JORNALEGO
ANO V - Nº. 136, em 10 de Agosto de 2006.
Conto
O MUNDO É UM MOINHO
– “Comi
sua filha”. “Mulher direita e honrada não dá antes do casamento”. “Só caso com
moça virgem”. “Não me interesso mais por ela”. “Nosso noivado está rompido”.
Foi com esse
discurso machista, vulgar, chinfrim e moralista, que Marialva despertou
assustada de seus sonhos de moça romântica e casadoira.
O ex-noivo, cujo
nome fiz questão de não inventar, era filho único de família interiorana
abastada, dona de terras, cujo pai, prefeito da cidade, se preparava para novo
embate eleitoral, naquela época, para uma dessas deputações. Freqüentava o curso
de direito na capital e passava férias no lugarejo natal. Nesses períodos
namorava a bela, doce e pobre Marialva, que conhecera desde o curso primário,
prometendo-lhe mundos e fundos. O fim do noivado foi festejado com moderação
pela família do moço, especialmente pela matriarca do clã.
Ato contínuo à
confissão calhorda do noivo deu-se a expulsão da casa paterna da filha única,
malfadada e malfalada, menina brejeira de 18 anos completados recentemente. Seu
pai, viúvo, pequeno comerciante, religioso ferrenho, repetiu a cena bíblica da
expiação do pecado original. Restaram-lhe os trilhos da Estrada de Ferro Vitória
a Minas, até a Estação Pedro Nolasco, em Vila Velha, no estado vizinho. De lá
pegou um bote, atravessou as estreitas margens do fundo da baía de Vitória,
chegou à ilha-capital, desembarcando no cais Schmidt.
Por ali mesmo, na
Vila Rubim, procurou uma casa de família e foi aceita como empregada doméstica.
Trabalho, cama, comida e pequeno salário. Não durou muito nessa atividade.
Assediada pelos filhos da patroa foi chantageada por um deles. Com medo de
perder o emprego e o teto acedeu aos rogos do rapaz. Não sei como isso chegou
aos ouvidos de madame que, incontinenti, colocou-a no olho da rua, com mala e
cuia.
Vagando pelas
alamedas do Parque Moscoso, enquanto almoçava pipocas, encontrou uma moça bonita
que a levou para uma casa modesta, numa ladeira calçada com pedras, bem próxima
de onde acabara de sair.
Na
imaginação escapista de Marialva, aquilo passou a ser um castelo bonito,
habitado por meninas de sua idade e algumas mulheres maduras. Todas de caras
alegres, a conversar fofocas, leitoras das revistas do rádio e de fotonovelas.
Usavam bobes nos cabelos e tinham os rostos emplastrados de cremes de cheiros
duvidosos. Algumas vestiam combinações de jérsei ou baby-dolls sumários.
Foi apresentada à fada-madrinha que a recebeu muito bem, instalando-a num dos
quartos juntamente com a colega que a convidara, onde se destacava “a luz difusa
de um abajur lilás”.
A sala principal
era fracamente iluminada por lâmpadas coloridas. Pendiam nas paredes duas
ilustrações de santos – São João e São Jorge – com furinhos nos contornos das
imagens, fazendo escapar por eles os raios de luz da parte traseira dos quadros.
Muita música romântica, “perfume de gardênia” no ar e aquele ambiente de festa
quando a noite chegava.
Em
conversas com sua amiga, foi informada de que a casa era bem sossegada, ali
moravam meninas que ainda não tinham pousada nem emprego e que viviam muito bem
enquanto melhores dias não viessem. Todas as noites transcorriam alegremente,
quando recebiam convidados, dançavam e conversaram com homens solitários e, se
por acaso simpatizassem com algum, podiam dormir protegidas em seus braços.
Nos primeiros dias,
ao cair da noite, passava sozinha no quarto que lhe coubera, ouvindo rádio e os
ruídos noturnos que lhe chegavam do salão. Sua amiga, se precisasse, usava
outros cômodos, vindo dormir com ela bem mais tarde, despertando-a de seu
primeiro sono, pesado, embora agitado. Com o girar lento das pás do moinho,
tocadas ora pelo fresco vento nordeste, ora pelo frio vento sul, “foi triturando
seus sonhos e reduzindo as ilusões a pó”.
Vitória, como todas
as cidades daquele tempo, tinha esses tipos de castelos, como chamavam os
baianos. Na pequena ilha, eles se localizavam bem no seu centro urbano ou em
bairros ao alcance de uma curta viagem de bonde. Os mais centrais e conhecidos
eram dois velhos sobrados da Rua General Osório (120 e 130). Na Vila Rubim, onde
a Marialva encontrou seu primeiro refúgio, a São João. Mais ao sul da ilha, a
Casa Verde, a Casa Branca e outras nas adjacências, para os lados de Santo
Antônio, na curva de Caratoíra.
Algumas donas
desses bordéis se tornaram lendárias, como Aurora Gorda e, no baixo meretrício
da Ilha do Príncipe, Maria Tomba-Homem. Depois se estenderam para Vila Velha, na
região conhecida como Areal para, mais tarde, se estabelecerem na Serra, em
Carapebus, fugindo à expansão imobiliária e além dos limites impostos por um
cordão higiênico e moralista estabelecido pela afluente sociedade local.
Marialva passou por
todos esses endereços da capital, menos nos da Ilha do Príncipe. Antes da
transladação para os municípios vizinhos, ainda formosa, passou a gostar de um
forte estivador, que por ela se apaixonou e foram morar juntos num bairro
popular de Vila Velha.
O novo amor rolava
gostoso entremeado de histórias de suas vidas pregressas. Numa noite de maiores
confidências, contou o caso do noivo bonito que lhe esnobara e suas
conseqüências, até a redenção nos braços robustos de seu homem. O companheiro
procurou saber do moço, de quem se tratava. Num belo dia fez o percurso de volta
da Marialva, pelos trilhos da Vitória a Minas.
Foi fácil
identificá-lo. Constituíra família, morava numa bela casa. Encontrou-o de manhã
saindo para o trabalho. Perguntou àquele senhor bem vestido, com todo o
respeito, se se tratava realmente do Dr. Fulano de Tal, a quem tinha a honra de
se dirigir. Com a confirmação, desferiu, com o bico rombudo da botina, um forte
pontapé em sua genitália, deixando-o prostrado na calçada do bairro elegante,
sem reação. O agredido urrou um grunhido surdo e caiu ajoelhado aos pés do
vingador. Desmaiou e ali ficou sem dar conta da retirada serena, com passos
seguros, de nosso herói, de volta para a estação e para a sua amada.
Marialva
ouviu o relato dos acontecimentos não demonstrando contentamento. Preocupava-se
unicamente com as possíveis retaliações. Ele a tranqüilizou dizendo que ninguém
tinha visto a agressão e nem tampouco saberiam quem a praticou. Não deixou
pistas.
Era tempo
de exceção. As greves estavam proibidas. Foi numa dessas que o companheiro de
Marialva foi preso, ficando por algum tempo invernando nas masmorras da
ditadura.
Um
integrante do movimento religioso que atendia aos encarcerados e às suas
famílias passou a visitar Marialva em sua residência. Numa tarde, ao pregar o
conforto da justiça divina, vendo-a enlevada, conhecedor de seu passado,
abraçou-a, colou seu rosto no dela e instintivamente acariciou seus ainda
vistosos peitos.
Marialva
afastou-se sem demonstrar irritação, registrou o sorriso cínico do piedoso homem
e deu-lhe, de imediato, do alto de suas plataformas, um violento chute nos
colhões que o fez uivar como cão danado. Mancando, o visitante afastou-se em
silêncio do local e de suas atividades pastorais.
O
título do conto é de uma composição do Cartola.