JORNALEGO
ANO IV - Nº. 127, em 20 de
Abril de 2006.
Crônica
O PREGOEIRO DE
ITAPOÃ
Os sons
intermitentes que ainda hoje me alcançam nas alturas do meu apartamento, a
qualquer hora, todo santo dia, vindos das ruas do meu bairro, deixavam-me
intrigado. Seria um lamento, um fado, um grito de Tarzan ou a cantoria de um
muezim do alto do seu minarete? Impossível! Minha terra tem palmeiras onde canta
o sabiá e não mesquitas onde se louva a Alá. O que seria afinal? Lembrava-me
também do Bob Nelson da minha infância com seus intermináveis orioleitis
tiroleses de suas canções rancheiras.
Os sons que
chegavam à varanda, à sala de estar, à saleta da televisão, ao meu escritório,
preenchiam todo e qualquer espaço de minha casa e da fruição do meu ócio,
surpreendendo-me no decurso de alguma leitura ou de uma eventual escrita. Uma
vez, mais alto e mais perto, detive-me a procurar de onde vinha aquela sibila,
de sons tão maviosos, sem palavras. Por mais que eu me ativesse a entender os
cantos, só captava a música em suas sonoridades flutuantes, em falsetes
agudíssimos, que emanavam de uma garganta saudável e gloriosa.
Nada de suspense:
trata-se de um vendedor de sorvetes e picolés que apregoa o seu produto,
caminhando pelas ruas de Itapoã e Itaparica. Ele canta emitindo sons, ele
grunhe, ele grita, e assim alardeia os beijos-frios dos meus tempos de
criança. E o faz com alegria e preparo físico invejáveis o já maduro senhor.
Por várias vezes
estou a escrever, sentado ao meu micro, e os sons vêm emoldurar os pensamentos
que eu, com esforço, tento transpor da minha fraca memória para a possante
memória do disco rígido do computador.
Outro dia ousei um
contato com o referido senhor para saber os termos de sua pregação. Que vende
picolés e sorvetes eu já sabia e contei, queria saber do conteúdo da mensagem.
Fui descendo o elevador e ouvindo, num volume que aumentava à medida que me
aproximava do térreo, o seu guinchar anunciador. Ele se encontrava à porta do
meu prédio servindo a algumas crianças, com suas mães, vindas da praia,
conhecedoras do famoso tipo e do seu pregão. Aproximei-me na intenção de comprar
um picolé, não pelo picolé, não consumo produtos com açúcar, mas como uma
maneira de fazer a abordagem. Ele, sorridente, mantinha aberta a tampa do
compartimento refrigerado do seu carrinho de mão e as crianças a apontar para o
que queriam. Esperei que todas fossem atendidas.
Tomei um susto
quando fiquei a sós com ele, perguntando sobre as variedades que tinha para que
eu escolhesse entre elas. Ele abriu novamente a tampa e me fez escolher. Quanto
é? Perguntei. Ele respondeu mostrando-me o indicador de uma das mãos, informando
o preço do picolé: um real. Com os dedos formando o V da vitória, apreçava a
casquinha de sorvete: dois reais.
Não encompridando
a conversa: o pregoeiro de Itapoã é mudo! Não fala, não emite palavras. Emite
unicamente sons. Com isso vende seu peixe, alegra a vizinhança e seus
pequenos clientes que saem em correria ao ouvir sua voz, como uma flauta mágica
a encantar pessoas e pessoinhas.
Depois do susto da
novidade, voltei para o meu apartamento, atoleimado com o sucedido. Então o
nosso pregoeiro, com os seus ganidos, uivos e gemidos cantados, fala
através de uma hierarquia de sons que o fazem comunicativo e bom vendedor do seu
produto! Vende melhor sua mercadoria do que as vans com seus possantes
alto-falantes a passar constantemente por minha rua apregoando restaurantes,
locadoras, lojas e que tais, com anúncios irritantes que me chegam a altíssimos
decibéis.
Eu também solto
meus pregões do alto do meu prédio na praia capixaba de Itapoã. Não para
anunciar algum produto, mas como meio de sobrevivência no difícil ofício de
ociólogo, a escrever. Vivo recluso no meu tugúrio, a distribuir pelo espaço
cibernético palavras, palavras, palavras. Acredito que tenha muito menos sucesso
do que o pregoeiro dos picolés e seu meio insólito de expressão.
Palavras são
necessárias, lógico, contudo mais importante é a sonoridade delas. Daí o charme
da poesia e das canções. E, no caso extremo: a própria música, sem palavras, que
encanta, transmite sentimentos, extasia.
Hoje, ao ouvir o pregoeiro,
afasto-me dos locais por onde ele anda. Evito um encontro. Aquele contato
original que relatei, na realidade não existiu, eu o inventei. Não sei se o
vendedor de picolé é mudo de fato. Seu mutismo é ficção. Não quero quebrar o
encanto dessa possibilidade ficcional. A versão de um pregoeiro mudo, cheio de
melodia e sonoridades me empolga e me deu uma pista de como deve ser minha
comunicação com os leitores. Nada de verborragias impertinentes a encher a
paciência deles: – “Procure sonorizar textos. Escreva música com palavras.
Busque poesia, mesmo escrevendo prosa. Caso contrário cale-se. Prefira o
silêncio”.
Apercebo-me que é
a segunda vez, nos meus recentes escritos, que uso o mutismo como tema. Haverá
alguma explicação?