JORNALEGO
Nº
14, em 10 de Setembro de 2002.
Ensaio
ANALFABETISMO
Ocorreu-me a possibilidade de conceituar de forma
mais elástica o que seja o analfabeto, além da significação restrita
comumente aceita; principalmente com a incorporação da última das classificações
a seguir, da qual, eu, atualmente, com bastante tempo para ler, tento escapar.
1.
A primeira
classificação de analfabeto a considerar é a clássica, isto é, aquela na
qual se enquadram as pessoas, digamos, acima da idade normal para a alfabetização
das crianças, que não sabem ler e escrever, nem sequer assinar o nome. Esse
contingente, em nosso país, diminuiu bem na década anterior. No entanto ainda
restam 15 milhões de analfabetos nesta classe no Brasil.
2.
Seguem-se as
pessoas que, acima daquela idade, assinam o nome, identificam o destino dos ônibus
e poucas coisas mais. Escrevem poucas e mal traçadas linhas, mas não conseguem
compreender um texto. Sua atividade intelectual está totalmente voltada para
ler ou escrever títulos e rótulos e não para compreender ou transmitir algum
pensamento na forma escrita. Poderíamos classificá-los como analfabetos
funcionais. São aqueles que têm até três anos de escola. Se adicionarmos
esta classe a anterior, isso perfaz 1/3 da população brasileira. Quase 60 milhões
de pessoas.
3.
A terceira
classe seria constituída dos que sabem ler e escrever, mas limitam a sua
leitura a uma única obra, por exemplo, a Bíblia. Praticam a monoleitura.
Talvez retrocedam intelectualmente ao limitar o universo de seu conhecimento.
Este grupo pode ser comparado com o caso dos índios que, mesmo continuando
analfabetos, quando catequizados, abrem mão de uma cultura riquíssima e se
transformam em seguidores de estreitos princípios religiosos.
4.
Poder-se-ia
criar um outro grupo de analfabetos, sempre no sentido lato. Os que só lêem um
certo tipo de literatura, como os livros idealistas, religiosos ou de
auto-ajuda. Aqui também poderíamos classificar os leitores exclusivos de
informação e que, mesmo lendo jornais e revistas, não se tocam pelos artigos
de opinião ou de formação. São simplesmente informados. Numa subclasse deste
grupo estariam as pessoas que se limitam a se informar sobre crimes, acidentes,
fofocas, vida de artistas e esportes.
5.
Ainda numa
outra classificação estaria o grupo de pessoas que, embora bem alfabetizadas,
não lêem (ou mesmo nunca leram) livros, de qualquer natureza. Consideram maçante
a atividade da leitura e desconhecem o universo que lhes é oferecido, os
caminhos que lhes são abertos através da leitura de livros. Não compreendem
também a ficção literária, que julgam ser histórias inverossímeis e,
portanto, desprezíveis. Nesta classificação poderíamos enquadrar também os
universitários que concluem seus cursos sem ler um único livro, valendo-se
unicamente de apostilas.
6.
Finalmente,
os aficionados pelos livros, que lêem tudo que lhes cai nas mãos ou ao alcance
dos olhos (e do bolso), mas não têm descortino para julgar o que lhes parece
certo ou errado, bom ou mau, aceitável ou não. Pensam pela cabeça dos autores
que lêem. Não têm senso crítico e qualquer plano de leitura. Aqui também se
incluem os que lêem para dizer que lêem e para contar o que leram.
Enfim, tentar não se enquadrar numa dessas
categorias é um esforço louvável a ser empreendido em nome do maior
conhecimento e da liberdade individual. Considerando a complacente elasticidade
atribuída ao conceito de analfabetismo neste artigo, de uma maneira ou de
outra, somos uma nação cuja maioria é de analfabetos. Não obstante, não
fique triste, caro leitor; admitindo-se as exceções de praxe, você pode muito
bem estar fora desta classificação fruto da mente de um “ociólogo”
(neologismo criado por Millôr Fernandes).
Genserico Encarnação Júnior
Itapoã, Vila Velha
(ES).
eeegense@terra.com.br
