomposição, sob determinadas condições de pressão e temperatura, de material orgânico, acumulado durante milhões de anos, aprisionado em rochas subterrâneas (de onde provém o seu nome que significa óleo de pedra), uma grande companhia de energia resolveu desenvolver um programa de pesquisa revolucionário: conhecer o DNA do petróleo. Para tal, contratou um laureado cientista brasileiro, de fama internacional, para dirigir tal empreitada. Era conhecedor profundo de química, física, arqueologia, economia, antropologia, biologia, geologia e astronomia. Sua formação se deu em vários bacharelatos, mestrados e doutorados pelo mundo afora. O que mais impressionou na contratação dos serviços do também famoso professor foi a modicidade dos seus honorários. O festejado homem de ciência não exigiu senão que lhe estivessem disponíveis todas as facilidades possíveis no avançado centro de pesquisa da empresa em questão. Num ousado projeto de tal natureza, sempre aparecem os críticos e invejosos, algo muito comum no meio científico, que não poupam acerbas considerações sobre o trabalho a ser empreendido ou mesmo já concluído. Tais críticas também consideravam o estilo dos vários escritos literários publicados, da lavra do referido estudioso, um verdadeiro delírio de uma mente se não perturbada, no mínimo, produto de um baralhamento das várias concepções que apreendeu ao longo da vida. Assim, seus desafetos consideravam-no um tanto louco. Diziam, inclusive, que o seu mecanismo de pensar, misturava hipóteses com conclusões, num deletério processo mental muito distante do saudável processo dialético que deve presidir os trabalhos científicos. Não se acreditava ser possível chegar a alguma conclusão plausível, já que houve drásticas transformações moleculares do material orgânico depositado e blindado nas rochas por milhões de anos para se chegar ao petróleo, eliminando os aminoácidos e as proteínas, as bases com as quais se constituem o princípio do DNA. Ignorando tais considerações, o nosso pesquisador partiu de uma experiência levada a cabo, na década de 70, por uma grande empresa internacional de petróleo, visando a transformar o petróleo em alimento. Chegaram a produzir proteínas que foram dadas como alimentação a porcos. Indiferente às ponderações, as mais ferinas, sobre as possibilidades do seu trabalho e do seu equilíbrio profissional e psíquico-emocional, desprezando mesmo a inveja de inúmeros de seus confrades, o nosso tão discutido homem de ciência seguiu em frente. Grande parte da crítica advinha do fato de que a empresa que custeou as revolucionárias experiências era uma estatal brasileira. Um dos argumentos utilizados foi a possível dilapidação do dinheiro público, dando margem às inúmeras formas de corrupção, desvio e malversação de recursos da sociedade. Uma outra importante linha de argumento utilizada pela oposição escudou-se no baixo amor-próprio do brasileiro que, absolutamente, não acredita que uma empresa pátria pudesse levar a bom termo tão audacioso trabalho, principalmente dirigido por um cientista tupiniquim. Depois de anos de pesquisa, eis o sucinto resumo executivo de seu relatório, no qual usou recursos literários para apresentar as conclusões. As explicações técnicas e teóricas ficaram para o corpo principal da belíssima edição: um calhamaço de quase mil páginas. Abre aspas: As pesquisas conseguiram, ao curso de um lustro de trabalhos exaustivos e de muita dedicação, detectar a espiral do DNA do petróleo, a despeito das dificuldades encontradas e transpostas, devido à descaracterização do material, ao longo dos milhões de anos, dos componentes que mais se prestam ao desenho final desse indicador genético. É da leitura e da interpretação desse DNA que derivaram as considerações que se seguem. Há 200 milhões de anos, aproximadamente, – passados milhões e milhões de anos da criação de nosso planeta – quando somente existia uma única porção de terra na sua superfície, existiu uma civilização (cuja descrição será alvo de parágrafo a seguir), que chegou a atingir um altíssimo nível de conhecimento tecnológico, nunca sequer pressentido pela atual humanidade. Como há a necessidade e, às vezes, a mania de nomear tudo, a exemplo do nome dado ao nosso planeta que, no idioma vernacular, é indevidamente conhecido como Terra, essa massa territorial única veio a ser conhecida por Pangéia (do grego pan, “todo”, e ge, “terra”). Dos seres vivos, destacavam-se, como atualmente, uma infinidade de animais e vegetais, iguais, em espécie e composição biológica, aos viventes no mundo de hoje, embora com características e formas por certo diferenciadas. Era uma infinidade de peixes, mamíferos, répteis, anfíbios, pássaros, insetos, animais microscópicos, cujo detalhamento pode ser visto no capítulo próprio no corpo deste trabalho. Os seres racionais e inteligentes, os assim conhecidos como humanos, embora tenham atingido uma população imensa, eram uma minúscula parte da vida no planeta. Como hoje. De todos esses seres, desconhece-se a sua forma, somente a sua constituição molecular, basicamente igual à dos viventes de hoje. Explica-se melhor: dos humanos, por exemplo, se eram altos ou baixos, como era sua estrutura óssea, se tinham pêlos, qual seria a cor da pele, que tipos de membros, nada se sabe. Nenhum vestígio, nenhum achado arqueológico daquela época existe no planeta em eras mais recentes. A história daquele tempo só pôde ser detectada por este tipo de pesquisa. O desencadeador da extinção desse tipo de vida, bem como da separação dos blocos de terra, foi um grande desastre, como se irá relatar a seguir. O grande desenvolvimento tecnológico da população humana daquela era se deu com a descoberta e difusão da energia atômica, especialmente quando aqueles povos chegaram a dominar o processo de fusão do átomo, a base energética do sol. A partir do aproveitamento dessa energia o desenvolvimento econômico cresceu a taxas altíssimas. Não se sabe como, mas chegou-se à exacerbação do uso de materiais nucleares e do seu processamento. Possivelmente todas as atividades da população eram baseadas num consumo exagerado de energia, a partir de minerais radioativos. Essa forma de energia disseminada por toda a extensão territorial, bem como sua utilização nas atividades econômicas que, devido a isso, cresciam acelerada e exponencialmente, fez aumentar a temperatura ambiente do planeta consideravelmente. Outro problema foi a construção de imensos depósitos de lixo atômico, no oceano global, que circundava a ilha continental. Não se deve desconsiderar a produção de artefatos atômicos de guerra, fabricados e, com certeza, utilizados pelos diferentes povos que habitavam o único continente. A situação chegou a um ponto tal que foi inevitável uma grande explosão que causou o desaparecimento de qualquer traço de vida, animal (humana incluída) e vegetal, na grande terra e no grande mar. A explosão foi sentida em todo o globo, desencadeando uma enorme onda de terremotos e maremotos. A principal causa deste último fenômeno foi a explosão dos extensos depósitos de lixo atômico submarinos. Concomitantemente com a eliminação dos viventes, deu-se o início da divisão da única massa de terra, com a separação e formação de duas principais extensões territoriais, uma ao norte e outra ao sul do globo, na nomenclatura geológica contemporânea conhecida como Laurásia e Gondwana, respectivamente. Outras menores superfícies terrestres também se formaram, fruto da grande explosão, que continuaram a se fender até chegar a constituição dos atuais continentes. Com isso se formaram os acidentes geográficos como também as estruturas subterrâneas mais próximas da superfície, com seus anticlinais e falhas rochosas. Grande parte do material orgânico de então (não necessariamente os vivos, mas também os restos mortais) ficou concentrado nesses reservatórios enterrados a alguns milhares de metros abaixo da superfície, portanto relativamente próximos a ela. Eis o início das rochas sedimentares, depositárias dos restos orgânicos que deram origem à formação do petróleo, de cujo DNA surgem essas preciosas leituras. Outra conclusão desta pesquisa, um subproduto dela, embora de altíssima significação, admite também que a vida no planeta, no conceito amplo, tem vários ciclos desde o big bang explosivo e criativo, até, quem sabe, o big bang implosivo e destrutivo do universo. Um outro tipo de ilação vem à baila, autorizado pelas conclusões de nosso projeto: pode-se dizer que a vida, dessa forma, é eterna, embora cíclica, enquanto dure seu grande habitat universal. Entre os vários ciclos ela se encontra latente para vicejar mais adiante, numa sucessão muito espaçada na concepção de tempo que temos atualmente. São ciclos de milhões e milhões de anos. Quantos existiram ou vão existir, desconhece-se. Como surgiu o fenômeno humano existente no ciclo em que vivemos a biologia e a antropologia modernas explicam muito bem. As religiões também se arvoram a apresentar suas versões metafísicas. O objetivo nosso é observar por intermédio do domínio e do estudo do DNA do petróleo, o processo de sua criação e, também, do mundo de então. Ao fazer isso, com base no excelente material recolhido na pesquisa, especulou-se sobre como seria o mundo antes e depois da era do petróleo. De antes de sua geração a depois de sua finitude. Tudo nos autoriza a prever que a natureza das atividades humanas necessita, para sua evolução e desenvolvimento, de grandes doses de energia, sejam elas quais forem. Quanto maior a população, maior a atividade humana, maior a sua aceleração e sofisticação, maior a necessidade de energia. A utilização maciça de combustíveis fósseis ou da energia nuclear, ou de qualquer forma de energia, em qualquer fase do estado da arte que se encontre ou venha a se encontrar, provocará o aquecimento global do planeta, acarretando, seguramente, um desastre final. O que desencadeia o recorrente fim do ciclo vivente na Terra e a ocorrência, milhões de anos depois, do início de um novo ciclo. Até o bum universal, sinalizador do final e da consumação dos tempos. Mot de la fin: A famosa frase “Viver é muito perigoso doutor!”, dita por Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa, em “Grande Sertão Veredas”, tem conotação individual. Contudo, ela pode vir a ser entendida de forma genérica: referir-se à vida no planeta. A vida é igualmente muito perigosa ao próprio planeta e à harmonia universal. Ela, que pode ser considerada um acidente na Terra, pela conjugação de especialíssimas condições propícias à sua existência em nosso ambiente, é a causa principal dos apocalípticos acidentes terrestres. Fecha aspas. Nota do redator do JORNALEGO: “Aonde a ciência não chegou, a literatura vai além”, ainda que por intermédio da mente delirante de um cientista tido como louco, misto de escritor supostamente desestruturado psicológica e emocionalmente.
Genserico Encarnação Júnior, 68. Itapoã, Vila Velha (ES)
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