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JORNALEGO ANO IV - Nº. 122, em 10 de Fevereiro de 2006. Conto LOQUACIDADE ONÍRICA
– Mamãe! Mããããããeeee! Ouviu o grito desesperado do filho que despertava apavorado. Acordou de imediato e divisou, na penumbra, o menino em pé, assustado, apoiando-se nas laterais do berço, junto à sua cama de solteira. Afastou as cobertas e incontinenti acudiu o pequeno. Abraçou-o por sobre a grade, beijando-o e afagando-o carinhosamente. Só depois acendeu a luz com um toque no interruptor no alto da cabeceira. – Estava sonhando meu querido? Não foi nada. Mamãe está aqui. Conte o que passou. Fale. – Um monstro, daqueles bem grandes, que a gente vê nos filmes da televisão, veio caminhando na minha direção. Ele vinha me pegar. Eu tava brincando, quietinho, com o meu primo, montando bichinhos com o brinquedo que vovô me deu e ele me atacou. Ele só queria me pegar, acho que ele não gostou de mim. Por que será que ele me escolheu? Nem ligou pro Toninho. – Não é nada meu doce. Foi só um sonho. Todo mundo sonha. Existem sonhos agradáveis e outros que nos metem medo. É assim mesmo. Mas não passam de sonhos. Quando a gente acorda é tão bom, não é mesmo? Aí a gente vê que foi tudo um sonho e a gente relaxa. E volta a dormir de novo. Você está bem, está com sono? Vamos deitar e dormir? Quer vir para a cama da mamãe? – Vou, mas não quero dormir. “Deixa eu falar”: o monstro soltava cada ronco pavoroso e ao ouvir aqueles urros estrondosos me assustei muito. Eu gritei, pedi socorro, mas não adiantava. Ele vinha querendo me pegar, não tinha ninguém pra me ajudar, e quase me pegou se eu não acordasse. Eu também contava pro Toninho a história dos dinossauros antes de o monstro aparecer. Aquela que você me contou da chuva de meteoros que acabou com a raça deles. Eu fiquei tão impressionado com ela e com peninha deles. Acho que foi por isso que o monstro queria me pegar. Mas agora que acordei passou, vamos brincar? – Ainda é noite meu bem. Todos estão dormindo. Seus avós estão aqui no quarto ao lado. Se a gente fizer barulho vamos acordá-los e eles já estão velhinhos. Deixa eles descansarem. Eu até pensei que eles tivessem acordado com o seu grito de mamãe. Que tal a gente conversar? Mas falemos baixinho pra não acordar vovô e vovó. Vamos brincar de contar histórias, eu conto uma historinha e depois você me conta outra. Que tal? – Tá bem. Mas será que o monstro não vai aparecer de novo? – Não, afinal você já está acordado e aquilo foi só um sonho. – Me conta então a história do meu nascimento. – Outra vez? Vamos lá: a mamãe começou a sentir uma sementinha a crescer dentro de sua barriga, que foi crescendo, crescendo, até que um belo dia, como se brotasse da terra, surgiu uma arvorezinha que foi também crescendo, crescendo... Essa árvore é você e a terra a mamãe. Quando você chegou foi uma festa na maternidade que continuou aqui em casa. O vovô e a vovó ficaram encantados com o primeiro neto e eu com o meu primeiro filho! Como você nasceu lindo! Todo perfeitinho: seus olhos atentos, suas orelhinhas, suas mãos, seus dedos, sua boquinha... Tudo era lindo e mimoso! Você era muito bonzinho. Só chorava para mamar ou quando estava sujo, para trocar as fraldas. Chorava baixinho. E como você gostava de tomar banhos! Era verão e eu chegava a lhe dar vários banhos por dia. Depois você foi crescendo, crescendo, mais e mais, e agora já está quase completando três anos. Vamos fazer uma linda festa de aniversário. O que você quer ganhar de presente? Bem, agora você conta a sua história, tá bom? – Era uma vez uma criança que ia fazer três anos e que estava querendo um irmãozinho. Mas para se ganhar um irmão é preciso de um pai, não é verdade? Ele só conhecia a mãe. Ai a mãe perguntou o que ele queria ganhar de presente no dia do seu aniversário. E ele disse: primeiro um pai, como o do Toninho. No ano que vem eu peço um irmãozinho ou uma irmãzinha. Dava mostras de que ia continuar falando quando... Um grito alto, horrendo, trágico, foi ouvido por toda a casa. Um estrondo de algo caindo e se quebrando também o foi. Era o abajur da mesinha de cabeceira que com o despertar assustado da mãe fora derrubado, caindo ao chão e espatifando em mil pedaços a grande base bojuda de louça, retorcendo todo o anteparo da lâmpada. Houve um pequeno curto-circuito com a quebra da lâmpada e o estiramento do fio, preso à tomada, provocando estampidos e faíscas elétricas. Os pais, os avós do menino, num átimo, acorreram ao quarto da filha, espavoridos. Abriram a porta com estardalhaço, quase a arrombando, perguntando o que acontecera. Amanhecia. A moça já se recuperara de um sonho pesado e tudo voltava ao normal. Ao olharem para o berço notaram que a criança dormia a sono solto desde o início da noite, no seu mundo impenetrável e imperturbável de profundo silêncio. Nada escutara. Nunca ouvira. O que vinha sendo pressentido e tido como certa preguiça infantil (não falava) cedera lugar à dura constatação. Com o despertar da família começava o pesadelo.
Inspirado durante a leitura do romance “Relato de um certo Oriente”, de Milton Hatoum (Companhia de Letras).
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