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JORNALEGO ANO V - Nº. 152, em 10 de março de 2007
Conto operístico
MADAME HUMMINGBIRD
OVERTURE: O conto que vai ser contado, como as histórias de todas as óperas, si non e vero e bene trovato, como dizem os italianos. Vamos a ele.
ATO I
Ao raiar da alvorada de um dia ameno de inverno divisou-se, no horizonte do mar de Itapoã e de Itaparica, à esquerda e mais além dos navios ali fundeados, o vulto turvo e cinza de um grande porta-aviões, acolitado por meia dúzia de vasos de guerra. Os aviões de caça e os helicópteros, estacionados na cobertura da belonave, na lonjura da visão, pareciam brinquedos de criança. Os navios cargueiros tinham as proas voltadas para o sul, indicando o vento que, vindo daquela direção, traz frio e chuva às costas do Espírito Santo. Os recém-chegados se movimentavam na mesma direção, vindos do norte, de onde também vieram as caravelas, há quase meio milênio, com o donatário da capitania, para aportar numa enseada de Vila Velha, para tomar posse de seus domínios. Enseada guarnecida dos ventos e protegida dos donos da terra, os inóspitos indígenas, do outro lado da baía. Agora, era a vez de uma frota moderna de marinha de guerra, que desta vez não sofreu nenhuma resistência ao aproximar-se. Mais perto do litoral divisavam-se, desfraldadas em suas popas, as bandeiras dos Estados Unidos da América. No mesmo dia, uma comitiva de oficiais, liderada por seu comandante, fez uma visita de cortesia às autoridades estaduais e municipais. Os contatos com o governo central já haviam sido realizados por outras vias. Chegaram em três helicópteros à casa de verão do governador, na Praia da Costa, local do encontro. A comunicação foi facilitada porque todos falavam inglês fluentemente. Diante das manifestações de amizade por parte dos visitantes e a exposição de seus propósitos, o aprazível local foi cedido para a instalação do quartel-general e residência do alto comando da guarnição. Para a tropa a ser desembarcada, foi negociado o aluguel das instalações ainda por terminar, mas em estado avançado de construção, do Barra Sol Power Center, na Rodovia do Sol, possivelmente pelo sugestivo e oportuno nome do complexo imobiliário que servirá, quem sabe quando, a um shopping center. O polpudo aluguel por certo viabilizaria a conclusão das obras. Na porta principal fizeram erguer um alto e forte mastro de ferro, com aproximadamente vinte metros de altura, onde desfraldaram uma enorme bandeira dos Estados Unidos, iluminada ao pôr-do-sol. Entre os propósitos declarados, destacava-se o reforço da defesa da parte sul do hemisfério ocidental, à luz do continuado terrorismo internacional, em íntima cooperação com as forças armadas nacionais e regionais. Os analistas mais rigorosos, que sempre estão a imaginar diabruras do grande irmão do norte, movidos por um incorrigível complexo de inferioridade e por uma ideologia malsã, tinham outra versão. Desde a saída desonrosa das tropas americanas do Iraque e do Afeganistão, o poder no mundo islâmico passou a ser monopolizado pelo Irã. No Oriente, a China, o Japão e a Índia repartiam o domínio sobre a região. A Comunidade Européia e a África eram mundos à parte, na riqueza e na pobreza. O feroz urso russo hibernava. Os olhos do Tio Sam, portanto, se voltavam para o sul das Américas. A revolução bolivariana de Hugo Chávez, que vem se perpetuando na presidência da Venezuela, exercia influência sobre a Colômbia, o Equador, o Peru e a Bolívia. O cacife do Chávez era a dependência dos Estados Unidos ao petróleo de seu país, valorizado com a reviravolta na correlação de forças no mundo islâmico. A ameaça de suspensão desse fornecimento funcionava como a espada de Dâmocles sobre a cabeça americana. O Chávez, dessa maneira, se constituiu numa barreira até agora intransponível à cobiça internacional pela Amazônia, incluindo a sua maior porção, a brasileira. Diante desses fatos e das razões a serem expostas, o foco americano deslocou-se para cá. O Brasil, por meio da Petrobras, ainda dirigida sob a orientação do Governo brasileiro, mas com a maioria do capital nas mãos de fundos de pensão americanos, ao superar a marca da auto-suficiência nacional na produção de petróleo, adotou uma política vigorosa de investimentos no exterior, notadamente no território americano (Golfo do México). Por outro lado, mantinha a produção nacional, apoiada pelas congêneres americanas em operação no país, em 30% acima das necessidades nacionais, excedente que era exportado para os Estados Unidos. A produção capixaba de petróleo, que perfazia aquele percentual, era toda encaminhada para as refinarias americanas. O estado e os municípios se satisfaziam com os relativamente polpudos royalties, abrindo mão da possibilidade de agregar mais valor à produção desse precioso energético e matéria-prima. Por seu turno, as grandes empresas exportadoras localizadas no Estado, vendiam seus produtos para o mercado americano (celulose, minério de ferro em bruto e manufaturado, produtos siderúrgicos em geral). Manter a vigilância sobre tais fontes de suprimento e, principalmente, sobre a siderurgia local, nas mãos de indianos, era questão estratégica do governo americano diante da multipolaridade do poder mundial. Essa orientação fora reforçada pela ascensão à presidência de uma mulher negra republicana, sucedendo a duas administrações de uma mulher branca democrata.
INTERMEZZO: Esse era o real objetivo da chamada “missão de paz”, cuja exposição assim feita deve ter aborrecido muito aos leitores que esperavam uma ópera mais romântica e não tão bufa quanto a política internacional. Mas não desistam, pois a seguir vem o segundo ato, de igual tamanho do que ora se encerra, com o romantismo necessário a um título tão sugestivo e com um fim emocionante. Prossigamos.
ATO II Primeira parte Flor da Anunciação era uma capixaba linda, de quinze anos, filha de mãe viúva, com quem morava em Garanhuns, nas imediações da Rodovia Darly Santos, em Vila Velha. Seu pai viera do sertão da Bahia, com mulher e três filhas baianas, instalando-se em Anchieta, no litoral sul do Espírito Santo, para trabalhar na construção de uma usina de pelotização e de um mineroduto. Depois das obras, como aconteceu em casos semelhantes, migrou para a zona de influência da capital do Estado, contribuindo para expandir a periferia da região metropolitana. A tropa de marines que ocupava o Barra Sol Power Center, apesar de contar com seus próprios serviços básicos de apoio, também empregou mão-de-obra nativa para serviços complementares de copa, cozinha, lavanderia e limpeza em geral. Flor fora aceita com uma módica remuneração, paga em dólares, refeições, ajuda de transporte; exuberantes benefícios para os padrões locais e, principalmente, quando relacionados ao real. Morena trigueira de olhos esverdeados, estatura mediana, corpo esbelto, tímida, Flor chegou com um vestidinho branco rendado na barra da saia, através da qual se podia ver, um pouco acima dos joelhos bem torneados, um belo par de coxas. O vestido era decotado na medida em que permitia imaginar vistosos seios. Logo foi alvo dos olhares gulosos dos ianques carentes. Mas foi um jovem tenente, de pele alvíssima, louro, olhos azuis, alto, forte e bonito, que mais se demorou na apreciação do fruto da terra e seduziu, de pronto, a também bela Flô, como era conhecida na intimidade. Após poucas semanas e várias trocas de olhares, marcaram um encontro num dos seus períodos de folga. O inevitável aconteceu. A partir daí a vida de Flô mudou sensivelmente, quer pelos benefícios diretos obtidos no seu trabalho, quer pela ajuda prestada pelo rapaz, sabedor das vicissitudes da família. Sua mãe estava se tratando melhor dos males da idade. Sua casa foi sofrendo modificações, ampliações, renovação, e novos aparelhos eletrodomésticos foram adquiridos para conforto e diversão da mãe que ela sustentava, sem a cooperação das irmãs mais velhas que tinham retornado para a Bahia. Passados uns meses, ganhou do tenente um carro popular novinho que facilitava os acessos aos motéis da vizinhança. Flô descobria as delícias do amor. Amava pela primeira vez na vida, apaixonada por um jovem rapaz, amável, sensível e carinhoso. Ele, da conquista inicial de uma bela mulher, passou a se apaixonar perdidamente pela moça. Seus encontros eram carinhosos, cheios de beijinhos, o que lhe valeu o apelido de Beija-Flor, dado por Flô. Após consulta a um pequeno dicionário que portava sempre para facilitar a comunicação falada, Flô mostrou ao seu parceiro o significado daquela palavra composta, apontando a correspondente palavra em inglês. Hummingbird: beija-flor ou colibri. De fato, beijá-la copiosamente, inundá-la de beijos, era sorver um néctar dos deuses naqueles lábios carnudos e sensuais. O elixir do amor e da vida, como os beija-flores ao sugar o mel das pétalas em flor. Manejando um precário inglês, ao perguntar-lhe o nome, achou-o muito complicado para pronunciar. Perguntou por um possível apelido, mais simples. – “Apelido, apelido”... Consultou o dicionário. “Achei: nickname”. – “Pink”; respondeu o militar, apontando para si. “You can call me Pink”. – “Pink, pink”... M, N, O, P. “Pink, achei: rosa”. Não se dando conta que rosa não era a flor e sim a cor. “OK!” Mas gostava mesmo de chamá-lo de Beija-Flor, e ele: – “Me: hummingbird”. “You: Flô”. Seguiam-se beijos, beijos e mais beijos... – “Ai love iu”. Fácil para Flô. – “Io... amô... voucê”. Difícil para Pink. – “Eu te amo”. Corrigiu Flô. “Querido Pink!”. “Meu Beija-Flor querido!”. “Querido Ramimbirde!”. – “You: madam Hummingbird”. Deliciavam-se com as imagens de seus corpos nus entrelaçados, deitados na cama larga, refletidas no espelho do teto do motel, no contraste das cores de suas peles morena e alva. Café com leite em ebulição. Num final de semana, foram em seu carro num passeio à cidade serrana de Santa Teresa a ver beija-flores no Museu do Ruschi. Comprou nas imediações, e presenteou ao seu namorado, um vidrinho para encher com água açucarada, chamariz de beija-flores. Ele o pendurou numa das janelas do Barra Sol, recebendo, após alguns dias, a visita de vários exemplares desses bichinhos multicoloridos, nervosos e tão mimosos.
Segunda parte
Depois de um ano de felicidade recíproca, período em que se registrou grande progresso no aprendizado prático das línguas envolvidas (!), Pink avisou consternado de sua volta para os Estados Unidos, dentro de uma semana. A possível esperança que Flô nutria em acompanhá-lo morreu de imediato com a confissão de que ele era casado em sua terra e voltava agora para a mulher e a filha. Sem derramar lágrimas ou desesperar-se, Flô calou-se e se despediu do seu amor, no último encontro que tiveram. Na véspera do embarque, vestiu seu vestido branco rendado na barra da saia, entrou resoluta no carro e em disparada alcançou o Barra Sol. Mirando o grande mastro da bandeira americana, acelerou ao máximo o carro e colidiu fortemente com aquela estrutura de aço, calçada em sapata de concreto armado. Dentro do carro o corpo sem vida de Flô, dentro de Flô o filho embrionário do tenente marine B. F. Pinkerton IV. Vejam só a coincidência: a vida imitando a arte. Ou seria: a arte imitando a vida? Talvez, neste caso, fosse mais apropriado: a arte imitando a arte! O acidente foi registrado por um fotógrafo amador. A fotografia mostrava o grande e pesado mastro, vergado sobre a base, caído obliquamente sobre o carro, escorado em seus destroços, quase o dividindo ao meio. A bandeira pendia arrastando no chão. A imagem, difundida pela mídia em todo o país e no exterior, e um desenho estilizado feito sobre a foto por um talentoso cartunista, após tornados públicos os motivos do trágico acontecimento, transformaram-se em símbolos do movimento de resistência brasileira e sul-americana à avidez das grandes potências.
Genserico Encarnação Júnior, 67. Itapoã, Vila Velha (ES).
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