JORNALEGO
ANO V - Nº. 148, em 20 de janeiro de 2007.
Crônica de uma cidade.
PELAS COSTAS DO CRISTO
Arnaldo Bloch, em
sua crônica de 6 de janeiro passado, em O GLOBO, intitulada “Chico City”, conta
como foi a estréia carioca do show Carioca, de Chico Buarque. Além de registrar
a presença de várias celebridades na audiência, o autor prossegue perguntando:
que cidade é essa para onde vieram, viveram e morreram tantos expoentes das
artes. Por que esse Rio lindo, acolhedor de tão ilustres personalidades, está
assim, tão violento, tão perigoso, tão difícil de se viver?
Na visão do
cronista que ora lhes escreve, o ovo da serpente estava sendo chocado há muito
tempo, desde os tempos coloniais. Tal Rio, tal Brasil, tal Mundo. Desigualdade e
discriminação é o nome do jogo que faz virar a mesa. Violência e terrorismo,
seja lá o nome que dêem, são decorrências da apartação: aqui, na França, nos
Estados Unidos, na África do Sul ou no Oriente Médio.
Vou dar
meu depoimento a respeito. Adotei o Rio desde 1965 e ali vivi durante 26 anos.
Nesse tempo, cheguei a morar, por sete anos, na Zona Norte. Logo que a situação
econômica permitiu, voltei para a Zona Sul. Para o Rio Maravilha, tipo
exportação. Cidade Maravilhosa, Belacap, das lindas mulheres, do samba, das
praias, da alegria, do riso e da conversa fácil.
Mesmo
antes da mudança, ao comprar o meu primeiro fusca e com o acesso fácil permitido
pelos túneis, freqüentava muito mais o outro lado, com a exceção das idas ao
Maracanã.
O que
valia era o Rio Zona Sul, a faixa litorânea estreita entre as montanhas e o mar.
A vida da população periférica, principalmente a do morro e a das favelas, era
cantada, fantasiada e romanceada. Os favelados, tão próximos, iam sendo aceitos
enquanto atendessem às necessidades do asfalto.
As Zonas Norte e
Oeste, os subúrbios da Leopoldina e da Central, e, mais além, a Baixada
Fluminense, viviam apartados do grand monde. Por ironia da vida, o mesmo
governante que acabou com algumas favelas cravadas no coração da Zona Sul foi o
mesmo que abriu túneis ligando os dois lados da cidade partida.
Lembro-me
de que quando os primeiros ônibus de além-túnel chegaram às praias, cheios de
“suburbanos” (esse apodo qualificava a todos) os “donos do pedaço” reclamavam.
Foram até criados alguns grupos de jovens sarados (fascistóides) que tentavam
mandá-los de volta. Isso foi antes dos arrastões, quando o tiro saiu pela
culatra.
Não sei como se
consegue sair do imbróglio provocado por esse estilo de vida apartado que
existia no Rio, ainda existe, como em todo o Brasil. As celebridades que lotavam
o Canecão são aqui citadas simbolicamente porque representam o crème de la
crème da sociedade carioca, moradores da zona nobre. Não que possam ter
alguma culpa no cartório. Talvez possam tê-la na eventualidade de um tapinha na
erva ou uma ligeira fungada no pó. Tampouco o Cristo aludido no título desta
crônica tem nada a ver com o assunto. Também entra aqui por puro simbolismo.
Após as indagações
do aludido cronista, ele apresenta o diagnóstico no final do seu texto,
valendo-se da veia poética e, acima de tudo, lúcida, do Chico, quando toca,
através de seus versos, no ponto que estou a levantar.
“A
resposta pode estar em alguma pausa de algum verso de “Subúrbio”, em que Chico
saúda aquele Rio para o qual o Cristo dá as costas, onde faltam turistas e
sobram maravilhas que pouco se cantam; ou na atmosfera de “Outros Sonhos”, donde
emerge um Rio tão longe e tão perto de ser possível que dá vontade de chorar”.
Acho difícil uma
solução, no sentido clássico do termo, para o caso do Rio. Ou de São Paulo. Ou
de Vitória. Definitivamente, não será somente através de expedientes legais,
jurídicos e policiais emergenciais – necessários, mas insuficientes – que se vai
debelar essa onda de violência. É mais fácil a estátua do Cristo se virar no seu
pedestal do Corcovado para encarar o outro lado da cidade, do que sanar o
problema sem atacar as verdadeiras causas do fenômeno.
Não é fácil
consertar o que se passa numa cidade superpopulosa, desigual, com grande parte
de sua população marginalizada que, por causa disso mesmo, chegou a esse ponto.
Isso tudo, num contexto de um país neoliberal, privatizado, com população em
expansão, há mais de duas décadas patinando na estagnação econômica.
Valha-nos Chico,
filho de Sérgio, com sua poesia, seu lirismo, sua lucidez, para contrabalançar o
alto nível de pessimismo relativo do ar. Só implico com suas orelhas! Eu tinha
que encontrar algum defeito nele. Ninguém é totalmente perfeito.
Saudades do Rio.
Inveja do Chico.