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JORNALEGO ANO IV - Nº. 123, em 10 de Março de 2006 Conto SEU BOITEUX “Escrevo para descobrir como terminam as histórias”. (José Eduardo Agualusa, escritor angolano). Morávamos, meus pais e quatro filhos homens, com nossos avós maternos enquanto eles viveram. Era uma grande casa assobradada, com um vasto quintal, no Méier, no então Distrito Federal. Ficava numa rua transversal a Dias da Cruz, a artéria principal do bairro por onde transitavam os bondes. Estou naturalmente a falar do Rio de Janeiro alguns anos antes de 1960, quando a capital foi transferida para Brasília. Nossa história começa logo após o fim da Guerra. Em 1945, eu já completara seis anos. Nesse ano nasceu o meu irmão mais novo. Meu avô era sócio de Castro, Silva & Cia., uma firma importadora e exportadora de secos e molhados, com sede na Rua do Acre, no centro da cidade. Já idoso, havia ficado cego. Afastou-se de sua vida profissional quando a luz lhe começou a faltar. Então, sua distração era ouvir rádio quando estava só. Ouvia tudo, mas só a Rádio Nacional. Usava outro expediente para preencher o tempo que mais à frente relatarei. Eu já conhecia das visitas à Rua do Acre um antigo empregado da firma, o senhor Carlos Boiteux, também idoso. Pronuncia-se Boatê. Numa época muito difícil para todos, quando da quebra da bolsa de Nova Iorque seguida pelo movimento revolucionário de 1930, fora admitido por meu avô, a quem tinha grande admiração e dedicava-lhe total fidelidade. Quando o velho se recolheu à aposentadoria, ele era encarregado de levar mensalmente, lá no Méier, o demonstrativo das contas dos imóveis do meu avô, administrados pela companhia. Levava também alguns quilos do Café Câmara, produto criado e comercializado pela firma. Dos lucros do empreendimento, que foram sempre minguando, davam relato os outros dois sócios do negócio, ora um ora outro, ora Castro ora Silva, meu avô Pinho era a Cia. Até que o negócio parou de apresentar bons resultados, diziam eles, embora a casa continuasse a funcionar a pleno vapor até a década de 60. Assim, as rendas do avô se limitavam aos aluguéis dos imóveis que também iam caindo em termos de poder aquisitivo por causa da inflação, ainda baixa, mas como toda inflação, insidiosa. Quando seu Boiteux chegava à nossa casa, invariavelmente de duas em duas semanas, era um acontecimento para meu avô, minha avó e principalmente para nós meninos. A primeira visita se dava em meados do mês, com o dinheiro dos aluguéis do mês anterior. A segunda, ao final do mês, quando trazia as indefectíveis sacolas de café. Passado algum tempo, ele era o único elo entre o meu avô e o seu negócio, conquistado a duras penas desde o seu desembarque no início do século na Praça Mauá. Para entreter o ex-patrão, informava do movimento da firma, da qual era atendente, recebendo, despachando e conferindo o entra-e-sai das mercadorias no grande armazém que se estendia por uns cinqüenta metros além do balcão lateral e do cercado que marcava o escritório, na entrada do prédio. O escritório se duplicava num mezanino de madeira, com acesso por uma escada íngreme, sem corrimão, escondida na parte de trás. O piso da parte superior constituía o teto rebaixado da parte térrea. Lá em cima ficava a contabilidade onde labutava o guarda-livros, na mesa alta de tampo inclinado, sentado num banquinho também alto, a usar na testa a indefectível aba para proteção da vista já gasta da luz forte que emanava da grande lâmpada que pendia sobre sua cabeça. Seu Boiteux raramente entrava no espaço do escritório. Seu campo de ação era ao longo do depósito das mercadorias, em cima de estrados de madeira por causa das cheias, o que era freqüente com as chuvas de verão. Sua manobra se estendia até um grande galpão anexo, depois de transposto o exíguo espaço onde existia um banheiro e um tanque, formando um conjunto meio lúgubre e escuro, com suas luzes fracas a balançar penduradas em longos fios, quando, para acendê-las ou para apagá-las, se rodavam as lâmpadas no bocal. As sombras na parede começavam uma dança macabra, inicialmente vigorosa, até aos poucos se quedarem com o fim do vai-e-vem do pêndulo e voltarem a se mexer por conta dos movimentos do sujeito da sombra e não mais da luz que a projetava. Eu não gostava de chegar até lá, tinha medo da umidade e do aparecimento de algum bicho peçonhento. E das sombras na parede. Os dias de visita do Seu Boiteux lá em casa eram dias de festa, como insinuei anteriormente. Junto com o café, levava, por conta própria, goiabada cascão de Campos, embalada numa caixinha de madeira presa por grampos, e queijo de bola Palmira. Chegava por volta das dez horas da manhã pelo bonde ou ônibus das linhas que ligavam o centro ao Lins de Vasconcelos. Não era palrador. Falava baixo e pouco, era monossilábico, mas dava conta do seu recado. Enquanto meu avô ainda enxergava, conversava sem encará-lo, com os olhos baixos. Com a cegueira, passeava mais à vontade seus olhos pela casa e pelas pessoas. Eu registrei essa mudança. Ficava sempre para o almoço do domingo, quando comia pouco, tomava sua taça de vinho tinto, gostava dos doces caseiros servidos na sobremesa, sorvia o seu Café Câmara e nunca trocava uma palavra com minha avó, sentada à sua frente, à direita do vô Pinho, na cabeceira. Ele ficava à esquerda do velho, ocupava o lugar da minha mãe que o cedia, deslocando-se para a próxima cadeira. O pai ficava na frente da mãe, e, a seguir, vinham os filhos, sentados dois a dois de cada lado. Saía antes da sesta dos velhos. Vovô não era homem de muitas leituras. Foi a cegueira que o fez amante da literatura. E o Seu Boiteux. Este passou também a trazer consigo um livro de sua humilde biblioteca, constituída basicamente de autores portugueses e franceses. Que me lembre, leu Eça, Flaubert e todo Os Lusíadas. Acho que só; já teria sido o bastante para um longo período de leituras. Era quando mais se ouvia a voz de Seu Boiteux, baixinha, quase ao pé do ouvido do meu avô. Não sei muito da origem do Seu Boiteux. Ouvi algo a esse respeito: teria nascido no Rio, filho de pai francês e mãe espanhola. As raízes francesas apareciam no nome e nos seus olhos claros. Ao lembrar-me dele, diria agora que se parecia com Jimmy Durante, com seu nariz de batata e uma calvície que escondia com o seu chapéu de feltro. A origem ibérica escapava de vez em quando com algumas expressões espanholas, especialmente quando nos alcunhava de “cornetas” por alguma travessura que praticávamos. O que significava pequenos cornos, diabinhos, e não trompetes ou clarins. Sabia de sua vida solitária. Não era casado, não tinha muitos amigos, parentes e muito menos filhos. Morava num quarto de pensão perto do local de trabalho. Uma viúva, também sem filhos, a senhoria, lhe dispensava ótimo tratamento. É tudo o que sei. Dedicava-se a leitura nos seus dias de folga. Após a morte do meu avô, minha avó continuou a manter a ligação com a firma dele por meio das visitas do seu Boiteux. Usava sempre, além do chapéu já mencionado, um terno de casimira, grossa para nosso clima. O embrulho de café recendia o aroma do produto. Seu Boiteux, agora sem o seu interlocutor, sempre procurava agradar, ser prestativo, e já trocava algumas palavras com minha avó. Lembro-me dele, fazendo pequenos serviços para ela, como, por exemplo, consertando a tomada do ferro de engomar. Continuava a trazer os aluguéis, a goiabada e o queijo, além do café. Nos almoços, continuava sentando à frente da minha avó, ao lado da cadeira vaga do meu avô. De vez em quando levantava o olhar e a ouvia contar algo. Das demais conversas não participava, cravando os olhos no prato. Não sorria nunca, mas sempre apresentava feições risonhas. O dia mais significativo destas memórias foi quando nos presenteou com uma bela peça de bacalhau norueguês que há muito tempo não entrava na nossa casa. Nossos pais não tinham renda compatível com aquela iguaria. Sentiu-se feliz e sorridente ao entregar o embrulho nas mãos de minha avó. Foi uma das poucas vezes que o vi sorrir, todo envergonhado com os agradecimentos da velha e a admiração um tanto estridente de minha mãe. Captei o momento mágico. Minha avó ficou diabética e depois tuberculosa, foi para o sanatório e nós nos mudamos para Niterói. Nossos pais compraram uma boa casa com o dinheiro da venda dos imóveis do Rio. Íamos aos domingos visitar a vovó. Invariavelmente mamãe acompanhava-se de um ou dois filhos. Atravessei a baía inúmeras vezes com essa finalidade e subíamos até o Silvestre, pelo bondinho de Santa Teresa. Adorava o passeio; detestava o ambiente hospitalar, bem como ver minha linda avó definhando. Soubemos por ela que seu Boiteux a visitava aos sábados à tarde, levando sempre um presentinho, uma guloseima. Já crescidinho, resolvi empreender uma visita num desses sábados, especialmente, tenho a confessar, para rever o Seu Boiteux, a quem admirava muito e há muito não via. Fui sozinho, com muitas recomendações de cuidado. Ao adentrar-me no salão em que estava minha avó, com outras três camas ocupadas por mulheres pacientes, separadas por cortinas brancas e leves, vi que ela estava dormindo ou fingindo dormir. Os olhos fechados e a expressão da face era muito serena. Segurando sua mão que jazia ao lado do corpo coberto com um alvo lençol surpreendi o Seu Boiteux. Ao me ver retirou incontinente a sua mão da mão da minha avó levando-a a abrir os olhos e a me saudar com uma voz sumida. Seu Boiteux se mostrava muito constrangido e tinha um ar assustado. Conversei com ambos, dei notícias de casa e saí com o Seu Boiteux que me acompanhou calado até as barcas na Praça 15. Foi um passeio mudo. Não trocamos nenhuma palavra. Nunca mais tive notícia dele. Nem sequer apareceu nos funerais de minha avó, se é que soube. Forcei o reencontro no exercício desta escrita. Agora, sexagenário, surpreendi-me, ao final desta história, quando só então me dei conta do seu amor platônico por minha avó. Passei em revista o passado e certifiquei-me disso. Foi com grande impacto que senti quando a ficha caiu. Parei um instante. Pensei em não soltar o conto. Depois de refletir um pouco terminei o texto que se prestou muito bem para exorcizar o pesado sentimento de uma transgressão que nunca existiu, enchendo-me do leve prazer ao descobrir uma singela e humana história de amor. Para Roldão Simas Filho que me deu o mote. |
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