JORNALEGO
ANO V - Nº. 128, em 30 de
Abril de 2006.
Opinião
LULA VAI
RASPAR A BARBA
Nos bons tempos
em que o PT se destacava na manada (pelo menos para mim), Lula disse: “A
diferença entre o Partido Democrata e o Partido Republicano nos Estados Unidos é
a mesma que existe entre a Coca-Cola e a Pepsi-Cola”. Paulo Nogueira Batista
Júnior num recente artigo adverte-nos também a respeito da próxima eleição
presidencial: “Temos agora toda a liberdade para escolher entre a Coca-Cola e a
Pepsi-Cola”.
Numa conjuntura
política onde não existem características ideológicas entre partidos, quando
todos brigam pela quebra da verticalização, sem a qual se prestariam a barrigas
de aluguel para candidaturas regionais, sem projetos de nação, sem plataformas
políticas, onde tudo e todos se igualaram na caça ao poder, qualquer candidato
serve. Ou melhor, não serve.
A rigor, como ser
criativo numa época pós-FHC? Como fazer política industrial num país em
desenvolvimento se todos os grandes segmentos estratégicos da economia estão
privatizados? A siderurgia, a mineração, as telecomunicações e a petroquímica
são agora privadas e contam com participação substancial de capital estrangeiro.
Se ainda não chegou a tanto, a indústria do petróleo não tem mais o monopólio
estatal de fato. Perdemos o pouco que tínhamos de autonomia nacional. Como ser
independentes com a dívida externa e interna a não deixar margem de manobra para
uma boa política econômica para o país?
Para mim foi
emblemático da atual situação um fato que aconteceu há alguns anos, quando o
cantor Michael Jackson quis gravar um clipe nas favelas do Rio. As autoridades
estaduais se pronunciaram contra a intenção da produção. E nada aconteceu. Ou
melhor, tudo aconteceu. Nada os impediu de realizar as gravações.
Uma inquietação me bate
fundo sobre o futuro de nossa nação. Note-se que ela já foi devidamente
esquecida na última reunião do Conselho Econômico Mundial, em Davos, onde as
estrelas foram a China e a Índia. Lembremo-nos de que no início de seu mandato a
grande estrela na Suíça fora o Lula. O que aconteceu, por uma determinada ótica,
pode até ser considerado muito bom. Minha inquietação, na verdade, é devida a um
quadro econômico onde prevalecem atividades primárias voltadas para a exportação
(soja e carnes), agora acenando para a grande produção de combustíveis vegetais
(biodiesel e álcool). Voltam a prevalecer as antigamente louvadas vantagens
comparativas, aquelas criadas por Ricardo no século XIX, em vista da grande
extensão de terras e bom índice de insolação com que a natureza brindou o país.
Voltamos às plantations da era colonialista.
Não investimos
corretamente em educação e em ciência e tecnologia, o que nos permitiria obter
vantagens competitivas no mercado internacional de novos produtos. Estamos
regredindo, crescendo como rabo de cavalo. Nossos produtos industrializados de
exportação são, na maioria, semimanufaturados. Com a ultrapassagem do ponto de
auto-suficiência nacional na produção de petróleo, iremos transformar-nos em
exportadores líquidos não eventuais de petróleo. Pode?
A esperança acabou
depois que o medo se foi. Não vejo nada de novo além de alguns bons índices
macroeconômicos caretas, empunhados pelos defensores do governo. Mesmo assim o
crescimento do PIB, faz um quarto de século, é pífio. É o preço a pagar pelo bom
comportamento dos fundamentos econômico-financeiros. “Seja disciplinado, seja
obediente, continue pobre” parece dizer a cartilha do Consenso de Washington.
Não existem alternativas, as ações e previsões são pura mesmice neoliberal,
paulista e ridícula. Esperemos, quem sabe, a eleição de 2010. O perigo é por lá
se nos deparar a figura rotunda e vetusta de um Garotinho evangelista. A
reeleição instituiu no Brasil um mandato de oito anos para presidentes,
governadores e prefeitos com um recall no meio do período. Outro crédito/débito
(?) para FHC.
Resta-nos
tão-somente esperar para este ano uma campanha medíocre, agressiva, sem
propostas de parte a parte, com algumas jogadas primárias de marketing.
Tais como: o Enéas já cortou a barba, falta agora o Lula raspar a dele. Caras
novas! Cara nova!