JORNALEGO
ANO V - Nº. 143, em 30 de
Novembro de 2006.
Opinião
IDEOLOGIAS
Ideologias não são
meramente pensamentos etéreos, filosóficos, metafísicos, que vagam nas cabeças
de algumas pessoas desocupadas. São idéias que presidem todas as decisões e
todas as ações, de todas as gentes e de todas as sociedades. A repetição da
palavra todas é propositada. Elas definem uma postura de vida, uma visão
política, uma direção econômica, enfim, coisas muito práticas.
Para efeito
didático, é válido pensar, nesta oportunidade, em esquerda e direita, a
maniqueísta divisão político-ideológica, embora no dia-a-dia existam várias
posições entre esses extremos, que se igualam na radicalização dos
procedimentos.
A ideologia da
esquerda é geralmente associada ao projeto socialista (carente de uma definição
precisa). É a quimera da igualdade, fraternidade (não paternalista),
nacionalista (não xenófobo; na verdade internacionalista numa etapa mais
avançada) e distributivista (mesmo que a distribuição igualitária e absoluta
seja utópica). Nesse modelo, o Estado teria maior participação no planejamento
global das atividades, especialmente na alocação dos investimentos (públicos e
privados), visando a uma economia de bem-estar, mais justa; objetivos estes mais
desejáveis do que o crescimento econômico a qualquer custo, sem sustentabilidade.
A história nos forneceu alguns exemplos autoritários, na implantação de regimes
socialistas e comunistas não muito compatíveis com os fins que se dizia atingir.
Daí por que muita gente não considera essa posição ideológica como democrática,
o que é um lamentável erro.
A ideologia da
direita, excluídos, como sempre, os radicalismos (nazifascismo, militarismo,
colonialismo, imperialismo), é geralmente associada ao regime capitalista (mais
fácil de definir porque convivemos nele e com ele). Aqui prevalecem as forças do
mercado, com forte componente mercadológico (“marketing”) e consumista. Mais
recentemente de forte conteúdo financeiro. É o modelo da “mão invisível”, da
iniciativa privada, onde o Estado se limita às funções reguladoras e às
atividades socialmente importantes que não são lucrativas. Dessa forma, as
necessidades da sociedade seriam bem atendidas. Todos, na busca egoísta do seu
bem-estar, provocariam o almejado bem-estar geral.
Aquela é a
ideologia da solidariedade, esta a da competitividade. Aquela é um projeto, a
despeito das tentativas mal-sucedidas. Esta o deja vu, a espera das
conseqüências. Ambas se justificam com suas ótimas intenções (das quais o
inferno está cheio).
Ambas as visões são
criações humanas, defendidas e colocadas em prática por pessoas e, como tais
passíveis dos humores, defeitos, ambições e vilezas do ser humano. Como também
nas idealizações religiosas.
Em nossa porção
ocidental do planeta, boa parte da população incorre geralmente em outro erro,
por razões óbvias, quando pensam que as ideologias, só as têm, aqueles que
sonham e querem um modelo alternativo, tipo socialista, ou os inimigos das
mazelas capitalistas. Como se capitalismo não fosse uma ideologia.
Tudo é ideologia.
Inclusive a tentativa de “desideologização” da discussão, da decisão e da ação.
Como se houvesse um modelo correto de agir, e o outro fosse subversivo
(demoníaco mesmo) ao pensamento vigente e flagrantemente vitorioso neste começo
do século XXI. Modelo esse que, depois da queda da União Soviética, vem sendo
fortemente aceito por grandes países orientais. Depois do Japão, vencido na
Segunda Guerra, mais recentemente temos o exemplo da própria Rússia e da China
(um país ainda politicamente comunista) e dos países do sudeste asiático, como
exemplos da avassaladora escalada capitalista.
Geralmente, aquelas tentativas de “desideologização” têm como alvos os
defensores da ideologia, digamos, de esquerda, alternativa. Como se estes fossem
os monopolistas da ideologia. Nada é isento de ideologia: da educação, da
cultura, da tecnologia, da ecologia à maneira como se portar em sociedade. No
estilo do Nelson Rodrigues: sem ideologia não se chupa nem sequer um chica-bon!
Recentemente ouvi um discurso de um deputado na Câmara Federal: o
parlamentar aludia às falsas ideologias de algumas das novas lideranças
sul-americanas. O que vem a ser isso? Simplesmente as ideologias do outro,
daquele que não compartilha de sua visão.
“O inferno são os
outros”, já dizia Sartre.
– “Eu faço a coisa
certa, como ela deve ser feita; nada que tenha o ranço ideológico”. (Diria o
nobre/pobre deputado).