JORNALEGO
ANO V - Nº. 133, em 30 de Junho de 2006.
Conto
BODAS DE
JACARANDÁ
Faz mais tempo do que os cinqüenta anos de casados recentemente comemorados. Foi
antes do noivado protocolar, com pedido solene da mão da menina em casamento.
Antes disso já estavam comprando geladeira e fogão, estocando-os em suas
respectivas casas. Logo depois encomendaram os móveis.
Naquele tempo, era
moda por estas bandas ter móveis de jacarandá. Madeira bonita, resistente e
duradoura, imune aos cupins, abundante nos desbravamentos da mata atlântica,
produto de exportação. A cidade e suas periferias contavam com ótimos
marceneiros que elaboravam belos trabalhos com a madeira escura de rajados
singulares. Os móveis eram de jacarandá maciço.
Foram
relativamente poucos os anos de exploração dessas árvores centenárias.
Devastaram parte substancial das florestas da região, e o jacarandá acabou. Os
móveis ficaram como testemunhas de um crime ambiental e de um casamento que
agora comemora cinco décadas. Passou por cinco geladeiras, considerando a
obsolescência moderna desses eletrodomésticos.
Mandaram fazer uma
sólida cama de casal, duas mesinhas de cabeceira e uma cômoda com gavetas para o
quarto de dormir. A cômoda, eventualmente, poderia ficar num outro quarto, se
houvesse. Para a sala de refeições mesa redonda, com uma tábua complementar a
ser encaixada em seu meio para transformá-la em oval, quando comportava o total
das seis cadeiras. E uma arca com três gavetas e três portas que se abriam de
par em par, com altos-relevos losangulares.
Tudo muito bonito
e acessível, com formas de pagamento compatíveis com o salário do noivo.
Matéria-prima e mão-de-obra baratas; bons tempos aqueles!
Chegaram a
perguntar-lhes se queriam as partes internas também em jacarandá maciço! Vejam
só! Uma madeira nobilíssima a compor as entranhas dos móveis! Além de ser um
desperdício, isso encareceria a encomenda e tornariam os móveis mais pesados.
Que exótico um estrado de cama feito de puro jacarandá!...
Casaram-se e foram
felizes para sempre. Claro que isso é um clichê tirado das historinhas
românticas. De fato, quando se casaram, concebiam o casamento para sempre. “Que
seja eterno enquanto dure” e enquanto mole. Era a concepção deles, naquele
tempo, quando se casava no civil e no religioso. Assim soía acontecer. Tão
arcaico quanto o verbo soer.
Eles, que chegaram
ao casamento sem cometer sexo implícito, viam com certa inveja a
facilidade dos dias de hoje. O sexo antes do casamento pode atrasar um pouco a
cerimônia, diz a velha piada. Na verdade, consideram que os costumes mais
frouxos podem acelerar a separação por falta de compromissos mais sólidos,
facilitando o fim da união aos inevitáveis primeiros embates conjugais. Uma das
amigas contava, rindo-se e lamentando-se, que tinha se casado virgem até nas
mãos!
Tiveram um casal
de filhos, viveram como todo mundo, com as alegrias e as tristezas de toda
relação muito íntima. Chegaram até aqui, entre tapas e beijos,
completando meio século juntos. É só; não é objetivo deste conto fazer o
relatório da vida que levaram em comum, fantasiando-a forçosamente.
Para comemorar as
bodas, mandaram rezar uma missa a que assistiram filhos, netos, parentes e
amigos. O ato religioso foi celebrado por um padre, filho do que os casara (!),
na mesma igreja multicentenária. Entraram em desfile, solenemente, rumo ao
altar, precedidos por um casal de netos portando as alianças. Depois, ela, de
braço com o filho mais velho, seguida dele, de braços com a filha caçula.
Fechando o cortejo os outros netos. A missa foi acompanhada por belíssimas
músicas cantadas à capela. Houve leitura do Evangelho e preleção alusivos
ao ato. A nave da igreja e o altar estavam decorados com flores e feericamente
iluminados. Trocaram alianças novamente benzidas. Não faltaram lágrimas.
Quando estava
prestes a comungar, soltou um grito estrondoso despertando de um sonho
tumultuado. – “Que houve”? perguntou a mulher sobressaltada correndo à cozinha
para pegar um copo de água. – “Diga-me: com o que sonhava”? – “Eu era o craque
da seleção argentina e só de mim dependia o gol, na disputa de pênaltis, no jogo
final da Copa, com o Brasil”. – “Acordei do pesadelo quando corri para a bola e
a chutei no canto contrário ao pulo do goleiro”. Mentiu para a mulher pensando
no comercial que vira na TV e respeitando um fundo de religiosidade que ainda
restava nela.
Não houve missa,
seria demais para um ateu-novo. Mas uma festa profana foi enfim
autorizada depois de insistentes pedidos, encomendada e bancada pelos filhos.
Seria numa casa de cerimonial pequena, para poucos convidados. Comes e bebes de
entrada e um pequeno jantar. Depois um bolo, com aquele indefectível casal de
bonecos na cimeira, ele de preto, ela de branco, a ser cortado por ambos e
servido aos convivas.
Na noite marcada
avisaram aos filhos que chegariam logo após iniciada a festa, para uma entrada
triunfal. Por isso os convidados foram alertados para serem pontuais. Assim,
começou a festança sem o casal jubilado. Lá pelas tantas, a gerente da casa
passou para um dos filhos um envelope fechado contendo um comunicado dos pais.
Tudo conforme orientações sigilosas passadas anteriormente à funcionária. Os
“noivos” informavam que não iriam comparecer. Que festejassem bem suas bodas de
ouro sem a presença deles. Não adiantava procurá-los porque não iriam
encontrá-los. O aviso foi lido pela filha, causando mais risos do que decepção.
A festa continuou, houve dança e muita alegria. Durou até as três horas da
madrugada.
No dia seguinte,
ali pelo meio-dia, na casa de praia da família, onde estavam hospedados, os
filhos e netos, atenderam o telefonema do velho. – “Que papelão”! “Onde
estavam”? Comunicaram que a festa tinha sido um sucesso. “Digam-me, aonde
foram”? – “Não saímos de casa, fomos dormir cedo e acordamos cedo”. – “Era o
melhor lugar para se esconder de vocês”. – “Ou por acaso pensavam que iríamos
passar a noite num motel”? – “Já demos nossa caminhada matinal, tomamos café e
lemos o jornal”. – “A propósito: que merda tá esse mundo, hein”? – “Para manter
as esperanças, preciso empoar-me diariamente de polvilho anticético”.
Hoje já não se
fazem mais móveis de jacarandá como antigamente. A cômoda, a cama e os
criados-mudos foram parar na longínqua casa da filha. A arca e a mesa de jantar
com as cadeiras estão na do filho. Continuam viçosos e funcionais. Os móveis.
Os dois, que sempre
fizeram questão de morar afastados dos pais (quem casa quer casa longe da casa
onde casa), voltaram para a cidade onde nasceram, se conheceram e se casaram.
Hoje, são os filhos e netos que vivem alhures. Entre suas atividades atuais
estão as freqüentes viagens às cidades onde esses moram para matar as saudades
dos seus queridos e rever os fiéis móveis de jacarandá.