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JORNALEGO ANO V - Nº. 157, em 30 de abril de 2007 Opinião [Com este número o JORNALEGO completa cinco anos de existência.]
A MORTE É PARA TODOS
As minhas mais recentes leituras tiveram como tema subjacente a desigualdade entre as pessoas. Um dos livros, o que tem o título mais democrático, me inspirou o nome deste artigo. Só que o tornei ainda mais democrático, substituindo a palavra Sol por Morte. Contudo, nada de morbidez. Não é meu intento. Dizem que o Sol nasce para todos, mas a sombra é para poucos. Diz-se também que, na tentativa de igualdade entre os seres, uns são mais iguais do que outros, no que se valem para abocanharem um maior pedaço no banquete da vida. Já a morte não tem nada disso, não carrega discriminações: ela é igual para todos. Não me refiro às molduras e à perfumaria que a envolve, como as exéquias, féretros e sepultamentos (de covas rasas a mausoléus), mas à essência dela, a ausência de vida, pura e simplesmente. Nada mais igual. A igualdade no nada. Os crentes na vida após a morte persistem em projetar a hierarquização do agora para o depois, ao lotearem a eternidade em paraíso, purgatório e inferno. Outros preferem a separação entre espíritos superiores e inferiores. Existem outras discriminações espirituosas e dantescas. Divina Comédia! Assim se perpetuaria a segregação; a continuação simbólica, no além, das coberturas, das moradias populares e das favelas. A morte, pura e simples, é a mais igualitária das várias etapas da vida (!?) das pessoas, como de resto, de todos os seres vivos. Na vida tudo é desigualdade. Acredito que não haverá tempo nem lugar em que a igualdade vigorará entre os seres. Nenhuma filosofia política ou religiosa estabelecerá a igualdade no mundo. Contudo ela deve ser perseguida, talvez sem a pretensão de atingir o objetivo absoluto, mas como parte do processo civilizatório. Para tal, o primeiro passo é reconhecer as diferenças, como elas surgem, para tentar sublimá-las. Antes, uma rápida passagem pelos livros que me levaram a escrever este texto. O primeiro foi Judas, o Obscuro, do inglês Thomas Hardy. O personagem não tem nada a ver com o apóstolo de Jesus, nem sequer como metáfora. Trata-se de um rapaz de origem humilde que queria evoluir intelectualmente, objetivando ser professor universitário ou autoridade eclesiástica. Por mais que estudasse e se esforçasse não conseguiu, por força das limitações e dos preconceitos, frutos da sociedade em que vivia. O segundo foi O Cristo Recrucificado, do grego Nikos Kazantzakis. Um jovem líder de um pequeno grupo quis implantar numa localidade grega os princípios da doutrina cristã, como pregada originalmente por Cristo. Não conseguiu, sendo barrado pelas autoridades turcas que ocupavam a região (muçulmanos) e pela própria elite cristã do lugar. Ambas se sentiram desafiadas em suas posições de poder e riqueza. Finalmente, O Sol é para Todos, da americana Harper Lee, uma história de discriminação racial no sul dos Estados Unidos na década dos 30. A partir daí comecei a raciocinar: as desigualdades entre os seres são quase todas acidentais. Ninguém fez por merecer ser superior ou inferior ao outro. As desigualdades são criadas pelas condições de nascimento e de vida. A partir da genética, da família, do ambiente, da alimentação, da educação, da saúde. Portanto, se essa apreciação estiver correta, nenhuma superioridade ou inferioridade deve ser exercida ou sofrida como decorrência das diferenças existentes entre as pessoas. Vejamos alguns exemplos. Em primeiro lugar, a assim denominada questão de gênero que eu prefiro chamar questão de sexo. Quem tem gênero são as palavras, gente tem sexo. Existe uma substancial diferença entre os sexos. Física, psicológica, na aparência etc. Contudo, não se pode dizer que um sexo seja melhor do que o outro. São simplesmente diferentes. A igualdade entre eles deve começar na aceitação e na sublimação das diferenças e de suas características. Ninguém pediu para nascer deste ou daquele sexo. A rigor, ninguém decidiu nascer por conta própria. Trata-se de uma aleatoriedade biológica, um acidente, cujas diferenças não podem ser consideradas superiores ou inferiores. Enfoquemos agora a juventude e a velhice. Quem tem o poder de escolher ser jovem ou velho? Por que então vangloriar-se da juventude ou da maturidade? O jovem vai ser velho. O velho já foi jovem. Outra diferença que não é passível de controle e, como tal, não deve ser motivo de superioridade ou inferioridade. O belo e o feio. Que esforços fez o bonito para chegar a ser belo ou simpático? Então por que vangloriar-se? E o feio, que culpa tem? Acresce que as concepções de belo e feio são muito subjetivas e mutáveis no tempo e no espaço. E assim prosseguimos: o culto e o inculto. Aquele teve mais oportunidades, a partir do seu nascimento, dos cuidados de que foi objeto, do ambiente em que viveu e de sua educação para adquirir cultura. O menos culto, na maioria dos casos, não teve essas chances. Lógico que existem os mais aptos, os mais persistentes, os mais talentosos, mas até isso pode ser considerado acidental, não constituindo motivo para se sentirem superiores os que amealharam um pouco mais de cultura. E mais: a cor da pele, a situação econômica (as diferenças nesse caso podem ter origem nas heranças), a condição sexual de cada um, a religiosidade, a nacionalidade, as deficiências físicas e mentais, enfim, nada justifica a empáfia da superioridade entre as pessoas por força de alguma diferença. Tudo é aleatório e acidental. Gosto muito da máxima utópica que diz: “De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades.” Inclusive aqueles que forem mais bem aquinhoados pela natureza e pela vida têm dívida para com os menos dotados. Não me venham com concepções biológicas, como as da evolução das espécies e da sobrevivência dos mais fortes, para justificar posições políticas, sociais e econômicas de desigualdade entre as gentes. No convívio humano, as diferenças existem, em grande parte exatamente por razões biológicas, o que não justifica aceitá-las tacitamente. A igualdade, portanto, se constrói nos campos político e da civilidade, que não existem entre as espécies desprovidas de razão. Como diria Geraldo Vandré: “Porque com gente é diferente”. A igualdade deve ser perseguida, embora possa ser uma quimera, uma estrela longínqua a ser alcançada. A igualdade não se constrói como fruto de vontades individuais, isoladas. O escritor e o leitor não têm em suas vidas particulares esse poder de modificar a situação nem tampouco o de agir tão corretamente como aqui se discorre. Preconceitos existem e estão no sangue. Esse não é um texto de auto-ajuda nem quer ser uma mensagem moralmente edificante. A atual situação só se modifica no âmbito de um amplo processo político que tem de se pautar pela possibilidade de oferecer a mesma chance de vida para todas as pessoas. Até que a morte nos iguale. Revertere ad locum tuum.
Ao finalizar este texto gostaria de dividir com os leitores as comemorações do quinto aniversário do JORNALEGO, compartilhando com alguns deles as leituras que me levaram a escrever este artigo. Quem, em primeiro lugar, enviar uma mensagem, via Internet, à redação do JORNALEGO, indicando seu desejo de ler e ser presenteado por um daqueles livros, informando o seu endereço postal, será o ganhador. Somente um para cada solicitante, para uma melhor distribuição. Se, contudo, alguém tiver interesse nos três, especifique sua prioridade (1º, 2º e 3º). Aquele que for o primeiro a se declarar interessado por determinado título, em qualquer posição que ele esteja entre as prioridades, ganhará o livro. Otinho, figura popular de Vitória, em meados do século passado, tirado a poeta, recitava em épocas natalinas: “Jesus, Jesus nasceu / E quem ganha presentes sou eu!” O aniversário é do JORNALEGO, os presentes vão para os leitores. Informação: Esta promoção foi encerrada no mesmo dia da edição, com a solicitação dos três livros aludidos Genserico Encarnação Júnior, 67. Itapoã, Vila Velha (ES)
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