JORNALEGO
ANO VI - Nº. 160, em 30 de
maio de 2007
Opinião
O MODERNO É
ANTIGO
O moderno é quase
sempre antigo. Só se descobre o moderno depois que ele se cristaliza com o
tempo. Existem poucos modernistas vivos, a maioria deles está velhinha! As
idéias, para se tornarem modernas, precisam envelhecer.
Moderno e
modernidade, na concepção aqui usada, é o que, num determinado tempo, modifica o
passado inovando o futuro. Nada a ver com a Idade Moderna que se seguiu à Idade
Média. Ela foi moderna no seu tempo, quando substituiu o atraso medieval. Mesmo
nesse período (medieval) surgiram coisas modernas: a invenção da bússola e a
concepção heliocêntrica do nosso sistema planetário, por exemplo.
Moderno não pode e
não deve ser confundido com novidade, modismo: a onda que está sendo surfada
hoje que, seguramente, vai passar e, mesmo que volte, não modifica o passado. A
evolução intelectual não é seguir a moda: é ser moderno, mesmo que isso se apóie
em idéias antigas.
Um exemplo me deixa
intrigado: a música. Especialmente a assim chamada música clássica ou erudita.
Um amigo me disse que a música morrera. Tomei um susto! Talvez ele tenha razão.
Nada de revolucionário, nenhum grande compositor teria surgido no passado
recente. Eric Hobsbawn, o historiador inglês, chega a afirmar que o século XX só
“produziu” Stravinsky. Não sei se meu espírito nacionalista estaria certo ao
propor também o nome de Villa-Lobos! Não estamos nos referindo à tecnologia
musical, à reprodução e à difusão da música. Nesses campos o último século deu
banho. Mas a criação musical foi relativamente pobre.
Veja o caso dos
instrumentos: parece-me que o mais moderno é o saxofone. Se não me engano, ele
apareceu lá pelos idos do século XIX. Todos os demais instrumentos são mais
antigos e ainda hoje arrebatam, com os seus sons, multidões. A própria formação
das orquestras sinfônicas vem de longe. Os instrumentos eletrônicos são
extensões dos antigos: a guitarra, do violão; e o teclado, do piano.
Na música popular,
que me dizem do jazz? Se muito me engano, jazz bom é aquele de antanho: Cole
Porter, os Gershwins, Irving Berlin. Na MPB, modernos são Noel Rosa,
Pixinguinha, Cartola, Jobim e, aqui vão umas exceções para os vivos: Chico,
Caetano e Gil.
A física quântica e
a teoria da relatividade foram descobertas do início do século passado. Na
atualidade, lamento sua má invocação para justificar pensamentos idealistas e
misticismos religiosos. Confunde-se física quântica com metafísica.
No campo da
literatura brasileira, moderno é Machado de Assis. O bruxo de Cosme Velho nasceu
cem anos antes do meu nascimento. Ainda é o mais festejado dos escritores
nacionais. Não restam dúvidas que o Guimarães Rosa revolucionou a escrita, mas
acho que Pelé é Pelé e Romário é Romário. Pelé é moderno, como jogador de
futebol, bem entendido. Os “queridinhos” da crítica atual (Milton Hatoum e
Bernardo Carvalho) têm ainda que rodar muito e ficar velhinhos, talvez morrer,
para tentar pleitear a modernidade.
Na literatura
latino-americana a modernidade do realismo fantástico do colombiano Gabriel
Garcia Marques, do peruano Mario Vargas Llosa (o argentino Borges fica de lado,
nesta comparação, por não ter escrito nenhum romance) está sendo contestada pelo
realismo visceral do chileno Roberto Bolaño. Ambos os realismos são modernos.
Aquele mais do que este, pois o último ainda não se consolidou.
Modernos são os
autores dos grandes romances russos, ingleses e, talvez, de alguns americanos (Melville,
Faulkner?). A modernidade na literatura mundial fica com o Ulisses, de James
Joyce e Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Este, eu li. Aquele, não
consegui ler; falo por ouvir dizer.
Na realidade, o
século XX foi fraquinho em termos de modernidade. Foi forte em termos de avanço
da tecnologia e da violência. O grande período moderno foi o século XVIII, o
assim chamado século das luzes. O século do iluminismo, das revoluções
burguesas: americana e francesa, nesta ordem. Muito antes, porém, o advento das
grandes navegações e a conquista da América foram pontos culminantes do
modernismo na história da humanidade. O genocídio e a escravidão dos indígenas
das novas terras (África incluída) é que foram a grande nódoa desse período. O
século XX produziu a esperançosa revolução proletária marxista-leninista que
abortou antes mesmo de ele fechar suas portas.
Por falar nisso,
acredito que as teorias do Marx são modernas. Elas foram precocemente aplicadas
na revolução soviética, mas a validade do socialismo ainda está por ser provada.
Alguns dizem que isso se dará na China, outros, mais ousados, nos Estados
Unidos. O sistema capitalista não agüenta prover a crescente população mundial,
cada vez mais bem-informada e reivindicante. A não ser que continue o modelo
perverso de desigualdade gritante entre os seres e de exploração do outro. Os
bens naturais estão se esgotando e não dão para saciar a todos. Não me refiro
exclusivamente aos alimentos. Um exemplo claro é o da geração de energia para
atender aos crescentes padrões de consumo. A deterioração ambiental está
provando isso.
Em pintura, moderno
é Picasso, Van Gogh, Portinari, Miró e aqueles franceses impressionistas de alta
qualidade. Certamente estou a cometer injustiças neste particular por não ser do
ramo. Nas artes plásticas, onde também não me atrevo a opinar, quero apenas
citar o traço arquitetônico de Oscar Niemeyer no ano de seu centenário.
Os cristãos acham
que Jesus Cristo é moderno. Eu também acho. Retrógrada é sua Igreja, a
despeito das tentativas modernizantes: Francisco de Assis, Lutero, Leão XIII (Rerum
Novarum) e João XXIII (Concílio Vaticano II).
Poderia citar, de
ouvido, outros exemplos de modernidade na história da evolução humana. Deixo
aos experts em cada caso a comprovação de que o moderno é antigo.
Para não me alongar
muito em assunto perigoso de se expor e de me expor – prefiro escrever ficção
sem maiores compromissos – vou terminando por aqui. Como também é perigoso e
comum, por outro lado, saírem por aí argumentando, com visões superficiais,
idéias que estão na moda, veiculadas por uma mídia ligeira e conivente com os
interesses atualmente vigentes (por exemplo, o neoliberalismo selvagem).
A propósito: Moderno
é Getúlio Vargas. Precisou de tempo para se chegar a essa conclusão,
inclusive o autor destas linhas. Lula não é moderno. O PT também não,
porque sua memória histórica é curta, tem aproximadamente vinte e cinco anos,
coincidente com a sua idade. Essa percepção chegou-me mais rapidamente. Contudo,
não se vangloriem meus contendores e os opositores do atual presidente e do seu
partido. Em minha opinião, o Brasil não tem políticos nem partidos modernos.
Modernos são estadistas. E disso o mundo está em falta.
A mais avançada
tecnologia não nos leva automaticamente à modernidade. O moderno depende do uso
que se faz dessa tecnologia. Exemplo: a Internet. Muita coisa veiculada por seu
intermédio chega ser simplesmente velhaca.