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JORNALEGO ANO V - Nº. 151, em 20 de fevereiro de 2007
Opinião
MORTE E VIDA SEVERINA Dura a vida alguns instantes Porém mais do que bastantes Quando cada instante é sempre. Chico Buarque. A civilização do Ocidente valoriza demasiadamente a vida individual. Talvez, por isso, o exagerado culto à juventude e a visão pavorosa da “indesejável das gentes”. As abordagens ao tema, a seguir, têm como pano de fundo o avanço da medicina, da farmacologia e da tecnologia nessas áreas para prolongar a vida e adiar a morte. Para tal, apropriei-me do título do famoso poema de João Cabral de Melo Neto para dar nome ao presente artigo. Inicialmente, discuto o uso de aparelhos em pessoas em estado terminal, sem que se lhes ofereça a possibilidade de uma vida com dignidade. O paciente passa a vivê-la vegetativamente, sem nenhuma forma participativa. “Enquanto há vida há esperança”, esse é o argumento usado em defesa da manutenção artificial da vida. Mas quando estiver descartada qualquer recuperação social do indivíduo e a garantia de uma vida digna? Um novo conceito surge para esses casos, provocado pelo avanço da tecnologia médica. Trata-se da ortotanásia. Não é o caso da eutanásia. Esta última consiste em provocar a morte do doente irrecuperável. Aquela, em deixar o organismo agir normalmente, sem a sustentação artificial da vida, tentando-se preservar a dignidade do paciente e, se possível, livrá-lo da dor. A ortotanásia é o contrário da distanásia. Esta é a continuação da vida por meio do uso de aparelhos e drogas, adiando-se o momento fatal. A ortotanásia não é ir de encontro ao fluxo natural da vida; ao contrário, é ir ao encontro dele que, como se sabe, inclui a morte. Mais cedo ou mais tarde. Inevitavelmente! Lembro-me de uma canção dos meus tempos de iniciante em aulas de inglês: “Row, row, row your boat, gently down the stream. Merrily, merrily, merrily, life is but a dream”. Numa tradução livre: “Rema, rema, rema o teu barco, suavemente, ao sabor da corrente. Alegria, alegria, alegria, a vida não é mais que um sonho”. Há pouco tempo tivemos dois casos que empolgaram a opinião mundial. O primeiro foi o do espanhol Ramón Sampedro, mostrado no filme Mar Adentro: um homem lutava para ter o direito de pôr fim à sua própria vida. Na juventude ele sofreu um acidente, que o deixou tetraplégico e preso a uma cama por 28 anos. Lúcido e extremamente inteligente, Ramón decide lutar na justiça pelo direito de decidir sobre o fim de sua vida, o que lhe gerou problemas com a Igreja, com a sociedade e até mesmo com seus familiares. Por fim, teve sucesso. No caso, trata-se de eutanásia. O outro caso, foi o da americana Terri Schindler Schiavo que, após morte cerebral, viveu a poder de aparelhos, vegetativamente, durante 15 anos. Seu marido desejava o desligamento desses aparelhos, dizendo também ser o desejo da moça. Os pais dela, religiosos, queriam que a moça continuasse nesse estado, esperando por um milagre. Venceu a tese do marido: os aparelhos foram desligados, e a paciente veio a falecer. Não sei qualificar com precisão, se isso é eutanásia ou uma forma de ortotanásia! Nessa mesma época, o Papa João Paulo II esteve muito doente vindo a falecer. Possivelmente ele tenha optado pela ortotanásia, dispensando o uso de aparelhos. Se isso se deu, foi um grande exemplo, que nada tem a ver com a doutrina de sua Igreja. Em certos casos particularíssimos, como no caso do espanhol, chego a justificar a eutanásia para quem quiser dar cabo da vida, por não suportá-la, seja lá por que motivos. Ninguém é obrigado a viver! Esse assunto é mais complexo e discutível do que a aceitação da ortotanásia. Alguns especialistas, juristas em particular, chamam de obstinação terapêutica o recurso à distanásia. Nos Estados Unidos existe um instrumento, com força jurídica, o testamento vital, que expressa a vontade que a pessoa, enquanto lúcida, tem de como ser tratada em casos extremos. Além dos doentes terminais, um outro tipo de abordagem deste meu texto refere-se à preocupação demasiada em afastar qualquer risco de morte das pessoas ainda ativas, portadoras de alguma disfunção orgânica. Principalmente no que diz respeito às doenças cardiovasculares, em que as técnicas invasivas tiveram um grande avanço; existe uma preocupação paranóica por parte de médicos e pacientes. Nenhuma das partes quer correr o mínimo risco de morte. Os médicos aconselham, e os pacientes se submetem aos inúmeros tratamentos na tentativa de afastar o perigo. Às vezes, imagino que sem precisar, por precaução exagerada. Levanto três pontos que podem concorrer para essa obstinação terapêutica, aplicável a estes últimos exemplos. Vejamos: 1) A mais preocupante das hipóteses: necessidade de amortização das caras maquinarias usadas nos exames e expedientes invasivos (hemodinâmica, por exemplo) ou cirúrgicos. Cateterismo, stents, operações coronarianas, por exemplo. Ao menor sinal são indicados esses tipos de intervenção. 2) Preocupação exagerada da classe médica com a saúde dos seus pacientes, já que seriam responsáveis pela vida deles. 3) A socialização da medicina, principalmente com a disseminação dos vários planos de saúde, facilitando o financiamento de tais expedientes que, como se sabe, são onerosos. Que não passe pela cabeça do leitor que aqui reside um convite ao relaxamento dos cuidados para se ter uma vida saudável. Nem tampouco ninguém é contra a intervenção invasiva em caso de necessidade claramente comprovada. Mas, sejamos sensatos e não caiamos na paranóia, tentando fugir das fatalidades biológicas. Isso me cheira a operação de amídalas no passado e mais recentemente ao irrestrito recurso às cesarianas. Da mesma forma, como são lastimáveis as incontáveis operações plásticas com fins estéticos, cujos efeitos, por vezes, são igualmente lastimáveis. As religiões, o catolicismo em particular, proíbem a eutanásia e devem fazer cara feia à ortotanásia. Assim como também são contra a legalização do aborto. Tudo à luz da valorização excessiva da vida, incluindo o período anterior ao nascimento ou mesmo depois da morte (na presunção da vida eterna). Quem discorre dessa maneira sobre a efemeridade da vida, pode parecer que seja partidário da pena de morte. Absolutamente, não! Como também não defendo uma política governamental compulsória de controle de natalidade. Esta última tem que ser feita democraticamente. O Estado dá as condições, e as pessoas decidem. Nada mandatório, autoritariamente, de cima para baixo. Se assim não fosse, os resultados dessas medidas, numa sociedade perversa e desigual como a brasileira, seriam: só os pobres morreriam condenados, bem como aos pobres seria vedada a possibilidade de ter filhos.
Genserico Encarnação Júnior, 67. Itapoã, Vila Velha (ES).
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