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ANO V - Nº. 150, em 10 de fevereiro de 2007.

Economia & Política.

 

CAPITALISMO GLOBAL

Que me desculpem os puristas (historiadores, economistas, cientistas políticos e sociólogos): atualmente sou um simples palpiteiro e contador de histórias. É nessa condição que vou discorrer sobre a origem e a evolução do capitalismo moderno.

O começo, situo-o no século das luzes, o dezoito, com a revolução industrial, cujo epicentro foi a Inglaterra. Seu teórico: Adam Smith (1723-1790), com o festejado A Riqueza das Nações. Sempre existe de plantão um filósofo, teólogo ou economista, para explicar intelectualmente os movimentos humanos.

O colonialismo, vindo de épocas anteriores, caracterizado pelo modelo explorador, mercantilizou-se com a necessidade de colocação dos produtos industrializados. Seu principal modo de convencimento: o poder de fogo das nações industrializadas, destacando-se o de Sua Majestade britânica.

Esse modelo foi vingando, vigorando, a despeito das novas idéias que surgiram. Inicialmente as do movimento da independência norte-americana, em 1774. Depois, as da revolução burguesa francesa de 1789. Idéias libertárias e altruísticas de grande significação, acompanhadas de muita truculência. Guerras de afirmação política e de conquistas territoriais. Enfim, raia o século XX testemunhando duas guerras mundiais; o sol se põe sobre o império britânico, e uma nova superpotência aparece: os Estados Unidos da América.

Já ao final da Primeira Guerra surge uma cunha no processo capitalístico: a revolução comunista e a criação da União Soviética. Com o fim da Segunda Guerra, o poder do mundo se bipolariza. A propósito, se Hitler voltasse suas baterias somente contra o comunismo emergente, possivelmente os países ocidentais teriam cerrado fileira em torno dele. Seu erro foi criar duas frentes de combate. Foi a nossa sorte. O mundo seria muito pior, talvez, como está sendo agora, com a hipertrofia do capitalismo.

Indevidamente, os líderes da emergente União Soviética se apropriaram das teorias de Karl Marx e tentaram chegar ao socialismo queimando etapas, o que não era cogitado pelo filósofo. Talvez aí já existisse o germe da sua futura dissolução.

Antes mesmo da eclosão da Segunda Guerra, já outra pedra no caminho se antepõe à escalada do capitalismo: a quebra da bolsa de Nova Iorque em 1929 e a depressão dos anos trinta, daí decorrente. Para superá-la, o Presidente Roosevelt cria o New Deal, outra fissura no pensamento liberal. Seu embasamento teórico: as idéias do brilhante economista inglês Sir John Maynard Keynes (1883-1946). A intervenção estatal na economia injeta recursos na sociedade, fazendo-a superar a crise de demanda que a estagnava.

Terminada a guerra, o ocidente precisava reformular o sistema financeiro e econômico internacional. Reúnem-se as sumidades em Bretton Woods, no nordeste americano, resultando na criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e na do Banco Mundial (BIRD - Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento). Para completar a teia capitalista, mais tarde foi assinado o Tratado do Atlântico Norte, cuja organização (Otan) se constituiu no seu poderoso braço militar.

Em Bretton Woods, Keynes foi o representante do Reino Unido. Seu ambicioso plano sugeria a criação de uma moeda escritural de curso internacional para evitar o predomínio do dólar americano. Perdeu a queda de braços com a tese americana, consubstanciada no chamado plano White, que colocava aquela moeda como centro e esteio do sistema financeiro mundial. Esse expediente permite aos Estados Unidos, ao imprimir notas verdes, poder comprar meio-mundo, tornando-se o maior devedor do planeta. Adquirem bens, serviços e trabalho de todo o planeta, fazem guerras, pagam compromissos emitindo notas pintadas com as efígies dos pais da pátria ou com a vã promessa do “devo, não nego; pago quando puder”.

Marchas e contramarchas se sucedem no processo capitalista. O presidente francês, Charles de Gaulle tentou peitar o sistema monetário constituído, sob a liderança dos EUA. Assim caminhou a escalada capitalista até chegar aos dias de hoje, com todo o seu esplendor e poder.

Na onda do New Deal, a ONU criou a Cepal – Comissão Econômica para a América Latina e Caribe – onde se notabilizaram o seu primeiro Secretário-Geral, o argentino Raúl Prebish, e o brasileiro Celso Furtado. Essas idéias embasaram a construção do Brasil moderno e sua rápida industrialização, com a participação fundamental do Estado como o grande capitalista nacional, e a implementação de políticas, como a de substituição de importações. Um grande sucesso!

Nesse caminho, o capitalismo podia correr algum perigo. As idéias teóricas apontavam para o avanço do socialismo. A potência soviética pagava as contas da oposição e equilibrava o poder armado.

Nesta altura, vou entrar de enxerido nessa história, como testemunha ocular. Em meados da década de setenta, fui estudar na Holanda, no Instituto de Ciências Sociais de Haia. A matéria: Análise de Projetos. A metodologia: Análise Social Benefício-Custo.

No campo teórico, isso era como uma concessão da inteligência capitalista à intromissão do pensamento socialista. Por meio daquela metodologia apreciavam-se os projetos por sua contribuição ao desenvolvimento social dos países, não somente sob o prisma econômico-financeiro. Os preços de mercado, na avaliação dos projetos, obviamente conduzidos pelo braço governamental, eram substituídos por preços-sombra, calculados de maneira complexa e um tanto subjetiva, conforme as necessidades sociais de cada país.

A própria ONU, via sua organização para o desenvolvimento industrial dos países-membros, a Unido, criou uma das duas metodologias aplicadas. Um verdadeiro avanço sobre a análise de projetos baseada no desconto apressado de fluxos de caixa, visando à maior taxa de retorno sobre o capital investido. Leia-se: lucros, os maiores, e o mais rapidamente possível.

Passados alguns anos de minha volta, tomei ciência de uma palestra do Secretário de Estado norte-americano, à época, o Sr. Henry Kissinger, em visita ao Brasil, ministrada na Universidade de Brasília. Isso aconteceu em 1981. Os EUA já tinham perdido a guerra no Vietnam, e ele, abiscoitado o polpudo prêmio Nobel da paz (!).

Em minhas palavras, curtas e grossas, o que disse o Sr. Kissinger foi o seguinte: o processo histórico que está levando o mundo à esfera socialista é uma evidência, contudo os Estados Unidos não vão consentir isso, e vão liderar a reação contra esse movimento, colocando todo o empenho e força nesse sentido.

Dá para entender melhor por essas idéias o significado da palavra tão usada em tempos atrás – reacionário –, aquele que reage, oferece resistência. Nunca mais me esqueci desse tipo de colocação que, logicamente, não foi feita tão cruamente assim. O pensamento do Secretário de Estado foi muito mais bem-elaborado e camuflado em linguagem diplomática dos punhos de rendas. Mas, no fundo, o que ele queria dizer era aquilo que minhas vulgares palavras disseram.

Para não alongar o texto: a União Soviética capitulou, e o perigo socialista sumiu. Até a China, o grande país comunista que restou, se transformou num gigante capitalista. A análise social benefício-custo não mais existe nos ensinos da ciência econômica. Benefício-custo passou a fazer parte da terminologia de enófilos emergentes. Agora, o perigo é outro.

O perigo é a supermega-hipertrofia do sistema vitorioso e de seu hegemônico império, com todos os nefastos resultados que a globalização capitalista e o pensamento neoliberal estão trazendo em seu bojo: apartação econômico-social generalizada e degradação ambiental.

O caminho para o socialismo foi barrado. Não necessariamente aquele da União Soviética; esse caiu de podre. Foi bom enquanto manteve a bipolarização, embora a ameaça da catástrofe nuclear pairasse sobre as nossas cabeças. O exercício do planejamento foi varrido das atividades governamentais. O que virá é incerto.

Vejam o caso brasileiro. Depois dos desastres dos últimos governos, com o advento das privatizações e o prosseguimento da política neoliberal, estamos estagnados por quase três décadas.

Walter Benjamin, filósofo alemão que se suicidou em 1940, já destacava a discrepância entre o admirável avanço tecnológico e a patente incapacidade de se organizarem sociedades mais justas e mais humanas.

O velho está caduco, e o novo ainda não nasceu. Um estudioso do comportamento humano disse que da percepção da crise para a decisão política de mudança sempre existe um lapso considerável de tempo.

Portanto, duvido que ainda esteja vivo para ver o raiar de uma nova era. Se e quando comerem do fruto, saboreiem-no por mim.

Genserico Encarnação Júnior, 67.

Itapoã, Vila Velha (ES).

jornalego@terra.com.br

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