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JORNALEGO ANO V - Nº. 147, em 10 de Janeiro de 2007. O conto do conto MORAL DA HISTÓRIA
Mais uma vez faço referência a um texto de um religioso famoso. Desta feita, trata-se do Frei Betto, em seu conto “Uma Ceia Mágica”, publicado no dia de Natal, em O Globo. Um conto emocionante, oportuno, criativo, bem-escrito, como tudo que vem da lavra do referido frade. Como se sabe, Frei Betto é um frade dominicano. Frei é o tratamento que se dá aos frades. Aprendi isso recentemente e repasso esse conhecimento para meus leitores. Não há de quê! O referido conto tem como personagens um sacerdote e uma prostituta. Começa com o padre rezando a missa do galo, continua com ele recebendo os cumprimentos e presentes dos paroquianos na sacristia e, depois, submergindo na mais profunda solidão. Entre os regalos, uma garrafa de vinho e um panetone. Fugindo da depressão, Padre Afonso sai em busca de companhia para passar o fim de noite do Natal. “Enfiou-os (aqueles dois presentes) na pasta usada para levar sacramentos aos enfermos e se dirigiu à zona boêmia”. Lá encontra Shirley. Vão para um hotel vizinho. A tentativa da moça em desabotoar a blusa é abortada pelo sacerdote que explica a ela a sua condição de religioso, sua solidão, seu objetivo nesse contato: conversar, estar com alguém para comemorar o nascimento de Jesus. Lógico que não iria privá-la dos rendimentos que auferiria caso fosse outro o cliente. Pagaria o de costume. Conversaram muito, trocaram memórias, confidências, esperanças, histórias e falaram da vida, principalmente das suas dores e coisas que geralmente se dizem nesses tipos de encontros. O padre ofereceu a eucaristia e ela aceitou. “Após a comunhão, padre Afonso tirou dois copos da pasta, encheu-os de vinho e partiu o panetone”. “Os dois ainda conversavam sobre suas vidas enquanto clareava o dia”. Assim termina o conto do frade, não do vigário. Agora, se me permitem e se as musas do conto me ajudarem, eu vou continuá-lo. Será que se Frei Betto tivesse notícias do que eu estou a fazer, iria brigar comigo, por estar pegando carona no seu texto, ou criticar-me pelo encaminhamento que darei ao seu belo conto? Espero que não. Frei Betto: gosto tanto de você, admiro seu posicionamento político, respeito sua religiosidade, admiro seus escritos; tenha piedade de mim! Kyrie Eleison! A seguir, como a minha imaginação conclui o conto. Infelizmente, um transeunte, contumaz freqüentador daqueles locais, flagra o religioso acompanhado da moça. Tanto na ida quanto na volta. Como demorou! Bateu pra sua patota a fofoca impossível de manter em segredo. A notícia chegou a uma das religiosas freqüentadoras da igreja e se espalhou imediatamente pela cidadezinha do interior. Poucos dias depois o pároco foi chamado à capital para ter uma entrevista com o monsenhor corregedor do arcebispado e depois encontrar-se com o próprio arcebispo. O padre disse toda a verdade aos seus superiores que acreditaram piamente no que ele contou. Depois, ajoelhou-se contrito e, sob o sacramento da confissão, confirmou o que dissera. Após rezar sua penitência, tomou o Corpo de Cristo, na eucaristia. Diante das explicações, o encontro com o arcebispo foi extremamente cordial. No entanto, foi avisado de sua transferência para uma paróquia na capital, para evitar confusões com o pessoal da cidade interiorana. A nova paróquia ficava num bairro de classe média alta, com altos graus de escolaridade e cultura. Rapidamente começou a granjear a admiração de todos, dos jovens aos mais velhos, das senhoras e dos acólitos que o assessoravam nos seus trabalhos paroquiais. Alguns poucos souberam do que se tinha passado lá no norte do Estado. Civilizadamente não comentaram, e ali mesmo morreu o assunto. Suas preleções diárias, principalmente nas missas ao cair da tarde, eram admiradíssimas. Quase sempre citando trechos do evangelho, discorria sobre a necessidade de uma modificação nos corações e mentes do homem moderno urbano. Falava de amor, paz, bondade, tolerância, piedade, generosidade, compaixão, humanidade, em suma de tudo que Jesus Cristo pregara na sua passagem pela Terra. E mais: doação, desprendimento, despojamento, compreensão... Sua voz era serena, pausada, sibilante, melíflua. Extrapolava dessas considerações para as coisas práticas do dia-a-dia das pessoas, o relacionamento dos casais, desses com os filhos, a cidadania, a ética na política e dos políticos, a defesa do meio ambiente, as posturas comportamentais corretas. Ousado, entrava nos campos da filosofia e da psicologia. Aliás, fizera um curso intensivo sobre esta última ciência. Criticava a pena de morte. Compreendia, sempre lamentando, a dissolução dos casamentos, como uma praga da modernidade. Admitia, contudo, veladamente, as novas uniões e as abençoava sem alardes. Não abordava os temas mais problemáticos, como o homossexualismo. Criticava acerbamente o aborto. Tudo de acordo com os ditames de sua Igreja. Defendia o ecumenismo. Quando falava de drogas e drogados, era sempre sob um prisma cristão, de compreensão das necessidades dos usuários, visando sempre a sua recuperação, e culpando os traficantes. Fazia um sucesso espetacular! Todos os noivos queriam se casar com suas bênçãos e preleções. Passou a dar aulas de Teologia numa faculdade particular que abriu um curso sobre a matéria. Escrevia uma crônica semanalmente no mais importante jornal da cidade. Dava entrevistas às rádios e televisões. Estava escrevendo um livro. Enfim, estamos diante de uma alma devotada à compreensão das pessoas, conhecedor que era das mazelas humanas. Difundia os mais sãos e cristãos pensamentos e propósitos, aliás, muito condizentes com aquele gesto insólito, porém nobilíssimo, que praticou naquela noite de Natal na cidadezinha provinciana. Cada vez se ilustrava mais, repartindo, principalmente entre os jovens, seus novos conhecimentos, em reuniões semanais na igreja, cujo quorum aumentava sempre. A novidade ficava com os novos conceitos da física quântica que usava para explicar a fé, muito além da racionalidade cartesiana da vida. Também não se privava de atividades assistenciais: dava suporte às iniciativas de várias senhoras da sociedade local, em atendimento às emergências da periferia, uma favela brava que se limitava com o bairro. Também lá em cima do morro, onde fora construída uma capela, ministrava os cultos católicos, pregava numa linguagem mais acessível ao nível de cultura local, a despeito dos perigos que corria ao subir aquelas escadarias. Os marginais respeitavam-no muito, a pedido de suas mulheres e filhos. Realizava-se como pessoa e homem de Deus. Elevava-se espiritualmente e tinha a consciência tranqüila de estar servindo à sua comunidade e à obra de sua amada e santa Igreja. Quanto a Shirley? Ah! A Shirley! Bem! Sua vida continua a mesma, a rodar bolsinha no calçadão à beira-rio da cidade onde ganha o seu sustento, ansiando por outro Papai Noel a visitá-la na noite de Natal que, por sinal, se aproxima celeremente. Genserico Encarnação Júnior, 67. Itapoã, Vila Velha (ES)
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