JORNALEGO
ANO V - Nº. 132, em 20 de Junho de 2006.
Crônica
ASSIM TAMBÉM NÃO!
Certo! A coisa tá
ruça! Contudo, tentar consertá-la na base da improvisação, do açodamento, do
voluntarismo não dá. Assim também não!
O poeta Olavo
Bilac, no início do século passado, em suas crônicas na imprensa carioca,
substituindo Machado de Assis que se afastara do circuito jornalístico para se
preocupar com a criação da Academia Brasileira de Letras, já clamava pelo
“enforcamento” de todos os políticos brasileiros; notava a insegurança nas ruas
da cidade; e destacava ironicamente o poder do jogo do bicho. Não há nada de
novo na face da Terra!
Leio um livro que
forçosamente Hitler nunca leu. Guerra e Paz, de Tolstoi. Se o fizesse, jamais
tentaria invadir a Rússia, como fez Bonaparte sem sucesso, segundo conta a
História, e a história do citado escritor. Quantas guerras, atrocidades,
perseguições, foram cometidas desde o início da civilização (!). E depois das
guerras napoleônicas (que foram empreendidas posteriormente à Revolução Francesa
que pregava Liberdade, Igualdade e Fraternidade), ainda tivemos duas guerras
mundiais, no século vinte. A maioria se deu no seio da comunidade cristã ou foi
provocada por sociedades ditas cristãs. Barbaridades que não são exclusividades
da cristandade, logicamente. Nada que tenha sido melhor do que nos dias de hoje!
Portanto:
Não é com a suspensão dos
direitos humanos, armando a população, decretando pena de morte e outros
modelitos dessa ordem que vamos resolver a situação da violência urbana no
Brasil e do terrorismo no mundo.
Não é invadindo o Congresso
Nacional, prédios públicos, empresas privadas, causando quebra-quebras,
interditando rodovias que vamos lutar pela reforma agrária. Também não é por
isso que a bandeira da reforma agrária deva ser esquecida. Historicamente, a
classe dos donos da terra é mais perversa e violenta do que os movimentos mais
radicais de trabalhadores sem-terra.
Não é pela necessidade de
produzir domesticamente gás natural para substituir a eventual quebra de
suprimento da Bolívia que vamos esquecer as corretas posturas ambientais. Essa,
por exemplo, é uma discussão que precisa ser conduzida racionalmente entre o
governo do Espírito Santo e as autoridades ambientais.
Não é pela desmoralização
generalizada da classe política que vamos moralizar nossas instituições
nacionais: os governos legais e legitimamente constituídos, o Congresso, a
Justiça, as Forças Armadas e as Polícias Militar e Civil. Precisamos separar o
joio do trigo. Não vender a boiada para combater os carrapatos. Não jogar fora a
criança com a água do banho.
Não é invocando a ditadura
militar, como querem alguns saudosistas não-esclarecidos e de péssima memória,
que se conserta este país. Isso já foi demonstrado à exaustão. Não é a falta de
democracia que vai levar-nos a exercitar a boa democracia.
Não é porque a Bolívia está
nacionalizando suas reservas de gás e petróleo e as refinarias da Petrobras por
lá, nem porque a Argentina tenta equilibrar sua balança comercial com o Brasil,
nem tampouco porque o Chávez faz pose de líder continental – uma liderança que
não lhe compete – que vamos jogar por terra o projeto da integração
latino-americana e principalmente a sul-americana. Sem nos integrar com os
nossos vizinhos, política, econômica e culturalmente não competiremos com os
países integrados da Europa, da América do Norte e da Ásia. Como se sabe:
“caititu fora da manada é comida de onça”.
São princípios basilares de
nossa civilização: a democracia, os direitos humanos, a não-violência (o
monopólio da violência é exclusivo do Estado moderno), a preservação ambiental e
o melhoramento de nossas instituições. O processo é longo e penoso. Não sabemos
nem se vamos alcançar um bom termo. Mesmo porque não existe consenso sobre o que
isso venha a ser. Não nos desviemos por veredas sinuosas e sedutoras. Por
expedientes miraculosos. Por idealismos bobos. Como esses péssimos exemplos aqui
citados e outros tantos em circulação na Internet.
Já dizia meu velho
pai de saudosa memória, em situações que exigiam alguma medida mais drástica:
“Assim sim, mas assim também não!” O que queria ele dizer com essa frase
enigmática? Talvez eu a tenha descodificado aqui, em parte.