JORNALEGO
ANO V - Nº. 138, em 30 de Agosto de 2006.
Crônica Imaginosa
PAVANA PARA UM IRMÃO
Rio de Janeiro,
1985. Jantávamos. O telefone tocou. De Vitória informavam-me que um irmão
sofrera um acidente cardiovascular e estava em estado grave. Solicitavam nossa
presença por lá. Uma amiga chegou esbaforida, olhos arregalados, confirmando a
notícia, sem nos transmitir informação mais precisa, além da de quem se tratava.
Não ousava contar detalhes, dos quais já sabia. Vôos só no dia seguinte. De
ônibus chegaríamos antes. Saímos rapidamente para a Rodoviária, na incerteza dos
fatos. Minha mulher e eu, os filhos ficaram.
Com o balanço da
viagem, sonhei durante todo o trajeto com a morte do meu irmão. O coração vilão
que matara toda a geração paterna anterior teria sido o ceifador de mais uma
vítima familiar. Prossegue o pesadelo: chegamos à capela do hospital que lhe
prestara a derradeira assistência. Seu corpo jazia vestido em um terno escuro,
dentro de um esquife já preparado com flores. Barbeara-se antes do enfarte
fulminante. Eu olhava assustado para sua testa larga, seus lábios exangues, a
vasta cabeleira branca encimando um rosto bonito com máscara irônica.
Depois foi o triste
velório no cemitério, o encontro com minha mãe viúva e irmãos, familiares,
amigos e colegas, o enterro e a volta pra casa. As visitas que se seguiram. O
silêncio. O nojo.
Quando acordei do
sono e do sonho, ao término da viagem, estávamos chegando à Estação Rodoviária
da Ilha do Príncipe, em Vitória. Zé Augusto e Moreno nos aguardavam.
– “Vocês acordaram muito cedo
para nos pegar aqui”, disse.
– “Nem sequer dormimos”.
“Cochilamos um pouco nas redes da varanda e viemos para cá”.
De
imediato fomos para Guarapari onde a caterva (galera é termo para
adolescentes) lá estava desde o dia anterior, uma sexta-feira, para passar o fim
de semana.
Comemorava-se o
encontro pelo encontro.
Quando chegamos, a
primeira pessoa que vi foi Rogério, meu irmão, cheio de vida, sorriso largo, que
chegava da casa-grande alugada para a temporada. De sunga e sem camisa,
abraçou-me forte grudando seu rosto com barba por fazer ao meu, bem escanhoado.
Desculpou-se por não ter ido me pegar, pois os dois outros tinham se encarregado
da tarefa. Se fosse, não haveria lugar no fusca para o casal além da bagagem.
Tomei, aliviado, o
café da manhã comentando a viagem (nada sobre o pesadelo), nossas vidas, cá e lá,
trocando impressões sobre o belo dia de fim de primavera, a água clara do mar,
nossos filhos e a festa que se seguiria com os amigos reunidos. Outros irmãos
estavam a caminho.
Fomos direto para a
praia, aonde o pessoal ia pintando aos poucos, à medida que acordavam ou
chegavam de Vitória. Rolou um rápido bate-bola na faixa extensa de areia, cedida
pela maré baixa. Éramos jovens maduros e ainda com muita disposição. Depois do
meio-dia, uma moqueca de sururu apareceu como por milagre, não se sabe de onde,
devorada com pão e cerveja. Sururi, segundo Rogério, que evitava
os oxítonos terminados em U. Urubu era urubi e Barra do Jucú, a mais
famosa das rimas ricas, pronunciava Barra do Juqui, à francesa.
A cerveja
era sempre presença marcante em nossos encontros. Nesta oportunidade surgira uma
nova moda: mergulhávamos nas tulipas um cálice cilíndrico com vodca ou
steinhaeger, não me lembro bem. Fui então apresentado ao “submarino”, a
bordo do qual quase me afundei!
Seguiu-se o almoço
na casa-grande, um “junta-pratos”. No final da noite, à guisa de ceia,
misturavam-se as sobras dos diferentes quitutes em uma grande panela de barro,
num mexido de apelido irreverente que um jornal de família jamais reproduziria.
Em conversas não
tão organizadas como aparecem/parecem aqui, passamos em revista nossas fraternas
afinidades e diferenças. Ele quando jovem era um grande desportista. Destacou-se
no basquete e no futebol. Bom arremessador de meia-distância. Ótimo zagueiro de
chute potente e certeiro nas cobranças de falta de fora da área. No limiar dos
quarenta anos, atleta do futebol soçaite fez o gol que o Pelé não
conseguira em toda a sua famosa carreira. Um chute direto, na saída da bola, no
início do jogo, do seu campo, encobrindo o goleiro. Gol de placa! Antológico!
No esporte,
tentava imitá-lo, sem conseguir.
Seu sucesso com o
mulherio, invejava.
Muito mais leve e
solto do que o rígido morgado, como o pai me chamava.
Passional!
Eu, o
primogênito de sete filhos. Ele, o segundo, poucos meses mais novo. Acredito
que, recém-nascido, tenha sentido na minha mãe, a sua concepção e o prenúncio de
uma competição no terreno em que reinava com exclusividade.
Vasco x Flamengo,
a eterna disputa! Ele, objetivo em sua engenharia, eu, subjetivo, na
minha economia política. Num almoço restrito lhe dissera professoralmente, que a
tragédia do homem é a sua razão, a consciência de sua finitude e de sua solidão
cósmica. Deu-me uma estrondosa gargalhada. Mudei de assunto.
Combinamos encontros na minha
volta para o Rio. Ele iria a trabalho, na semana seguinte. Falei de um show
saudosista do Cauby Peixoto e da Ângela Maria, com Raul de Barros ao trombone,
no Circo Voador. Jantaríamos no “Lamas” depois do espetáculo.
Um dos nossos
prazeres era o comer bem. Programamos uma ida a um restaurante no Campo de São
Cristóvão para um bacalhau à portuguesa. Um almoço no árabe da Rua Senhor dos
Passos. Por certo, no próximo final de semana iríamos a Copacabana regalar-nos
com os acepipes da Adega Pérola.
No dia seguinte,
domingo, voltei a Vitória para rever minha mãe, já entrada nos setenta anos e no
mal que a levou anos depois.
À noite, de novo no
ônibus de volta para o Rio, cansado, senti-me como se estivesse assistindo ao
final de um espetáculo teatral. A luz do palco foi rareando, morrendo e se
extinguindo. Caiu o pano. Dormi. Sonhei o sonho bom e reparador.
Entre o sonho, que às vezes se transforma em pesadelo, e a ficção,
prefiro esta. Parece-me mais respeitosa com as nossas vidas, mesmo em seus
momentos mais tristes. A mentira, por vezes, tem mais estética e ética do que
certas verdades e é mais apropriada para expressar certos sentimentos. ”A
confissão, não transfigurada pela arte, é uma indecência”, lavrou Mário Quintana.
Rogério, Zé
Augusto e Moreno, meus personagens nestas memórias, como diriam/diziam os
antigos romanos: “viveram”.