JORNALEGO
ANO V - Nº. 153, em 20 de
março de 2007
Poema do baú *
AMIGO
Muita coisa nos une, irmão:
A simpatia do teu semblante
contente;
Teu sorriso constante;
A presença tão presente;
A solidão, não obstante.
A cerveja gelada;
O silêncio calado;
Ou o papo amigo, acalorado.
O ouvinte, se não atento,
complacente e paciente;
Mais do que o ouvinte, o “euvinte”,
Pois, quando contigo falo, é
também comigo que o faço.
Outras coisas nos separam irmão:
Além da tradição,
Da formação,
Da profissão,
Das deformações,
Da própria ação.
No chão de nossas vidas,
Uma cerca se nos antepõe,
Nos contrapõe.
Onde, então, ela se põe?
Talvez, na concepção das coisas,
Principalmente das “não-coisas”.
Certamente, além da razão, da
lógica, da inteligência, da cultura.
Em que plano, em que canto, se
situa essa coisa que desune?
Talvez, no sentido da vida.
Ou preferes no seu
“sem-sentido”?
No rumo a tomar, no porto a
chegar?
Quem sabe na morte?
Ou além dela?
Mas a coisa que mais nos une,
irmão,
Superando o que nos desune,
É a vontade de sublimar o que
nos separa.
De transpor a dita cerca.
É a esperança da utopia desse
encontro.
* Poema epistolar
concebido no Rio de Janeiro, em Setembro de 1978, dirigido a um amigo. Agora,
reescrito e despersonalizado para sua publicação no JORNALEGO.