JORNALEGO
ANO V - Nº. 142 - Em 20 de
Outubro de 2006.
História crônica
REMINISCÊNCIAS
Para mim parece que
foi ontem! Muitos velhos já se esqueceram dessas histórias. Muitos jovens nunca
delas tiveram notícia.
Eu tinha 6 anos
quando a guerra acabou e com ela o período discricionário de 15 anos de Getúlio
Vargas. Foram marcadas eleições democráticas em que concorreram como principais
candidatos o General Eurico Gaspar Dutra, Ministro da Guerra do Getúlio, e o
Brigadeiro Eduardo Gomes.
Dutra, com
a indicação do ex-ditador, representava a continuação. Foi apoiado pelos antigos
PSD (conservador) e PTB (trabalhista). Esse último era o partido do Vargas, o
pai dos pobres e dos trabalhadores, o líder gaúcho da revolução de 30,
deflagrada contra a elite agrícola café-com-leite do país (São Paulo e Minas
Gerais) que dominara o país durante a República Velha. Seu governo superou a
revolução constitucionalista paulista de 32, a intentona comunista de 35 e o
golpe integralista de 38.
O Brigadeiro era o
candidato da UDN, um partido elitista de direita. Candidato da ruptura, da
mudança, da suposta ética, da eficiência, da moralidade.
O Dutra era feio,
carrancudo, inexpressivo, atarracado, casado com a piedosa Dona Santinha, a
grande patrocinadora da proibição das casas de jogos no país (!). O Brigadeiro
bonitão, solteirão, criador da Aeronáutica Brasileira e herói e único
sobrevivente do movimento de 1922 dos Dezoito do Forte de Copacabana. Se
precisarem, apelem para o Google!
Meu pai, empresário
emergente, era contra o Getúlio, por conseguinte brigadeirista. Logicamente eu
imitava meu deus, meu guru, meu guia, meu exemplo. Só consegui me libertar dos
padrões políticos paternos muito mais tarde.
O Getúlio, seus
seguidores e candidatos representavam a plebe ignara e hostil, a pelegada,
a corrupção, a ditadura, tudo de mal e sujo que poderia acontecer no país. O
Brigadeiro era a vestal, o bom-moço, o asseio, a ordem, o fim da corrupção e da
balbúrdia que empestavam o solo pátrio.
Eu
distribuía cédulas do Brigadeiro, portava o escudo da tocha udenista na roupa,
defendia as idéias do meu pai nas discussões com o meu avô, tios e primos. Ainda
bem que meu progenitor não era integralista, seguidor de Plínio Salgado!
Ganhou o Dutra.
Perdeu o Brigadeiro.
Depois de terminado
milagrosamente o novo mandato presidencial, novas eleições ocorreram. Quem é o
candidato do governo? Getúlio Vargas, refeito e egresso do seu exílio rural em
São Borja (RS). Quem é o candidato da oposição? Novamente o Brigadeiro.
Para encurtar a
conversa, na minha infantil e paternal concepção, novamente o mal venceu o bem.
O mau venceu o bom. O feio venceu o bonito. O errado venceu o certo. A plebe
venceu a elite. O baixinho venceu o esbelto.
Continuava assim o
modelo trabalhista que aumentou as conquistas da classe obreira. Criaram-se
novas estatais em áreas estratégicas. Um governo inquietante para a classe
política da elite, congregados na UDN, que ainda não conseguira chegar ao grande
poder através do voto popular.
Começam a jogar no
tapetão (imprensa), capitaneados pelo vibrante jornalista e deputado Carlos
Lacerda, colocando em questão as decisões presidenciais. Os acertos e os
desacertos.
Até que certo tiro
de pistola, numa noite em Copacabana, objetivando alvejar o citado deputado,
acerta um Major da Aeronáutica que o acolitava, provocando a sua morte. Lacerda
sai ferido na perna e passa a intensificar sua oposição ao governo denunciando o
mar de lama que corria nos subsolos do Palácio do Catete, a então sede do poder
central no Rio de Janeiro.
A guarda pessoal do
presidente que arquitetou o diabólico plano, falhou também na execução do
atentado ao principal opositor ao governo, fazendo crescer a onda oposicionista.
O Brigadeiro, duas vezes derrotado nas eleições, garante: “Para a honra desta
Nação este crime não ficará impune”. Cria-se uma comissão militar de inquérito,
para desvendar o crime injustificável, o que desarticula totalmente o governo.
O fim trágico dessa
história foi o suicídio do Getúlio em 24 de Agosto de 1954. O presidente legou
ao povo uma brilhante carta-testamento apontando as razões profundas do
acontecido e conclamando a Nação para a continuação na trajetória democrática,
trabalhista e popular.
Depois de um
mandato tampão do vice-presidente, interrompido por tentativas de golpes de
direita (Lacerda e Marinha) e legalista (Marechal Lott e o Exército) toma posse
o novo presidente eleito, Juscelino Kubitscheck, apoiado pelo PSD e o PTB.
O hoje tão
festejado presidente JK, decantado em prosa e verso pelos saudosistas,
democratas e desenvolvimentistas, também tinha os seus pés salpicados de lama em
alguma sorte de operações suspeitas, segundo a oposição da UDN, em suas
empreitadas na construção de Brasília e nas obras de seu plano de metas, cujo
binômio era Energia e Transportes.
Essa a versão. Os
fatos, se verdadeiros, ninguém sabe, ninguém viu.
O JK teve ainda que
sobreviver a duas tentativas militares de golpe (Jacareacanga e Aragaças) que
poderiam incendiar as forças armadas e o resto do país, insuflados pelos
discursos da oposição lacerdista.
Meu idealismo
infantil e paterno só se quebrou com o fracasso do governo Jânio Quadros
(emprestado à UDN), em quem eu votara pela primeira vez.
Vou parar por aí
porque meu propósito não é fazer relatos como testemunha ocular da história. O
que me interessava contar já foi contado.
Todos os governos
populares, de fachada ou não, foram alvos de fogo cruzado das oposições
bem-situadas sob o pretexto de corrupção e de atos ilícitos. Claro que se eles
existiram foram deploráveis. Onde há fumaça há fogo. O atentado à bala ao
Lacerda foi devidamente confirmado e os culpados cumpriram pena. Imbecilidades
de mentes primárias!
A elite só veio a
ganhar o poder pelo voto (e não levou) com o meteórico Jânio, aludido aqui
também de passagem. Mais tarde, chegou ao pódio depois do golpe militar que
apeou do poder o Presidente João Goulart, com o rompimento da precária
democracia brasileira por mais de duas décadas.
A partir de 31 de
março de 1964 caiu a longa noite. O tempo desta crônica invernou e despertou 42
anos depois. Com os olhos embaciados, notou que a história continua. Não se
aprendeu a lição. De como disciplinar a corrupção e evitar o mal que ela
provoca. Seja pelas conseqüências diretas da própria corrupção, seja pela
utilização delas, a pretexto de manter-se, alçar-se ou voltar ao poder.
A história tem
vários exemplos nesse sentido. O povão assiste impassível. Ô raça! Talvez seja o
caso de tentar uma nova alternativa: trocar de povo.