JORNALEGO
ANO IV - Nº. 121, em 30 de
Janeiro de 2006.
Alta ajuda (!)
OS PERIGOS DA LITERATURA
Para evitar tais
perigos – alguns expostos a seguir – aqui vão também algumas regras básicas para
a boa leitura.
Não vou dar uma de
crítico ou me propor a fazer resenhas analisando estilos e recomendando (ou não)
livros e autores.
Na fruição de uma
aposentadoria que dá pro gasto, transformei-me num leitor inveterado e num
escritor invertebrado (sem me enquadrar a escolas, formas de literatura,
temas, visão política ou quaisquer outros tipos de balizamento). George Orwell
num de seus ensaios do livro “Dentro da Baleia”, diz que o escritor não deve se
ligar a nada, talvez nem mesmo a uma aposentadoria. Diz apenas que o escritor
tem que ser um cara sem medo, o que definitivamente não é o meu caso!
Tive, até agora,
dois graves problemas com a literatura. O primeiro foi uma lesão na coluna
cervical que me deixou com fortes dores no pescoço, nos ombros e no movimento
dos braços. Lia deitado, com a cabeça apoiada no braço do sofá, ou estirado na
cama com um montão de travesseiros por baixo da nuca.
Essas posições
provocaram dores por toda a parte superior do meu corpo. Tinha dificuldades até
para me pentear. Sofri muito e só me livrei desses inconvenientes com
fisioterapia, ungüentos, arnica e, logicamente, com o fim das leituras
horizontais. Primeira regra: não leia deitado, isto pode deixá-lo aleijado. Não
faça isso! Cansa os músculos dos braços e se, ao cochilar sustentando um grosso
volume ele despencar sobre o tórax, você pode quebrar um bom par de costelas.
Mais recentemente
passei a ter uma infecção no dedo anular da mão direita. Ali apareceu uma
espécie de furúnculo. Inicialmente não dei bola pra isso. Só depois de um mês,
após passar vários tipos de pomada sem resultado nenhum, fui à minha médica
dermatologista. Ela me disse que isso era causado por algum atrito constante na
região afetada. Pesquisamos qual teria sido a causa. Lá para as tantas me deu o
estalo de Vieira. Eram os livros que apoiava com as mãos pela sua base,
com mais apoio na mão direita (pela minha condição de destro) ao ler
semi-recostado numa dessas cadeiras do papai, sustentando o livro a certa
altura.
O bode expiatório
foi o Thomas Mann com os seus grandes romances. Primeiramente os Buddenbrooks e
logo a seguir os três imensos volumes de José e Seus Irmãos. Contudo, vale a
pena correr o risco.
De tanto roçar no
dedo as partes inferiores das páginas dos livraços deu no que deu. As suas
arestas afiadas tocando sempre no mesmo lugar provocaram o eczema ou coisa
parecida. Cuido da infecção com mais duas pomadas diferentes, uma para o dia e
outra para a noite (!) além de uma mezinha feita de ervas medicinais.
A leitura deve ser
feita, assim me passou a médica, da forma que se segue, segundo os ensinamentos
por ela recebidos na escola pela professora de literatura.
A posição do
leitor deve ser ereta, com o livro apoiado numa mesa ou nalguma coisa como uma
almofada, distante das vistas uns trinta e cinco centímetros. O livro deve ser
seguro com ambas as mãos, cada uma das quais pegando as metades abertas do
mesmo, pelas laterais. Os polegares seguram as páginas internas, os dedos
restantes a capa e a contracapa, externamente. As páginas devem ser passadas a
partir do canto superior direito da mesma (sem molhar os dedos na língua,
evidentemente).
Só assim a leitura
é fisicamente saudável, no exercício contínuo e a longo prazo da atividade.
Não levem na
brincadeira a brincadeira que estou a escrever. Só quem sofreu as seqüelas da
má-leitura pode avaliar o que passei e ainda passo. O problema do dedo ainda não
foi debelado.
Como diria
Guimarães Rosa através da filosofia do seu mais consagrado personagem, Riobaldo:
“Viver é muito perigoso, doutor!”
Digo mais: “Ler é
muito perigoso, meu amigo e incauto leitor!” Principalmente certos autores.