JORNALEGO
ANO V - Nº. 135, em 20 de Julho de 2006.
Proclamação
HABITANTES DE BAGDÁ!
Vossas
misérias são cruéis, mas o nosso Presidente quer pôr termo a elas. Exemplos
terríveis vos ensinaram como pune ele a desobediência e o crime. Medidas severas
estão sendo tomadas para fazer cessar as desordens e renascer a segurança geral.
Uma administração paternal, escolhida entre vós, forma vossas autoridades
nacionais, isto é, o governo de vosso país e da cidade. Ocupam-se de vós, de
vossas necessidades, de vossos interesses. (...) O exército e a polícia de vosso
país e cidade são instituídos de conformidade com o antigo regulamento, e já,
graças às suas atividades, reina melhor ordem. O governo nomeou comissários
gerais ou chefes de polícia, e mais comissários ou delegados distritais,
repartidos em cada quarteirão da cidade. (...) Várias igrejas, destinadas a
diferentes cultos, estão abertas, e o serviço divino é nelas celebrado sem
obstáculo. Vossos concidadãos regressam diariamente a seus domicílios e estão
dadas ordens para que encontrem a ajuda e a proteção devidas à desgraça. Tais
são os meios que o governo empregou para restabelecer a ordem e aliviar vossa
situação. Mas para atingir esse objetivo é necessário que junteis vossos
esforços aos seus; esquecei, se possível, os males que sofrestes; entregai-vos à
esperança duma sorte menos cruel; persuadi-vos de que uma morte inevitável e
infamante aguarda todos aqueles que tentarem contra vossas pessoas e o que
restou de vossos bens; não duvideis, por conseqüência, de que esses bens vos
serão conservados, porque tal é a vontade do maior e mais justo de todos os
presidentes. Soldados e habitantes, de qualquer seita que sejais!
Restabeleceu-se a confiança pública, essa fonte da felicidade do Estado; vivei
como irmãos; dai-vos mutuamente ajuda e proteção; uni-vos para combater as
empresas criminosas; obedecei às autoridades militares e municipais; e em breve
vossas lágrimas cessarão de correr.
A vós,
pacíficos habitantes de Bagdá, homens de ofício, operários que as desgraças
afastaram da vida, e vós, trabalhadores da terra que medo mal-fundado retém
ainda dispersos nos campos! A calma volta à capital e a ordem está nela
restabelecida. Vossos concidadãos saem sem temor de seus refúgios, seguros de
serem respeitados. Toda violência exercida seja contra eles, seja contra seus
bens, é logo reprimida. O nosso Presidente cobre-os com sua proteção e só
considera como inimigos entre vós os que desobedecem às suas ordens. Quer pôr
termo às vossas desgraças e vos restituir a vossas casas e a vossas famílias.
Acolhei, pois, suas medidas benévolas e vinde a nós com toda a confiança.
Habitantes! Regressai tranquilamente a vossos domicílios, encontrareis logo a
possibilidade de prover as vossas necessidades. Artífices e laboriosos
operários! Retomai sem demora vossos trabalhos: casas, lojas, patrulhas de
segurança vos esperam, e recebereis pelo vosso trabalho o salário que vos cabe.
E vós, enfim, camponeses, saí das furnas onde o medo vos fez esconder, regressai
sem temor às vossas casas, tende a plena segurança de que encontrareis em nós
protetores. Estabeleceram-se na cidade vastos entrepostos, aonde podem os
camponeses trazer seus produtos excedentes. (...) Medidas serão tomadas sem
interrupção para o restabelecimento do comércio normal. Cidadãos, aldeões e vós,
homens de ofício e operários, de qualquer seita que sejais! O nosso Presidente
vos convida a conformar-vos com suas medidas paternais e a colaborar com ele
para restabelecer o bem comum. Levai-lhe aos pés vosso respeito e vossa
confiança e não hesiteis mais em unir-vos a nós!
O texto acima é uma
adaptação da proclamação aos HABITANTES DE MOSCOU, feita em 1812 por Napoleão
Bonaparte, quando de sua fracassada invasão à Rússia, segundo Leon Tolstoi, em
Guerra e Paz (Quarto Livro, Segunda Parte, Capítulo IX). A adaptação limitou-se
a trocar Moscou por Bagdá; Sua Majestade, imperador e rei por Nosso Presidente;
alguns tempos de verbos e pouquíssimas palavras, tais como nação por seita,
isbás por casas, florestas por furnas. Também omitiu alguns pequenos trechos que
descreviam aspectos operacionais da ocupação russa, que estão marcados com
(...).
Este número do JORNALEGO é
uma homenagem aos povos que foram vítimas de invasões alienígenas, fracassadas
ou a fracassar. Cedo ou tarde elas fracassam. Não se conquista um povo, a menos
que ele seja tão-somente um aglomerado de pessoas. Na conquista de um povo não
basta poderio militar. A não ser que o liquidem, como os europeus e seus
descendentes fizeram com os indígenas no Novo Mundo. Mas isso tem outro nome:
genocídio!