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JORNALEGO ANO VI - Nº. 161, em 10 de junho de 2007
Conto
AMOR PONTO COM PONTO BR
“Dos amores, o mais rico é aquele que se submete ao arbítrio do tempo”. Lawrence Durrell, em “O Quarteto de Alexandria”.
De: vpietromonte@nutecnet.com.br Enviado em: 01/03/95 Para: marcellofj@zipmail.com.br Cc: Assunto: Até quando? Querido e sonoro Cello. Chegamos bem à bela capital federal. Como você sabe, já a conhecia de tanto viajar para cá, a trabalho. Ficamos uns dias num hotel e já estamos ocupando um amplo apartamento funcional, devidamente mobiliado. O novo governo está se instalando e, nele, nós. No bom sentido, é claro. O Alberto já tomou posse na Secretaria para a qual fora convidado e eu espero também encontrar uma brecha em algum lugar que diga respeito à minha atividade, para providenciar a transferência. Pelos regimentos machistas do Serviço Público a mulher, ao acompanhar o marido, tem direito à transferência. Ainda recordo nosso último encontro. Mais do que recordar, vivo-o intensamente. Foi, com certeza, a maior experiência amorosa por que passei, quando me senti completamente entregue ao nosso amor, despojada de tudo, “nua até os ossos, nua até a alma”, como numa frase de Durrell. Terá sido nossa despedida? Não haverá volta? Há treze anos sou a mulher mais feliz do mundo, desde o dia do nosso primeiro encontro. Você ainda se recorda dele? Rememore-o para mim, por favor. Faça-me revivê-lo. Parece que foi ontem! Pena que tenha demorado tanto tempo para acontecer. Seria ingrato aos deuses cobrar-lhes um tempo maior dessa felicidade? Por que não nos conhecemos há mais tempo? Por que não fomos amigos na infância? Por que não morar na mesma rua, estudar no mesmo colégio, brincar os mesmos carnavais da nossa adolescência? Seria pedir muito? Talvez o amor maduro seja bem melhor do que o amor de-vez ou do que o amor ainda verde. Os deuses sabem o que fazem. Eles são sábios porque são velhos. Aguardo sua resposta, com o devido atendimento ao pedido que fiz acima. Não se esqueça. Beijos. Violeta.
De: marcellofj@zipmail.com.br Enviado em: 10/03/95 Para: vpietromonte@nutecnet.com.br Cc: Assunto: saudades Minha Viola enluarada. Demos uma saída, para passar uns dias na serra, e, ao voltar, encontro sua mensagem. Morro de saudades! Doravante, na espera de um possível reencontro, resta-nos a Internet. Quando será que nos encontraremos outra vez? Talvez quando você aparecer por aqui na Cidade Maravilhosa. Para mim é mais complicado ir até aí. Não tenho nada que me ligue, com a exceção óbvia, ao planalto central. Passo a atender ao seu pedido, recordando o nosso primeiro encontro. Foi no subsolo do edifício Marques de Herval, na Avenida Rio Branco, na Livraria Leonardo Da Vinci. Você, folheando uma edição do livro do Durrel, que por fim comprou, e eu, tomando-a por uma vendedora, perguntei se tinha um livro da Clarice Lispector: o da barata. Você sorriu e disse o nome: A Paixão Segundo G. H. Pra me gozar ainda perguntou: por acaso não está interessado no conto da galinha? Senti o golpe. Foi mais cruel ainda: – Que tal um dos livros dos cornos, tem o “Dom Casmurro”, do Machado de Assis e o “Madame Bovary”, do Gustave Flaubert. Rimos a valer e eu levei o da barata. Saímos juntos, sobraçando nossos livros, para um chope no Amarelinho. Dali para um almoço no dia seguinte. Um jantar na sexta-feira. E um pas-de-deux “no primeiro dia útil”. Foi no dia em que você comemorava trinta e cinco anos de idade. 1982. Lembra? Sugiro deletar esta mensagem da memória do seu micro. Mantenha-a viva em sua memória. Beijos do seu Marcello.
De: vpietromonte@nutecnet.com.br Enviado em: 20/03/95 Para: marcellofj@zipmail.com.br Cc: Assunto: Parabéns Sinfônico Cello. Um grande abraço pela passagem do seu aniversário. Agora que você atingiu a idade do sexo (sexagenário), exatamente agora, me encontro tão distante. Com a sua última mensagem, recordei com muitas saudades, os tempos idos da década de oitenta, quando começou o nosso amor, e, principalmente, de nosso encontro lá na livraria. Foi delicioso relembrar tudo isso, o chope, o almoço, o jantar e o que se seguiu. Depois de treze anos de relacionamento, não tenho aqui, e nem você aí, uma única foto nossa, eu de você, você de mim, tudo em nome da discrição que se impõe. Ou melhor, que nós nos impusemos. A nos satisfazer com os presentes recebidos mutuamente, como se fossem nossas próprias compras, sem embrulhos especiais, ou como se se tratasse de regalos de amigos e colegas. Livros sem dedicatórias. Sinto tais limitações, “sofro, mas sou feliz assim!”. Esse parece ser um verso do Silvio César, que o Vinicius elogiava muito. Nossa vida amorosa, que durou treze anos, foi a coisa mais maravilhosa que poderia acontecer comigo. Deu-me garras para viver até o fim da vida, mesmo se não nos encontrarmos mais. O amor é efêmero, a experiência de nossas vidas nos permite compreender muito bem tudo isso. Talvez, quem sabe, por isso o nosso amor dure tanto, com tanta intensidade: por força de suas características e do nosso afastamento na fase madura de nossas vidas. Vivamos esse sentimento em nossas mentes, em nossos corações e em nossos corpos e em nossa troca incessante de e-mails. Beijos de sua Viola. .................................................................................................................................... De: Marcello Ferreira Júnior Enviada em: 05/05/2007 Para: Violeta Pietromonte Cc: Assunto: novas fotos Anexos: fotos netos Minha Viola sertaneja. O outono está lindo aqui pelas costas do Sudeste. Sopra um vento sudoeste agradável, a temperatura está excelente. E o planalto, como vai? Já começou a seca? A temperatura por aí é sempre amena e gostosa, principalmente à noite! O Rio é muito bonito de maio a setembro, especialmente no fim do outono e na entrada da primavera. Mando novas fotos dos netos. Veja como estão lindos! A menina, a mais velha, vai fazer dez anos. Está uma mocinha. Os gêmeos estão na casa dos cinco anos. Já estão lendo. Espero também receber fotos dos seus. Afinal, só os conheço bebês, fotograficamente falando. Como é? Está se preparando para o seu aniversário próximo? Sessenta redondos, não é mesmo? Terá festa? Vou terminando. Um beijo e um abraço do seu Cello.
De: Violeta Pietromonte Enviada em: 10/05/2007 Para: Marcello Ferreira Júnior Cc: Assunto: Rostropovitch Mio caro Cello. Estive hoje conhecendo uma bela e imensa livraria, que também vende CDs e DVDs, inaugurada há pouco tempo aqui em Brasília. Encontrei um belo CD duplo. Comprei-o. Só não mandei de presente para você, para respeitar os parcos vínculos materiais de nossa relação. Grande eufemismo para encobrir o fato de que não devemos nos presentear explicitamente para não ferir suscetibilidades dos mais próximos. Mas recomendo: veja lá na Modern Sound, em Copacabana, por certo você vai encontrar: são dois discos do fabuloso violoncelista Rostropovitch, falecido recentemente. Ele sola algumas músicas e participa de outras, em concerto com orquestra sinfônica ou participando de algum trecho de uma sinfonia. Imperdível, meu musical Cello: o som mavioso de seu xará instrumental. Como eu adoro a sonoridade dos cellos, no duplo sentido, bem entendido. Beijos. Violeta.
De: Marcello Ferreira Júnior Enviada em: 15/05/2007 Para: Violeta Pietromonte Cc: Assunto: Relatório Minha Viola de gamba. Fiz um inventário do nosso relacionamento e levei um susto: há doze anos estamos nos comunicando sem maiores interrupções pela Internet e, desde então, jamais nos vimos. Se somar a esses doze os treze anos em que estivemos juntos aqui no Rio, já lá se vai um quarto de século. Como passa rápido esta vida! Neste ano completo setenta e duas primaveras. Foram tantas as mensagens recebidas e enviadas! Se as guardasse, meu micro estaria transbordando. Deleto-as todas. Acredito que você também assim proceda. Oscar Wilde vivia um amor que, segundo ele, não podia dizer o nome. Nós vivemos um amor que não pôde ou não pode, não deva ou não deve, ser revelado. Talvez, por isso, esteja vivendo tanto, e com tamanha altura a sua chama. Nossas mensagens trocaram cumprimentos de aniversário e nos colocaram em dia com nossas vidas. Os casamentos de nossos filhos, os nascimentos de nossos netos, suas evoluções e seus progressos. A chegada de nossas aposentadorias. Tantas fotos trocadas! Todas deletadas. Não há estoque. Só fluxo. Nenhum rastro, nenhum rastilho. O engraçado, ou seria trágico, é que nunca trocamos fotos nossas, de nossas caras envelhecendo, de meus cabelos rareando e os que restavam embranquecendo. Talvez aí resida o segredo de nosso secular romance. Quem sabe? A nossa velhice vem sendo substituída pela juventude de nossos filhos e netos. Somos matreiros. Nosso amor agora vive na juventude deles. Depois dessas considerações vou lhe fazer uma confissão: tenho medo de me aparecer para você em corpo presente ou mesmo em fotografias. Setenta e dois anos é uma idade bastante provecta. Meu espelho me confirma isso. Estou bem (como dizem os amigos generosos). Mas não quero me expor a você. Tenho certeza de que, se o fizesse, seria o início do degelo, e eu quero preservar na lembrança tudo por que passamos e manter, através da Internet, esse calor amoroso. Duvido mesmo que você, neste tempo todo, não tenha vindo ao Rio ver sua filha e netos. Compreendo a incomunicabilidade de sua passagem por aqui. Do seu ectoplasma, Marcello.
De: Violeta Pietromonte Enviada em: 19/05/2007 Para: Marcello Ferreira Júnior Cc: Assunto: Deu branco na cabeça. Meu musical Cello. Recebi sua última mensagem e fiquei espantado com o seu relatório. Não havia atinado para tudo o que você me contou. Fiquei mesmo surpresa pelo fato de nunca termos trocado fotos nossas. Acredito mesmo que isso tivesse ocorrido inconscientemente. Vivemos o nosso amor na juventude de nossa prole. Isso é capaz de dar um romance, no mínimo um conto. Lembro-me do romance de Leila e David, personagens do terceiro livro (Mountolive) de “O Quarteto de Alexandria”. Você leu? Tenho certeza. Concordo com você, na análise e no medo de nos expormos reciprocamente, nessa nossa idade. Eu com sessenta e você com setenta e dois. Se ainda vivêssemos juntos, vendo-nos diariamente ou de tempos em tempos, não haveria qualquer grande impacto. Mas depois desse tempo todo – 12 anos de separação de corpos – o reencontro seria traumático e, tenho certeza, meio depressivo para ambos. Continuemos como estamos. Reinventamos o Retrato de Dorian Gray. Sobre o palavrão (“incomunicabilidade”) de sua última mensagem, abstenho-me de comentar, diante de sua confessada compreensão. Sobre a cor dos cabelos: depois da morte do Alberto, faz três anos, nunca mais os pintei. Você me imagina com os cabelos totalmente brancos? Não estou feia, estou uma coroa muito bacana, cabelos curtos, cheia de vida e, quando me olho ao espelho, gosto muito de minha cara madura. Ela guarda histórias. E a história mais bonita que poderia ter vivido. Amo-te. Não sei como usar um pronome oblíquo da terceira pessoa com o verbo amar, para não mudar o tratamento em minhas mensagens. O verbo amar, pela sua importância, merece um pronome mais elegante, da segunda pessoa. Beijos. Violeta. P.S. Releio Mountolive.
De: Marcello Ferreira Júnior Enviada em: 31/05/2007 Para: Violeta Pietromonte Cc: Assunto: notícia Viola. Desculpe a demora em responder. Estou escrevendo com muito esforço esta mensagem, dirigindo o mouse com a mão esquerda e teclando com o dedo indicador, também da mão esquerda. Vamos direto ao assunto: tive um AVC e estou com o lado direito um pouco paralisado. Estou bem, a fisioterapia tem feito grandes progressos. Caminho com certa dificuldade, o que não me impede de me locomover para onde bem quero. De resto tudo bem. Não se importe se eu vier a rarear com as mensagens por motivos operacionais. Darei notícias, espero que melhores. Se cuida. Abraços. Cello. P.S. Ouço Rostropovitch.
Genserico Encarnação Júnior, 68. Itapoã, Vila Velha (ES)
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