JORNALEGO
ANO V - Nº. 144, em 10 de
Dezembro de 2006.
Crônica
ODE AO SONO
As epígrafes aparecem em quase
todos os romances de Clarice Lispector. Assim me informam num dos inúmeros
rodapés da presente edição de A Paixão Segundo G.H. Na abertura desse romance
encontrei uma frase atribuída a Bernard Berenson (historiador e crítico de arte
norte-americano) que assim traduzo livremente:
“Uma vida completa pode ser
aquela que se identifique totalmente com a sua não-identidade”. “Assim, a morte,
perde a sua individualidade”.
Bom começo para a leitura do
romance e do que agora escrevo.
Logo nos primeiros capítulos
descobri o trecho abaixo.
“Dar a mão a alguém sempre foi
o que esperei da alegria”. (Em outro rodapé soube que essa frase está gravada no
túmulo de Clarice, no cemitério judaico do Caju, no Rio de Janeiro). “Muitas
vezes antes de adormecer – nessa pequena luta por não perder a consciência e
entrar no mundo maior – muitas vezes, antes de ter a coragem de ir para a
grandeza do sono, finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a
enorme ausência de forma que é o sono”. “E quando mesmo assim não tenho coragem,
então eu sonho”.
Mais adiante: “Ir para o
sono... será pôr-me à beira do nada”.
Conheci um verso do Drummond
que me impressionou muito. É assim: “Não mais o sonho, mas o sono livre de todo
o excremento romântico”. Na minha tardia juventude, achei por bem adaptá-lo para
servir como protetor de tela do meu micro e orientar as minhas escrituras.
Transformei-o em: “Sonhar o sonho livre de todo o excremento romântico”.
Agora, sexagenário, mais
maduro, começo a observar que o sonho é uma atividade juvenil ou de quem ainda
está na liça da vida, planejando, construindo.
Vivo a fase da desconstrução o
que não deve ser confundida com destruição. Não quero ser mais nada quando
crescer! Começo a aceitar o sono como a perfeição da vida, prenúncio da
perfeição maior. Não ouso dizer o nome dela para não ferir mentes mais
sensíveis, que podem achar que o autor já tenha passado do ponto.
Nada de mórbido. Trata-se
simplesmente de um pensamento mais apurado e longamente maturado. Adoro a vida,
sem os penduricalhos da fantasia e do idealismo romântico.
Renuncio, portanto, à
transfiguração que fiz do verso do Drummond. Eu ainda não tinha alcançado a
idade de compreendê-lo. Fi-lo agora, segurando a mão de Clarice. Com a
modificação do verso, tinha criado um paradoxo evidente, do qual não me dera
conta, ao aceitar o sonho, querendo-o livre do excremento romântico.
Só o sono é puro e livre!
Acho que vou me dar bem (mal?)
na leitura desse romance.