JORNALEGO
ANO V - Nº. 145, em 20 de
Dezembro de 2006.
Conto de Natal
CERIMÔNIA DO ADEUS
São sete. Conta e conto de
mentiroso! Sete viuvinhas saudáveis e alegres como são as velhinhas de hoje.
Estão reunidas em um jantar de fim de ano que vem se repetindo há quase meio
século. Todas setuagenárias moderninhas, sem “p”.
Bonita a turma, agora reduzida
à metade! Animados os encontros de confraternização de antanho. Eram tantos! Os
encontros e os participantes. Os homens e as mulheres, ao longo e ao final de
cada ano. Antigamente, essas últimas celebrações eram realizadas em casa, em
rodízio, cada ano numa casa, entre o Natal e o Fim de Ano. Juntavam-se os
pratos. Depois o evento migrou para os restaurantes, quando esses passaram a ser
mais confiáveis.
Eram quatorze ao todo. A turma.
Eles e suas mulheres. Elas e seus maridos. Agora são sete. Só elas.
O grupo fora constituído, como
de costume à época, em torno dos laços afetivos e profissionais dos seus homens:
a infância, o colégio, a universidade, o trabalho deles.
À medida que namoravam,
noivavam e se casavam – como pedia a liturgia do amor formal – elas foram se
agrupando em torno desse núcleo duro e se afeiçoando entre si, na cidade
ainda pequena em que nasceram e viveram. Muitas já se conheciam antes.
Reforçaram-se assim as bases da união, foram se acoplando, amalgamando-se,
tecendo a trama, construindo a turma com a sua solidariedade e seus filhos. Seus
sorrisos e lágrimas. Na alegria e na dor; lembram-se? Corais coralinas!
Tudo começou há anos! Nos
tempos em que os homens trabalhavam fora e elas cuidavam da casa e dos filhos.
Eles sempre mais velhos do que elas.
Há um quarto de século, aos
pouquinhos, à francesa, eles começaram a se ausentar, ainda na flor dos seus
quarenta e poucos anos. Os retardatários as deixaram na travessia dos séculos,
superada a barreira sexagenária.
O coração foi o principal
vilão. Houve acidentes. Outras causas deste mundo louco de preocupações,
naturais e fabricadas, também provocaram a defecção masculina.
O placar inaugural foi mudando
paulatinamente, mantendo o número de mulheres e diminuindo o de homens. Dos
inusitados 7 x 7 iniciais, quando começaram os encontros, passou-se para os 7 x
6; 7 x 5 até chegar aos atuais 7 x 0. Goleada feminina!
Hoje são sete mulheres
solitárias de seus companheiros e solidárias entre elas. Sete saudades que se
encontram anualmente na confraternização natalina e de final de ano. Saudades de
um tempo jovem, muito bem aproveitado no calor da amizade e de um tempo que
mudou muito, deixando marcas e sementes.
Não gostam e não permitem a
participação de filhos ou netos. Gente nova tem outras cabeças e geralmente
querem dominar e orientar a conversa dos mais velhos. Sentem-me bem a recordar
os primórdios da amizade, lembrar os maridos e conversar, sem compromissos, nem
formalidades, sem controles, sobre a vida. Os achaques, os remédios, os médicos,
os filhos, os netos e, principalmente, os genros e as noras. A lembrar as
marcantes discussões de antigamente que, olhadas de longe, se tornaram
irrelevantes, risíveis mesmo. Discutiam por pensar que poderiam ter razão e
ganhar a discussão. Coisinhas bobas, por exemplo: política. Foi-se aos poucos
tomando ciência da relatividade das coisas e principalmente da verdade, esta
infiel amante.
Foi quando, lá pela sobremesa,
uma delas anunciou que está namorando e vai se casar de novo. Silêncio! Um
senhor muito distinto, bancário aposentado, do seu grupo de melhor idade e da
igreja que freqüenta. Viúvo também. Usa as franjas das camisas para dentro das
calças e não fala palavrão. Eis o respeitável consorte. As outras o conhecem de
vista, lembram-se da falecida mulher e dos filhos.
Os olhares se cruzam surpresos,
curiosos, entre desdenhosos e algo invejosos. A conversa continua sobre o
assunto, informando-se sobre como isso se dera, quando seria o casório, se os
filhos já sabiam. Iam residir no espaçoso apartamento dela, já que o noivo
morava com a família da filha, dividindo um quarto com o neto.
Ao se separarem, desejaram
mutuamente os votos tradicionais de boas festas e a maior felicidade para a
noiva e sua nova vida. Sin-ce-ra-men-te!
Ato contínuo, as linhas
telefônicas da cidade se congestionaram com as informações e análises sobre o
fato novo, discutindo-o à exaustão. A novidade foi espalhada urbe et orbe.
“Tá certo que a solidão é um
monstro apavorante, mas por outro lado tem a vantagem de garantir certa
liberdade para as pessoas descompromissadas. Agora, uma coroa de mais de 70 anos
a se casar outra vez, com filhos criados e netos já grandes, isso é uma
insensatez! Ele vai é se valer dos bens dela, da casa e tudo mais. Arranjou uma
enfermeira para cuidar dele. Candidata a enviuvar novamente. Que besteira,
queridinha!”
Bem, eu sou somente o narrador
desse evento histórico e do seu surpreendente grand finale. Mas, se me
permitem, vou arriscar um palpite: acho que foi o último ano desse tipo de
comemoração. Afinal, abriram a guarda e deixaram que o outro time marcasse o gol
de honra! E o artilheiro é um arrivista, um alienígena! Qual-o-quê! Nem pensar!
Duvi-de-o-dó se esse encontro se repete em 2007!
Desconheço as razões profundas
que poderiam causar a descontinuidade das festas de fim de ano desse simpático
grupo remanescente de senhoras. Foge à minha competência. No presente caso sou
repórter e não analista. Digo, tão-somente, o que a minha intuição masculina me
sinaliza, diante do citado anúncio nupcial. Escapam-me os porquês da solução de
continuidade (!) das comemorações. Taí: um belo trabalho de especulação para
vocês, leitor e leitora atentos, mais afeitos a esse tipo de consideração.