JORNALEGO
ANO IV - Nº. 124, em 20 de
Março de 2006.
Crônica
RIO DE FEVEREIRO
Calor. Muito calor.
Calor úmido, nojento, pegajoso, irritante. Sem ar refrigerado dorme-se mal,
molha-se o colchão e o travesseiro. Acorda-se com o rosto em fogo. A água fria,
no chuveiro, é quente.
Em
feverê tem carná na cidá mará.
Para quem não gosta
de confusão, foi-se o tempo em que era muito bom passar o carnaval no Rio! Fora
das zonas da folia, a cidade ficava tranqüila, sem aquele movimento nervoso de
grande metrópole. Ia-se e vinha-se com a calma de cidade de interior. Eram raros
os sinais de carnaval nos bairros residenciais.
Na semana
do carnaval, ainda sai da cidade muito mais gente do que entra. Mas o trânsito
não flui mais fácil como outrora. O principal motivo dessa mudança é a
multiplicação dos blocos populares. Simplesmente não se passa incólume por
determinadas ruas; ou melhor, não se passa! Cada bairro tem o seu bloco e cada
rua quer ter o seu. Para se ir de um ponto a outro da cidade é necessário saber
da programação dos blocos para evitá-los.
Um tamborim, um
surdo, um pandeiro, um cavaquinho, um instrumento de sopro e, principalmente, um
ambulante com sua caixa de isopor vendendo cervejas e refrigerantes e pronto, o
bloco está formado. Inventa-se um nome sugestivo e irreverente, e, no ano
seguinte, ele vira tradição e atrai multidões. Do Sovaco do Cristo, no Jardim
Botânico, participaram mais de cem mil pessoas neste ano. A Banda de Ipanema,
Simpatia é Quase Amor, Concentra mas não Sai e outros menos cotados enchem as
ruas da zona sul da cidade. O Boitatá no Centro e o Bloco das Carmelitas em
Santa Teresa, já são atrações. Até a Troça, conjunto de jovens amigos que toca
sambas e choros antigos nos altos desse simpático bairro, já provoca
aglomerações. A população está sedenta de folias populares fora do esquemão
da Sapucaí.
O carnaval
oficial, dos bicheiros, intramuros, cronometrado, escravo de regras, avaliado
por um júri, classificatório, concorrencial, lembra-me também um desfile
militar, com seus pelotões, bandas, hinos e carros blindados.
Não obstante, a construção da “Cidade do carnaval”, ao lado da passarela do
desfile, uma estrutura de galpões bem construída, que concentra o trabalho que
se fazia nos barracões das escolas de samba, inaugurada este ano, foi um ponto
positivo no carnaval chapa-branca. Carnaval para inglês ver, ingleses
de todas as partes do país e do mundo. As escolas de samba, cada vez mais
luxuosas, renovam-se na sua mesmice.
Neste
carnaval o destaque foi a escola campeã, Vila Isabel, patrocinada pela empresa
de petróleo da Venezuela, cujo tema foi o ideal de Bolívar, discurso político
que vem sendo feito pelo presidente Chavez. Lia-se num dos grandes cartazes
externos à estrutura do Sambódromo a seguinte frase: “Petróleo para integração
dos povos latino-americanos”. Tocou-me a frase, pois muito me agrada a
utilização daquela riqueza mineral na defesa dos interesses nacionais e
regionais.
Permita-me, caro leitor, uma variante ao assunto desta crônica. Foi assim que
foi pensada, em seu início, a nossa Petrobras, como núcleo do desenvolvimento
nacional, da nossa engenharia, tecnologia, autonomia, sempre guardando o
objetivo de atender aos menores preços a demanda por combustíveis em todo o
imenso território nacional. Hoje, essa bandeira desvirtuou-se com a quebra de
fato do monopólio estatal do petróleo no Brasil. Às vésperas de atingir a
auto-suficiência na produção de petróleo, a Petrobras é uma grande multinacional
brasileira, lucrativa ao extremo, que serve para dar suporte aos governos de
plantão a quem está subordinada. O petróleo nacional, que já vem sendo
exportado, deverá ser muito mais vendido no exterior com o aumento da nossa
produção além das necessidades de consumo doméstico. Uma lástima!
O
petróleo não necessariamente vem servindo aos países e aos povos que o produzem,
como se vê ao redor do mundo. Utilizá-lo racionalmente em proveito próprio, sem
a espoliação dos grandes, é o que está sendo tentado na Venezuela e tudo indica
que a Bolívia vá pelo mesmo caminho. Logicamente com a oposição da mídia
americana e de suas subsidiárias nacionais, o que leva a formação de uma opinião
popular sem uma análise crítica mais apurada do que vem acontecendo. E por que
aconteceu.
Voltando
à folia, o desfile das escolas de samba não interfere com o renascimento dos
blocos; são eventos mutuamente exclusivos. Diria até que os blocos vêm sendo
incentivados em represália ao desfile no Sambódromo. Esse é neoliberal,
globalizante, empresarial, mercantil e paulista (vejam só como São Paulo
absorveu rapidamente essa manifestação carnavalesca!). Os blocos são do povão,
democráticos, não exigem abadás, fantasias e não têm cordão de isolamento. O
objetivo é a farra mesma e, logicamente, o sexo oposto, sem esquecer,
naturalmente, os que preferem o próprio sexo no próximo!
A propósito, o Rio
vem criando a fama, principalmente no exterior, de cidade simpática aos
movimentos GLS. Aportou na Praça Mauá um transatlântico temático (!) com 600
passageiros gays que se tornaram figurinhas fáceis transitando pela
cidade. Trata-se de outra geração de gays, saradona, sem as
exteriorizações comuns aos travestis. Enfim, um grande nicho de negócios que se
apresenta, principalmente durante o carnaval.
O carnaval do Rio se renova. Não houve grandes
violências, furtos, atentados à vida ou coisa parecida. Desde o show dos Rolling
Stones, que congregou um milhão e meio de pessoas nas areias de Copacabana, não
se registram atos de violência explícita. Inclusive porque não interessa ao
mundo do tráfico de drogas.
A festa carioca do Rei Momo,
que agora é magro, está se transformando numa alternativa também muito válida ao
carnaval baiano. Como já disse: mais popular e mais democrático. Sem cordões de
isolamento e sem abadás. Sem trios elétricos e música axé. É muito chato aquele
carnaval soteropolitano! O de Recife e de Olinda parece-me melhor!
O
carnaval me provoca saudades dos bailes de clube! “Hoje não tem dança, não tem
mais menina de trança, nem cheiro de lança no ar”. A registrar, no raio de minha
visão: no Fluminense houve dois bailes infantis. As marchinhas, assassinadas
pela indústria fonográfica internacional, podem estar voltando. Alvíssaras!
Com o
raiar da quarta-feira de cinzas e o recolhimento dos foliões, baixou a síndrome
do Haiti. O Exército, com 1.600 homens, portando armamento pesado que nunca
poderia ser usado contra a população, ocupou favelas à procura de fuzis que lhe
foram furtados. Ainda bem que o Exército era brasileiro! Quando vi a imagem
daqueles tanques e a movimentação dos soldados pelas ruelas da periferia, com
suas metralhadoras apontadas para o alto, lado a lado da população em seus
afazeres diários, lembrei-me de outros países, mais infelizes, que convivem com
forças armadas estrangeiras. Meno male!