JORNALEGO
ANO V - Nº. 154, em 30 de
março de 2007
Conto
XARÁS
Andava,
despreocupadamente, numa rua pouco movimentada do centro da cidade, quando fui
abraçado por trás, de forma aparentemente amigável, por um jovem, alto,
simpático e bem-vestido. Passou o braço por sobre o meu ombro esquerdo, colando
seu corpo junto ao meu pelo lado direito. Inicialmente, pensei que se tratasse
de um amigo, ou filho de um amigo, saudando-me depois de algum tempo de
ausência. A seguir, achei que se tratava de um engano do jovem, confundindo-me
com outra pessoa. Demos alguns passos juntos. Sem me assustar ou desesperar,
malandro que sou, pensava levar o incidente numa boa.
Foi quando ele me
disse: – “Tio, vai passando a grana que eu tô a perigo”. Continuamos andando,
sem que eu demonstrasse medo ou pânico. Remexi o bolso do lado contrário ao moço
e tirei, num bolo, três notas de dez e quatro de cinqüenta. Olhei para elas de
viés evitando deixá-las ao alcance do rapaz. Ofereci-lhe as três notas de menor
valor, dizendo que não poderia dar as outras, era o que me restava dos
“proventos da aposentadoria”. A artimanha não surtiu efeito. Ele queria todas.
Já sabia quantas eram.
A negociação
prosseguiu por uns poucos minutos de forma que aparentasse amigável aos raros
transeuntes. Eu torcia por um breve e bom desfecho daquela patética situação. A
minha conversa de “cerca-lourenço”, como aprendi com os cariocas, não surtiu
efeito. Nada o convencia. Sem me desabraçar, o rapaz tentava alcançar, com
estocadas do seu braço direito, as notas que eu afastava para trás do meu corpo
pelo lado esquerdo. Tudo sem sinais exteriores de violência.
Foi então que nos
abordou um senhor mais velho, estatura mediana, de chapéu, barba por fazer,
grisalho. Esperei que fosse a minha salvação. Qual o quê! Era um comparsa do
jovem e queria liquidar a situação. Dirigindo-se ao rapaz, chamou-o pelo meu
nome. Impossível! Pensei que ele já tivesse a minha ficha e se dirigisse a mim.
Não. Ele falava com o companheiro. Espantei-me, porque meu nome não é tão comum
assim, originário de um temido rei vândalo da Ásia Menor, que barbarizou a
Europa no século V.
Tentando parecer
amigável e torcendo para que aquela situação terminasse bem, disse: – “Mas esse
é o meu nome, é assim que me chamo”. No que o velho retorquiu: – “Eu também me
chamo assim”. Fiquei estupefato com a coincidência.
A seguir eles me
conduziram para um carro que estava parado poucos metros à frente e me
empurraram para dentro. O meu próprio carro! Talvez o tivessem afanado no
estacionamento em que o deixara.
Com uma arma
apontada para mim levaram-me para minha casa. Faziam isso, sem maiores cuidados,
acobertados que estavam pelos vidros fumê levantados. Já sabiam que minha mulher
estava viajando, não tinha ninguém por lá. Acionaram o controle remoto da
garagem, que fica preso ao pára-sol, no alto do pára-brisa, e entraram sem
levantar nenhuma suspeita da vizinhança. A casa fica no centro de um terreno,
todo cercado de altos muros, encimados por uma rede eletrificada vinte e quatro
horas por dia. O alarme geral, depois que se entra, tem que ser desligado dentro
de um minuto para não disparar, e religado novamente depois que as portas do
muro frontal, a principal ou a da garagem, se fecham. Tudo foi feito. Eles
tinham tudo dominado.
Ao entrar em casa me
jogaram no sofá. Escusado dizer que o dinheiro fora devidamente afanado durante
a viagem. Ali me deixaram deitado, ligaram a televisão e se postaram em duas
cadeiras por trás de mim, durante um bom tempo, enquanto conversavam entre si,
provavelmente elaborando seus planos.
No dia seguinte,
acordei com a tevê ligada confirmando o terrível assassinato ocorrido numa casa
vizinha: mataram a facadas o casal que ali morava. Informava o locutor que não
havia suspeitos do crime, não haviam encontrado nenhum indício dos assassinos. O
alarme não dera sinal. Nada roubaram.
Estranho! A polícia
estava em campo tentando desvendar o mistério que envolvia o pavoroso crime.
Estranho mesmo foi
quando tive consciência de que dormira toda a noite naquele sofá, estafado das
andanças do dia anterior, desde o último noticiário da véspera, que transmitiu a
tragédia dos vizinhos. A seguir, me veio à lembrança o sonho que tivera.
O que mais me
impressionou foi lembrar que éramos, os assaltantes e o assaltado, portadores do
mesmo nome. Três homônimos, com o mesmo nome incomum, meu próprio nome. Eu
assaltando a mim, ajudado por mim. Eu o assaltante, eu o comparsa, eu o
assaltado: Algoz, cúmplice e vítima!
Estranho! Muito
estranho! Sai dessa xará!