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JORNALEGO ANO V - Nº. 137, em 20 de Agosto de 2006. Artigo político.
ANOREXIA ELEITORAL “Sinto-me fraudado porque meu voto não vale nada” Francisco de Oliveira, sociólogo. O Globo, 19.08.2006.
Para controlar a taxa de glicose, estou tomando um remédio que provoca diminuição do apetite. Contudo não perdi o prazer de comer. Alimento-me bem – o bastante – no sentido de bastar, ser suficiente. Meu médico achou isso bom. De fato, com as caminhadas diárias, mantenho um corpinho de David de Michelangelo, com exceção de um detalhe (?!). A dois meses das eleições federais e estaduais, estou também me sentindo inapetente para o exercício dos meus deveres de cidadão e eleitor. Das razões, a principal é a frustração – o trauma mesmo – que sinto com as vitórias do Lula e do PT, nos quais sempre votei na expectativa de mudanças. Foi exatamente a falta delas que me deixou assim. Não foi a triste existência do mensalão o que mais me desencantou, embora desabone qualquer tipo de corrupção, seja de estado ou individual, de que estes tempos são pródigos. Foi a continuação do modelo anterior, sem mudanças, sem projeto alternativo de nação. Que mudanças seriam essas? Crescimento econômico e emprego, melhor distribuição de renda com transferência direta e indireta de recursos para as classes mais pobres, implantação de projetos nacionais de educação, saúde e segurança. Mais: aceleração da reforma agrária, implementação de políticas afirmativas, preservação ambiental, investimentos em infra-estrutura, diminuição dos juros, menor subordinação ao capital, reforma política, eleitoral, previdenciária etc. Houve avanços em relação ao governo passado, embora sem a intensidade que esperava. Tudo na mesma direção. A sensação que tenho é a de que enchi o parágrafo anterior com um rol de clichês usado por todos os candidatos, de qualquer bandeira. Com exceção, é lógico, de alguns poucos itens mais radicais para aqueles que confiam piamente no mercado e na propriedade privada, como se fossem instituições divinas. Cheguei à conclusão, faz tempo, agora mais confirmada do que nunca, de que o mundo globalizado neoliberal, privatizado, não dá margem à escolha autônoma de novos caminhos por parte dos governos nacionais periféricos. A globalização, especialmente a financeira, tomou conta de tudo. Quem não quiser tirar uma onda de Irã, Coréia do Norte, Cuba, Venezuela e que tais, e, principalmente, quiser ganhar e manter seus mandatos tem que entrar no jogo, pianinho. Estou completamente inapetente também por outras razões. Outra delas é o vigente sistema político-eleitoral. Não concordo com as reeleições. Quem está no poder, dificilmente perde eleição. Não há como dissociar o presidente e governador dos candidatos. Eles passam grande parte do seu primeiro mandato agindo para terem um segundo período. Aí está o terreno adubado para germinarem todos os tipos de corrupção. A política eleitoral deveria privilegiar os partidos, reforçando-os. O que deve ter continuidade é a política e não o político. Vejamos o caso das eleições proporcionais: as dos deputados. Deveríamos votar no partido, como se vota nas principais democracias do mundo. Em lista fechada. Ao partido cabe a responsabilidade pela indicação dos nomes que devem condizer com sua plataforma de governo. Com isso também, seria incentivada a discussão sobre os programas partidários e prestigiar-se-ia a fidelidade à agremiação. Hoje se vota numa pessoa (que geralmente, em sua propaganda, não anuncia o nome do partido) e acaba-se privilegiando um outro candidato indesejado da legenda de uma coligação esdrúxula. Um dos casos mais sérios do sistema é a eleição majoritária para senador. Esses apresentam dois suplentes, que ninguém conhece (não participam da campanha), geralmente pessoas sem expressão política ou eleitoreira que, como prêmio, exercem uma parte do grande mandato de duas legislações. É muito comum ficarem com a metade do mandato quando o senador principal se candidata para governador ou prefeito, ou vai exercer um cargo de ministro ou secretário, e deixa a cadeira para os seus suplentes. A história do Brasil mostra escabrosas manobras nessa seara. Neste momento, quase metade das cadeiras do Senado está ocupada por suplentes. Os titulares estão em campanha em seus estados. Quem são os suplentes dos atuais candidatos que, por certo, exercerão a segunda metade do mandato, se os titulares ganharem a eleição para governador daqui a quatro anos? Outra coisa importante na tentativa de conter corrupção eleitoral é o financiamento público das campanhas. Deve ficar muito mais barato para a sociedade do que a necessidade de cobrir os caixas-dois disseminados por aí. Não tenho opinião sobre o voto distrital. Suspeito que, se adotado, os grandes temas do país não sejam adequadamente discutidos na Câmara dos Deputados, podendo transformar os deputados em vereadores federais. Talvez isso até venha a favorecer as emendas individuais sanguessugas nas aprovações de projetos, campo fértil para a corrupção. Quem sabe (eu não sei) se o voto distrital misto poderia ser uma boa opção? Nesta eleição é digna de elogios a proibição de faixas, galhardetes, muros pichados, showmícios etc. Foi um grande progresso. A cláusula de barreira que vai diminuir sensivelmente o número dos partidos também foi uma ótima medida. Se bem controlar o diabetes e chegar até a próxima eleição federal e estadual, estarei, em 2010, legalmente isento da obrigação do voto. Contudo, espero que, em lá chegando, volte a me entusiasmar, recuperar minha aptidão eleitoral, e, mesmo depois dos 70, ver renascer as esperanças desperdiçadas ao longo desses últimos quatro anos. “Não há esperança à vista”. Francisco de Oliveira, sociólogo. O Globo, 19.08.2006. Genserico Encarnação Júnior, 67. Itapoã, Vila Velha (ES)
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