JORNALEGO
ANO IV - Nº. 120, em 20 de
Janeiro de 2006.
Ensaio
ENTRE O CÉU E A TERRA
Desenvolvo um tema
instigante encontrado numa página central do primeiro romance (AS HISTÓRIAS DE
JACÓ) da tetralogia de Thomas Mann (JOSÉ E SEUS IRMÃOS). Transcrevo somente o
que interessa para este ensaio, sem desvirtuar a idéia geral ali contida.
“O pacto de Deus com o
espírito humano era um pacto que tinha em mira a santificação mútua, uma aliança
em que a necessidade humana e a divina de tal forma se misturavam que não é
fácil dizer-se de que lado, o humano ou o divino, partia o impulso original.”
“Não deixava de ser, em todo o caso, um pacto, cuja existência mostra que a
santificação de Deus e a do homem representam um processo duplo no qual ambos
estão muito intimamente ligados.”
Para prosseguir
passo a apresentar duas versões sobre esse conluio sacrossanto, denominação que
dei àquele pacto.
Primeiramente uma
versão crédula. Trata-se logicamente de uma visão religiosa, no mínimo idealista
para quem se diz não-religioso. Contudo, neste arrazoado não a vinculo a
qualquer religião que aceite o plano divino. É importante acrescentar que as
religiões reveladas (judaísmo, cristianismo e islamismo) se enquadram na visão
antropomórfica, isto é, as que colocam o ser humano no centro do universo e do
seu pensamento, satisfazendo suas necessidades materiais, intelectuais,
psíquicas e emocionais. “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança”. Nesses
casos, a divindade é sempre associada ao humano, embora Deus seja considerado um
espírito. No cristianismo essa necessidade atingiu seu ápice com a encarnação do
seu Deus.
Nessa versão o
pacto consiste no seguinte: Deus criou o homem para Se santificar. Ao Se
santificar, santifica o homem. Colocado de outra maneira, ainda sob a visão do
crente: Deus criou o homem para adorá-Lo. De outra forma não Se santificaria. Ao
Se santificar, santifica o homem.
Na visão do
descrente, o pacto assim se constituiria: o homem criou Deus para santificar-se.
Ao santificá-Lo santifica-se. Colocado de outra maneira, para o incréu: o homem
criou Deus para adorá-Lo. Assim O santifica. Ao santificá-Lo, se santifica.
Em ambas as
versões o pacto aparece claro.
Estou usando os pronomes
relacionados a Deus com iniciais maiúsculas para melhor identificar o sujeito
das frases, eles estão no lugar do nome Deus e permitir maior
entendimento da exposição. Não com qualquer outro sentido, como é costume nos
textos religiosos.
Existem
percepções que admitem Deus não como um espírito, mas como uma energia criadora
e mantenedora do Universo ou a própria Natureza. Contudo não se disfarça a visão
divina dessas forças implícita nessa assertiva. Embora isso não se iguale às
antigas crenças que prestavam cultos ingenuamente ao sol, à lua ou aos astros.
Na minha visão a admiração, a contemplação (não a adoração) dessas forças
estaria mais condizente com a nossa vida, sem dispensar-lhes, naturalmente, o
papel de divino.
A
história da criação de Deus, como se admite hoje no judaísmo e no
cristianismo (ignoro como isso se deu no islamismo), é bonita e astuta. Vejam
bem: quem merece a adoração não são os astros, o fogo, o relâmpago, o trovão
etc., mas aquele que os criou. Foi a grande sacação de Abraão.
Na minha
visão o divino só existe nas aspirações humanas. Como se demonstra nas duas
versões explicativas do pacto ou do conluio aqui descrito.
A sedução
de desvendar os mistérios da natureza é muito grande e ela não é e nunca vai ser
saciada pela Ciência. A limitação da compreensão humana não satisfaz a essa sede
de saber. Que fique claro: só contamos com a compreensão humana, não temos como
pensar de outra forma. Se existe o entendimento divino, por exemplo: a justiça
divina, isso é fruto da imaginação humana. Há, no entanto, intuições humanas que
se antecipam à ciência, mas isso é outra coisa; mesmo assim jamais chegaremos
próximo às fímbrias da verdade.
“Mistério
sempre há de pintar por aí” e continuarão eternamente. Temos que conviver com
isso. Paciência! Somos humanos com sede de divindade. Nunca seremos devidamente
saciados.
O homem
não admite a sua natureza animal. Não se satisfaz com a inteligência e a razão
que o distingue dos outros seres vivos. Quer mais, quer a vida eterna e a
divinização, pelo menos a santificação.
O
presente ensaio não pretende convencer ninguém. É uma maneira de extravasar,
ordenadamente, os pensamentos do autor a respeito do tema encontrado numa de
suas leituras. Ao fazer esta catarse aplaca um pouco as suas inquietações e
aflições, porque, como é notório, só a aceitação das crenças estabelecidas
apascenta.