JORNALEGO
ANO IV - Nº. 126, em 10 de
Abril de 2006.
Cordel
A REPÚBLICA DOS SONHOS
A bela e velha
Espanha gerou
Joana, Vicenta e
Beatriz,
Que, em aqui
chegando, geraram
Dina, Anita e
Almerinda,
Que deram à luz,
Primogenitamente,
Arlete, Teresa e a
mim.
Arlete a ninguém
gerou,
Teresa teve os seus
E eu, além dos
meus,
Hei gerado
Estes versos de
pé-quebrado.
Nélida Piñon cantou em prosa
N’A República dos Sonhos,
A odisséia dos espanhóis
Em migrança pro Brasil.
Nessa saga cabe-me parte,
Por parte daquela linha
Que vinha da niña avó
Passando por minha mãe.
Colhi os sonhos sonhados
Em terras peninsulares
Acerca do Novo Mundo.
Sonhos acalentados
Nos rigores da vida ibérica,
Passional,
Na Guerra Civil que gestava,
Na dureza franca do regime,
Nos alvores das Grandes Guerras.
Duro foi quando da chegança
Ao sul do Equador
Em terras sem pecadilhos.
Tempo bom para as crianças
Que, como disse, fomos nós,
Da terceira leva,
Quem mais gozou do paraíso.
Quando dei conta de mim,
Comia os frutos da nova indústria,
Do crescimento urbano,
Do armistício
E do país em expansão.
A democracia,
Desde então infante,
Que pariu a duras penas
O mineiro Juscelino,
Abortou outra ditadura,
Que catadura!
A despeito da tortura,
Não impediu o progresso,
Desigual, é verdade;
Escapei da borduna.
Se porventura escrevesse
A magistral escritora
Sobre as gentes que agora vão,
Quem sabe escolheria
Como réplica aos seus sonhos,
Um repique mais cruel:
A República do Pesadelo.
O tempo foi passando
Nosso modelo empacou.
Esses liberais libertinos,
Cretinos que, com mil caras,
Continuam dando as cartas!
Os tempos mudaram.
Um século rendeu o outro.
Tempos bons de esperança
Enquanto o futuro não vinha!
Quando Paco virava Chico.
Agora é Chico que vira Paco.