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JORNALEGO ANO V - Nº. 146, em 30 de Dezembro de 2006. Crítica ANTES DO ANTES E DEPOIS DO DEPOIS Recentemente li um artigo do Leonardo Boff, intitulado “Que Havia Antes do Antes?”, em A Gazeta (ES), em um dia qualquer deste mês. No seu início, o ex-sacerdote discorre com rigor científico e analítico, convincentemente, sobre a criação do universo. “Ela poderia ter-se dado com uma incomensurável explosão – big bang – ocorrida há cerca de 13,7 bilhões de anos”, citando pesquisas que podem validar esta hipótese. Um determinado trecho de seu artigo chega às raias do poético quando diz: “A nossa idade não é aquela de nosso nascimento, mas essa, do nascimento do universo há tantos bilhões de anos, quando estávamos potencialmente todos lá juntos com os demais seres do universo”, “Esse dado, segundo alguns, teria sido a maior descoberta da ciência”, conclui o teólogo. Prossegue perguntando o que havia antes do big bang? Cita os cosmólogos que nos sugerem que havia o vácuo quântico, o estado de energia de fundo do universo, origem de tudo o que existe. Por aí vai, brilhantemente. Eu, grudado na leitura, entre ansioso e curioso, pensava: pelo andar da carruagem esse cara vai chegar à negação da tese da criação divina do universo, não vai ter saída. É quando pergunta o autor: E antes do vácuo quântico, o que havia? Citando um laureado cosmólogo, responde à pergunta: nada! Nesta altura L.B. começa a escorregar na maionese dizendo que começaram a aparecer coisas e isso é sinal de que Alguém as tirou do nada. A sacação já começou intrometendo alguém e, além do mais, já o citando com a letra maiúscula, forçando a barra para chegar às conclusões que a seguir apresenta. Portanto, conclui, havia Deus. E prossegue falando do Incognoscível, O Impenetrável, o Mistério, Tao, Javé , Olorum, da Totalidade de simetria perfeita, a Energia infinita e o Amor transbordante. Ufa! Não consigo imaginar a ebulição romanesca e fantasiosa da mente desse renomado ex-sacerdote. Se eu tivesse o poder do papa Bento XVI cassaria a palavra dele outra vez, agora por razões bem diferentes daquelas porque foi cassado anteriormente. Aliás, admiro-o pelo seu posicionamento político. Vou prosseguir tratando de outro religioso e de um livro, para abordar a segunda parte deste artigo (o depois do depois), e quero logo avisar que não tenho nada a ver com a crença de quem quer que seja. Apenas não engulo determinadas teses retiradas do bolso do colete, verdadeiras invencionices, sem fundamento, sem sustentação lógica e analítica (eu nem sequer apelo para o rigor científico), imaginações fantasiosas e conclusões apressadas. Tudo isso feito com a maior cara de pau de estar ministrando a mais absoluta verdade. O segundo religioso e o livro aos quais me refiro são o Teilhard de Chardin e o seu “O Fenômeno Humano”, lido há algum tempo. Brilhante a exposição do conceituado jesuíta e paleontologista francês explicando o aparecimento da vida e do ser humano na face da Terra. Didático, apresenta inclusive um gráfico claro da evolução das correntes que geraram o homem, passando pelos peixes, anfíbios, mamíferos e finalmente chegando à beleza da criação (?), nós (presunção!). Aviso às feministas: no vernáculo, o coletivo, quando se trata de homens e mulheres juntos, é do gênero masculino que, no caso, é neutro, dizem os gramáticos. O que não quer dizer que o coletivo seja do sexo masculino. Pura convenção. Assim, a palavra “homem”, representa os dois sexos quando juntos. Poderia ter sido a palavra “mulher” se assim se convencionasse. Culpa da história bíblica que fez nascer primeiro o homem e depois a mulher. Voltando à vaca fria: eu lia extasiado aquelas exposições que, antes, não havia recebido tão bem explicadas. Lá para as tantas, ao final do livro, começa a sacação tão comum dos espíritos religiosos: e depois de tudo? Aí o T. de C. extrapola criando o ponto ômega (o Reino de Deus) onde o homem ao alcançar a perfeição se identificará com o Todo Poderoso em sua plenitude, pois dentro dele, do homem, já existe uma fagulha divina. Por quê? A título de quê? Como ele chegou a esse ponto. Inexplicável! É o que ele pensa. Sua crença. Sua fé. Detesto essas conclusões inventivas, mentirosas, verdadeiras prestidigitações para enganar incautos. Empulhações! Assim se arrasta a humanidade, com esses senhores, muito bem considerados em seus meios e no mundo intelectual, igualando-se a quaisquer padrecos e pastorezinhos de televisão, abusando da crendice do povo, a espalhar e semear estultices em terreno fértil. O meu texto reflete minha indignação. Ninguém está criticando a crença de ninguém. Como não se pode provar e garantir que Deus não existe também não se pode provar e garantir que Deus exista. Essa discussão se situa no campo da fé e nada aí pode ser provado e garantido. O que existe é mistério que nunca será esclarecido. A nossa mente não tem capacidade de explicar isso. O que me irrita são pessoas renomadas que não se dão ao respeito ao terminar os seus textos, iniciados de modo brilhante. Mas que, ao concluir, descambam para o delírio. Quanto a mim, não estou desrespeitando ninguém, só exijo respeito para com a minha modesta inteligência. Por falar em modesta inteligência confesso ser primário o meu conhecimento da obra dos dois religiosos citados. Estou fazendo esta crítica impulsivamente, por força de meu descontentamento diante das conclusões apresentadas pelos citados senhores em seus escritos aqui aludidos. Genserico Encarnação Júnior, 67. Itapoã, Vila Velha (ES).
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