JORNALEGO
ANO V – Nº 139, em 20 de
Setembro de 2006.
Recordações
Semi-inventadas
QUARTO DE DESPEJO
Durante todo o ano de 1965, quando me transferi
para o Rio de Janeiro a fim de cursar o mestrado em economia, e boa parte de
1966, até quando me casei, morei em quartos de empregadas.
No Rio, fui muito bem acolhido numa república
de quatro amigos capixabas que por lá também estudavam. O apartamento era de
quarto e sala. Esta última fora transformada num segundo quarto com o anteparo
de um biombo. Assim, quando cheguei, cada quarto já estava ocupado por dois
companheiros.
Inicialmente dormia no sofá encostado ao
biombo. Passados alguns dias, preferi me transferir para o aprazível quarto de
empregada, pra lá da cozinha e da minúscula área de serviço que dava acesso ao
cubículo (2x2) de janela alta com básculas de vidro fosco, devidamente
emperradas, como é comum às esquadrias de ferro. Na entrada do quarto, no
pequeno espaço entre a cozinha e sua porta, de um lado havia um banheiro mínimo
e, do outro, um tanque de louça. Enfim, uma verdadeira suíte!
Para ali arranjei uma cama que se encaixava
apertada entre as paredes laterais, uma velha estante e uma mesinha estreita de
pés palito. Na estante ficavam meus livros, camisas dobradas e roupas de baixo.
As calças eram guardadas na mala, enfiada debaixo da cama.
Foi um tempo muito feliz. Estava muito bem
localizado, perto do local do curso, e com privacidade quase total no meu apê
dans le apê.
Minha vizinha mais próxima era Jacy, a
empregada doméstica do apartamento ao lado. Suas instalações eram o rebatimento
perfeito das minhas. Conversávamos por sobre o fosso que nos separava. Um fosso
real e metafórico.
Quando retornava a Vitória, em férias ou para
passar feriados ou finais de semana, minha cama, no quarto que dividia com
alguns irmãos, não mais existia. Minha família havia se mudado de uma grande
casa assobradada para um apartamento menor. Cabia-me o quarto de empregada.
Se porventura passasse uns dias na casa da
minha namorada, ficava no quarto de empregada, nos fundos do jardim e da
garagem. Tempos heróicos!
Só deixei de dormir em quartos de empregadas
quando me casei, já ao final de 1966. Nossa primeira casa foi um apartamento
miúdo, sem esse adendo. Minha vingança!
Depois de completar o curso, um futuro me
sorriu cheio de possibilidades. Graças às quotas que a sociedade me reservou.
Quanto a Jacy, ela era nordestina, cabeça
chata, cor parda, pequenina, alegre, piauiense, a materialização de Macabéa,
famosa personagem de Clarisse Lispector em A Hora da Estrela.
Desde que chegou do nordeste, nunca mais
deixou aquele quarto. Servia a um casal maduro e cuidava da filha deles.
Cozinhava, limpava a casa, lavava e passava as roupas e olhava pela menina.
Acompanhava-a todos os dias à escola e ficava com ela quando os pais saíam.
Esforçada e inteligente, aprendeu a ler quase
sozinha, com um pouco de ajuda da patroa. Soletrando, lia revistas antigas. Era
muito benquista por todos da casa e parentes mais chegados. Por nós, seus
vizinhos, também. E pelo pessoal da feira livre semanal, da padaria e da igreja,
onde fazia parte de uma irmandade de mulheres.
Depois da morte dos velhos continuou a prestar
serviços à filha deles, que se mudou para lá com o marido e os filhos.
Não se casou, viveu virgem de amores, não
deixou descendentes. Não tinha parentes por aqui. Morreu no final do século
passado. Um câncer a pegou pelas mamas que foram extirpadas e irradiou-se para
outras partes do corpo. Magrinha, sem cabelos por força da quimioterapia, usava
uma touca de crochê e refugiava-se em seu quarto, o mesmo de sempre, no final da
vida. Não lhe faltou a proteção dos patrões. Teve sempre ajuda médica, na rede
pública, e apoio psicológico, e mesmo certo carinho, principalmente por parte da
terceira geração. Por vezes, as crianças visitavam seu reduto para brincar com a
pequena coleção de bonecas que servia de decoração ao seu quartinho, sempre
muito bem arrumado, e assistir a programas infantis na tevê.
Doente, não mais trabalhava. Pela manhã tomava
um simulacro de sol que entrava pela janela da sala. De lá, divisava uma nesga
de mar, de onde, anteriormente, descortinava grande parte da Praia do Flamengo e
do Pão de Açúcar. Depois do almoço dormia por horas e fechava o dia com a sua
amiga tevê. Assistia a um rodízio de novelas.
Lembro-me dela, a tomar banho no banheirinho
em frente ao meu. A porta, em sua parte superior, era de vidro fosco. Assim
viam-se seus movimentos de braços e cabeça na sombra projetada pela lâmpada.
Como uma antiga lanterna mágica. Lembrei-me dela ao ler em Proust sobre o
brinquedo do menino Marcel. Ela nunca soube disso porque eu usava o banheiro
principal, no corpo do apartamento, portanto não via minhas sombras que
denunciariam as delas.
Sua vida, se não foi bem assim, deve ter sido
assim. Não tinha condições para virar o leme desta história. A doença que lhe
ceifou a vida poderia ter sido outra mais amena, ou simplesmente a velhice. Eu é
que optei por ser tão cruel como a vida!
Comparando
as duas trajetórias aqui expostas, observa-se que vem de longe a dualidade “casa
grande e senzala” na crônica social brasileira, com suas inúmeras e sutis
adaptações, que a literatura de vez em quando revela!
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O
título desta crônica foi tirado do livro homônimo, da favelada paulista Carolina
de Jesus, publicado em 1960.