JORNALEGO
ANO V - Nº. 134, em 10 de Julho de 2006.
Crônica-ensaio
SONATA AO SOL
“Tem mais samba
no chão do que na lua”.
Chico Buarque
Rolou na Internet, recentemente, uma linda mensagem tendo como trilha sonora a
“Sonata ao Luar” de Beethoven. O texto dizia que a música tinha sido composta na
tentativa de passar para uma moça cega os sentimentos de uma noite de luar.
Se non e vero e bene trovato! Lembrei-me também da maravilhosa “Claire de
Lune” de Debussy.
Foi daí que veio a inspiração
para escrever esta Sonata ao Sol. Logicamente, sem a mínima pretensão de
comparar estas maltraçadas linhas com as duas peças musicais aludidas.
Simplesmente para apresentar ao leitor, que não é cego, um raciocínio elaborado
usando a luminosidade e o calor solares como metáforas. Sem os ilusionismos nem
a visão romântica de uma noite de luar.
Glória ao
Sol que degelou, aquece e ilumina a Terra.
Glória ao Sol que
permitiu, fez nascer e mantém a Vida.
Glória ao Sol, que
ilumina a Lua.
Permiti-me todas as
divindades, ou melhor, seus adoradores, que rendamos glória ao Sol por toda a
eternidade. Peço permissão com sincera humildade de descrente de divindades.
Era assim há muito
tempo quando se adorava o astro-rei como a um Deus. Amon ou Rá era o Deus-Sol na
avançada, para a época, civilização egípcia, anterior à concepção judaica do
Deus criador e depois criatura nos pensamentos também cristão e muçulmano.
O Sol é criador e
mantenedor direto de toda a energia e conseqüentemente de todas as formas de
vida em nosso planeta. Ao seu redor gravitamos e levitamos em corte celeste por
este universo. É o caso de se perguntar: quem o criou? Eu não sei. Ninguém sabe.
Ao buscar uma resposta a essa inquietação foi que o Abraão bíblico imaginou seu
Deus Todo-poderoso, uno e espiritual. É o que crêem os crentes.
No limiar da
civilização, admitia-se a adoração do Sol como divindade. Agora não faz mais
sentido. A ciência, a astronomia e a física mostram-nos, com detalhes, as
evidências das assertivas iniciais do parágrafo anterior. As religiões reveladas
vão mais além, como se viu também acima. Restaria, portanto, ao homem moderno
admirar o papel dessa estrela fulgurante na perenização da Terra, sem
transformá-lo em divindade. O campo do divino é o reduto das imaginosas e, por
vezes, delirantes religiões, como também das filosofias espiritualistas.
Essa admiração ao
Sol permite a alguns escritores impertinentes (é o presente caso) louvar seus
benefícios para a humanidade. Com peças alternativas (metafóricas) ao idealismo
e ao romantismo da teologia, da metafísica e do beletrismo sentimentalóide.
Lógico que é válido
sonhar e viajar em devaneios para espairecer a realidade trágica, embora
bela, que é a vida. Até mesmo o sol se presta a isso, como na poesia de Mário
Quintana: “O luar é a luz do sol que está sonhando”. O que nos leva,
imediatamente, a retornar à realidade. Até o lindo luar é subsidiário dos raios
solares.
A irradiação solar
é, assim, a metáfora perfeita para quem quer ver e, eventualmente, entender o
que se passa na superfície terrena de nossa vida. “Luz, mais luz”, exclamava
Goethe ao morrer, pedindo mais lucidez. Drummond tem uma máxima, parece-me um
verso, que diz: “Não mais o sonho, mas o sono livre de todo o excremento
romântico”. E eu que, a despeito deste texto, tenho alguns laivos românticos,
assim adaptei a frase ao meu pensar: “Sonhar o sonho livre de todo o excremento
romântico”. Tenho-a como protetor de tela do computador e balizador literário.
O romantismo, o
idealismo ingênuo, tudo que romantiza, idealiza, fantasia, escamoteia a vida e o
mundo, distorcendo-o da realidade são fugas perniciosas, esquizofrênicas, que
necessariamente levam à doença, mental ou física.
Quanto à realidade,
esta fugitiva senhora, cada um tem a sua, mas a realidade de cada um tem que ter
um mínimo de coerência com a vida como ela é e não como gostaríamos que fosse.
Em linguagem quântica: coerência com as possibilidades de realidade.
Por outro lado, a
luz solar não pode ser olhada de frente, a olho nu. Ela serve para clarear não
para ser encarada. Essa é outra metáfora para justificar a existência dos
mistérios que nunca serão desvendados pelo limitado descortino da mente humana.
A luz solar nos permite tão-somente perceber um pouco mais claramente o ambiente
e contexto em que vivemos.
A verdade nunca
será atingida por nosso conhecimento. Nem por isso vamos fantasiá-la com teorias
mirabolantes. O que se deve buscar é uma aproximação assintótica a ela, a
verdade. Luz e lucidez, eis o caminho.
A vida é bela como
ela é! Não há necessidade de enfeitá-la descaracterizando-a. Esse, por exemplo,
não é o papel da arte. Se assim for não se trata de arte. Esta tenta uma
linguagem alternativa para nos aproximar do conhecimento que, sendo por vezes
trágico, para ser absorvido por nossas cabeças tem que se apresentar com uma
roupagem mais palatável à fraqueza humana. É o caso da tragédia grega. E desta
sonata sem som.
“É no confronto direto com a
realidade e dentro dela que está escondido o maravilhoso” (Luiz Paulo Horta).
Viva o Sol, que
ilumina a Terra.
Viva a luz que
aclara a mente.