JORNALEGO
Nº 11, em 10 de
Agosto de 2002.
Artigo
AO FUNDO NOVAMENTE
Dois números do
JORNALEGO já estavam na
“caixa de saída” para serem enviados aos meus seletos leitores - o de hoje e o
próximo, daqui a dez dias - quando resolvi sustar as remessas. Inicialmente, uma
melhor reflexão sobre os assuntos abordados levou-me a tomar esta decisão.
Observei que estava levando muito a sério o sufixo do jornal. Em vez de
justificá-lo como sendo seu único redator, corria o risco de me transformar no
seu tema principal. Uma boa dose de “simancol” e um certo policiamento para
evitar que o ego ande solto por aí a fazer estrepolias, não fazem mal a ninguém.
Os artigos, na primeira pessoa do singular, versavam sobre religião e a morte.
Além do mais, poderiam ferir suscetibilidades de alguns amigos. No entanto, se
alguém quiser lê-los eu os enviarei “personalizadamente”.
Fui salvo pelo superego e também pela
contundente conjuntura nacional, marcada pelo mais recente acordo com o FMI.
Na semana que ora se encerra, tudo é festa no Governo Federal, na
mídia e nos mercados financeiro, cambial e bursátil (!). As expectativas do
candidato oficial à Presidência da República se exacerbaram, embora sua atuação
nas pesquisas de opinião continue pífia. Por seu turno, a classe média foi para
a cama mais tranqüila, depois das novelas e dos noticiários noturnos. As
eleições presidenciais podem transcorrer sem percalços, pois foi jogado o tapete
vermelho para a saída honrosa do governo neoliberal e para a entrada da nova
administração, devidamente comprometida.
O que realmente houve, na minha ótica, foi a constatação de nossa
insolubilidade; o modelo mais uma vez estava fazendo água, mostrando ser
insustentável essa insensata e insensível política neoliberal do período recente
dos “Fernandos com um Itamar no meio”. A indignação é tanta, que neste parágrafo
constatei o emprego do prefixo “in” por cinco vezes. Arre!
O acordo monta a US$ 30 bilhões. Trata-se do valor que o país tem
que pagar até o final de 2003.
Ele só foi realizado em decorrência de fortes pressões da banca
americana sobre o governo Bush, visando garantir o retorno de seu dinheiro aqui
aplicado e também com o intuito de não matar a galinha dos ovos de ouro. A
pressão teve como cenário uma enorme onda especulativa provocada pelos mesmos e
preclaros atores. Assim, a grana não vai nem pagar CPMF, fica por lá mesmo numa
transferência eletrônica, a débito do Brasil junto ao FMI, aumentando nossa
dívida e a crédito dos credores, aumentando seus lucros. Um tremendo “lobby”, um
grande passivo sem correspondência no ativo, isto é, sem investimentos, sem
mudar nada, para melhor, na vida do brasileiro. A contrapartida já esperada,
porque a história não nos mostra outra direção, é mais recessão, mais
desemprego, mais miséria, mais dependência e até, possivelmente, mais inflação.
É esse o país deixado pela experiência neoliberal de 12 anos,
envergonhando a retomada da nossa tênue democracia e solapando as instituições
que a sustentam. Nosso Congresso atuou como pau mandado, desde a emenda
constitucional da reeleição, até a convivência com a enxurrada das medidas
provisórias, votos de lideranças e outros expedientes espúrios.
Alguma coisa positiva foi feita, é claro. Apresso-me a citar a
estabilização monetária do Plano Real, antes que alguém a use como
contra-argumento para esgrimir comigo por essas mal-traçadas críticas.
“O mal que o homem faz vive depois dele; o bem é geralmente
enterrado com seus ossos”. *
O preço pago foi muito alto. No próprio campo da
estabilização monetária, a inflação durante os oito anos do FHC deve fechar por
volta de 130%. Meu salário, nem o salário de ninguém foi corrigido por este
percentual. Nesse período a participação dos salários na renda nacional caiu de
33% para 27%. A década de 90 foi, igualmente à de 80, uma década perdida.
E as tais privatizações? Torramos um patrimônio de bilhões de
dólares sem diminuir nossa dívida que, ao contrário aumentou, sem transformar
isso em bem-estar social para a sociedade. Passaram nos cobres, a preço vil, a
siderurgia, a mineração, a petroquímica, a telefonia, grande parte da indústria
de energia elétrica, o sistema bancário e o que mais houvesse para ser queimado.
O regozijo com o fechamento do acordo com o Fundo deve-se á
necessidade criada pelo modelo vigente de cobrir um buraco anual de US$ 50
bilhões – 30 para o serviço da dívida e 20 para o furo do balanço de pagamentos
em conta-corrente. Uma necessidade de um bilhão de dólares por semana! Que não
vai terminar com este acordo.
É como o pai que sempre adverte ao filho adolescente para a
necessidade de dirigir com cuidado o seu carro, sem imprudência, sem altas
velocidades, evitando imperícias. De repente acontece um acidente. Perguntar
agora aos candidatos da oposição se concordam com esse acordo com o Fundo é o
mesmo que perguntar ao pai do acidentado se seu filho deve receber oxigênio e ir
para a UTI, a despeito de tudo que ele falou sobre a possibilidade do inevitável
acidente.
A comemoração do Governo e de seus acólitos pelo fechamento do
acordo pode ter como defesa um argumento cínico, como o de quanto mais nos
atrelarmos aos EUA e ao Sistema Financeiro Internacional melhor para nós. Assim
eles não podem nos quebrar. No estilo: não afundem o barco onde todos estamos
viajando.
Esse raciocínio, se de fato existe, além de cínico é parcial,
eminentemente financeiro e quem continua a pagar o pato é o povão. O IPEA, órgão
do Ministério do Planejamento mostra que os contingentes de pobres e indigentes
no país, que era de 33 e de 17 milhões, respectivamente, há cerca de uma década,
já superam as casas dos 50 e 20 milhões.
Hoje, exatamente hoje, a América Latina está conflagrada. Distúrbios
em Caracas e Santiago. A Colômbia continua em convulsão com a guerrilha. A
Argentina e o Uruguai vivem em estado de tensão. Inclusive, registre-se, a
Argentina foi discriminada pelos Estados Unidos e o FMI, relativamente à ajuda
que foi prestada ao Brasil e ao Uruguai. Vivemos na corda bamba por adotarmos o
mesmo padrão. Antigamente dizia-se que corríamos o risco de virar uma Belíndia
(meio Bélgica, meio Índia). Atualmente, com a violência e o narcotráfico por um
lado e a tênue estabilidade financeira por outro, somos fadados a nos
transformar numa Colombina (metade Colômbia, metade Argentina). O acordo com o
FMI não nos imuniza dos percalços vividos por nossos vizinhos, é um mero
paliativo. Empurra-se a crise com a barriga. Como disse o Veríssimo em seu
artigo de hoje, colocaram uma corda mais comprida no pescoço do condenado.
Minha esperança reside na expectativa de que minhas idéias e
convicções continuem equivocadas, conforme demonstram, à exaustão, os argumentos
(lato sensu) da direita conservadora, sempre mais convincentes, e daí porque,
“unida, jamais foi vencida”.
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* Do discurso de Marco
Antônio, em Júlio César, de William Shakespeare.
Genserico
eeegense@terra.com.br
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