JORNALEGO
ANO V, Nº. 141, em 10 de
Outubro de 2006.
Miniconto
FÉ
DEMAIS & POUCA FÉ
Os
cacófatos são propositais. É para dar um tom de galhofa a um assunto que
geralmente é tratado de forma séria.
Os
personagens desta história, enquanto não foram liquidados, cada um no seu devido
tempo, pelo exercício literário do contista, viveram casados e em concórdia no
sacrossanto recesso do lar. Não obstante, sempre tiveram posições distintas
quando a fé estava em questão. Com o passar dos anos suas posições se
radicalizaram. No que diz respeito ao homem, não havia como ele ultrapassar o
limite máximo da descrença, o ateísmo. Depois de sobreviver a uma forte
iniciação religiosa, foi vivendo, observando e desconfiando, até estancar nessa
fronteira intransponível. Restava-lhe criticar cada vez mais contundentemente a
escalada espiritual da mulher. Essa, não satisfeita com suas crenças católicas
originais, enveredou-se pela linha carismática que, ultimamente, partilhava com
a convicção espírita kardecista. Assim, esperava superar a pobre matéria do que
somos feitos e sentia-se evoluir filosófica e espiritualmente.
Fora isso,
a vida era um mar de rosas.
As rixas
do casal se concentravam na vida eterna, na vida depois da morte, na
reencarnação e em outras pérolas do idealismo humano. Convencida e convicta de
seus princípios e conceitos, ela tentava convencer o marido da continuação da
vida após a morte e da evolução espiritual que se seguia depois de cessada a
vida terrena. Ao morrer, após o impacto da passagem, o espírito, atônito, ainda
vaga por este nosso plano. A seguir, a alma vai para uma outra dimensão, de onde
passa por várias etapas de aprendizado no apuro das coisas etéreas, tudo
presidido por espíritos de luz dos quais depende o aprimoramento da ordem
universal.
O incréu,
por sua vez, fazia ver à sua amada que essa filosofia era coerente com a visão
antropocêntrica do ser humano, que considera a vida como o cerne do universo e a
vontade de viver ou o pavor da morte como indutores da idéia religiosa e
romântica das coisas, tudo sob o crivo estritamente humano, demasiadamente
humano. Muitos mistérios devem transcender a esse nível de conhecimento que, em
vão, tenta-se explicar de forma simplista.
A vida,
sem sua continuação posterior, não tem sentido, dizia a mulher. O sentido da
vida, se o tem, é simplesmente viver, retrucava o irreverente marido. Você vai
ver quando morrer, retorquia a crédula consorte, só aí então você vai se
convencer e aceitar tudo sobre o que eu não tenho mais dúvidas a respeito. Eu
sinto isso. Já tive vários sinais dessa existência extraterrena. Obtemperava o
marido: sou completamente aberto a essas manifestações divinas e espíritas e
nunca fui brindado com nada. A mente idealista está sempre receptiva a sinais e
interpreta-os na linha que melhor lhe convém. Ao contrário, a mente agnóstica
bloqueia tais sinais ou não os considera como manifestações do além ou do
divino.
Na
impossibilidade de um acordo, propuseram um pacto. O velho expediente muito
comum em alguns exercícios literários. Quem morrer primeiro vem contar ao outro
sua experiência. O marido aceitou ironizando.
Uma
primeira versão deste conto sugere a morte dele. Morreu, portanto, o nosso
herói, seja lá de que doença ou qualquer outro motivo. Choro, velório, enterro,
cerimônias póstumas, tudo como não estava nas últimas vontades do agora defunto.
Passado o
período de nojo, a viúva voltou às suas reuniões espíritas de evolução da mente,
tão vilipendiadas e menosprezadas pelo falecido, que as apelidava de sessões “misifio”.
Nada aconteceu por um longo tempo. Certa noite, quando o médium começou a
resmungar, fungar e ato contínuo recebeu o espírito do fiel frei (que o marido
insistia em dizer que era frade, pois não lhe tratavam pelo nome) eis que a
tiracolo do religioso espírito apresenta-se o novo habitante das dimensões
etéreas. Não se tratava de sua voz, propriamente dita, mas seu discurso através
do aparelho mental e fonético do seu intermediário. Mensagem: estava muito bem,
a acolhida tinha sido muita simpática, pois se tratava de uma alma pura que só
tinha o senão de ser cético durante sua vida mundana, levado a este
posicionamento por força de uma intelectualidade obtusa. Turrão, era o que ele
era, pensava a mulher, taurino dos bons. Depois de ter assumido a sua morte
passou a rever todos os seus conceitos. Estava se iniciando nos mistérios da
sustentação espiritual do universo, comandada por puríssimos espíritos que se
alimentavam da luz proveniente do mais perfeito espírito criador e mantenedor da
vida e da harmonia eternas.
Numa
mensagem dirigida à viúva falava da terrena arrogância dele, da incredulidade
sobre aquilo que ela sempre pregava e tanto quis incutir no seu intelecto, sem
sucesso. Ainda bem que os espíritos do bem o tinham compreendido, ele também um
espírito do bem, agora simplesmente carente de uma boa doutrinação no caminho da
luz até o momento da reencarnação. Capitulou, enfim, o cabeça-dura, pensou
sorrindo um sorriso de esgar, a espirituosa mulher!
A mulher
voltou para casa e durante a noite quase não pode conciliar o sono, pensando
contente na conversão póstuma do amor de sua vida. Feliz e excitada. Por fim
dormiu e sonhou com a possibilidade do reencontro com sua alma gêmea, de
preferência, num longínquo futuro, pois ainda tinha muitas obrigações a cumprir
neste vale de lágrimas.
Agora, na
versão alternativa desta história, quem morre é a mulher. O marido, sentido,
solitário, espera, depois das exéquias, receber as almejadas mensagens do além.
Lógico que ele não iria se dar ao desfrute de participar de sessões espíritas “misifio”.
Mas afinal, a mulher deveria achar um meio de comunicação qualquer, ela que
conhecia muito bem tais possibilidades, seja numa aparição na calada da noite ou
num simples puxão de pernas, acordando-o sobressaltado a ouvir o rizinho
satírico da brincalhona.
Passaram-se os anos. Nada! Diante da convicção irremovível da mulher enquanto
vivia, começou a pensar que ela agora, em seu estado imaterial, estava se dando
muito bem por aquelas bandas, tendo encontrado coisa melhor e esquecendo-o. Com
todo o seu ceticismo, mergulhou numa profunda depressão, com uma crise aguda de
ciúme que só se debelou quando pintou no pedaço um rabo-de-saia com prazo de
validade ainda bem longe do vencimento.