JORNALEGO
ANO IV - Nº. 118, em 30 de
Dezembro de 2005.
Cantos do fim e do início:
NOJO
Embora considerado obsoleto, o
significado de “nojo”, além de repugnância, também é o de tristeza profunda, pesar e desgosto. É o
que sinto.
Deus morreu, Marx morreu, Lula está
morrendo e eu não estou bem. Essa frase espirituosa, bastante representativa do momento pelo qual
estou passando, não é de minha lavra. Adaptei-a tão-somente, juntando o pobre Lula àqueles
imponentes personagens.
Com base educacional católica,
tardiamente dei adeus às ilusões fantasiosas da concepção religiosa sobre a criação do mundo e da
vida, bem como de outras coisas mais.
No campo da política, minha opção, desde
que comecei a estudar economia, foi por uma alternativa ao capitalismo colonialista, imperialista,
selvagem e, por fim, neoliberal e globalizante.
O comunismo na União Soviética se
constituía num contraponto à liderança ocidental dos Estados Unidos mais do que a realização do
sonho marxista. O nazifascismo vencido era um alento para a humanidade.
A segunda guerra mundial teve
lances de realidade fantástica. Como a primeira, foi deflagrada no seio da comunidade ocidental
cristã. A vitória deu-se com a união das mesmas forças que logo após a refrega começaram a se
digladiar no botim dos resultados. A visão megalomaníaca do Hitler provocou o ataque em todas as
frentes. Se ele voltasse suas baterias só para o leste, no combate ao comunismo em expansão,
possivelmente o movimento nazista fosse vitorioso contando com o concurso dos aliados ocidentais. O
mundo teria sido muito pior.
A esquerda na União Soviética, no
poder, e a esquerda nacional, na oposição, eram bandeiras supostamente válidas para o combate às
desigualdades. O socialismo a se estruturar se me apresentava como uma alternativa viável ao
capitalismo.
Por seu turno, de Cuba e do Chile
vieram novas esperanças para os povos da pobre América Latina. O intermezzo esquerdizante
tupiniquim provocou alguns devaneios, logo exorcizados violentamente. O Chile caiu e Cuba ainda
persiste. Depois veio a eleição de Miterrand a fazer chorar os franceses e a mim, antecipando
lágrimas que anos depois viria verter na posse do Lula. Assim fui adiando com paciência, a
expectativa da chegada de novos tempos.
Eles chegaram, com perplexidade, com a
queda da União Soviética. Acredito em outra ironia da história: se isso não tivesse acontecido não
seria permitido ao Lula ganhar. No poder nacional, o PT esqueceu seu discurso e um projeto de nação,
que só existia na minha cabeça idealista, e seu maior articulador tentou instituir a máquina do
estado dominador e burocrático. Com ela continuou a corrupção que, embora gravíssima, é pinto diante
da hipertrofia da política econômica neoliberal. Gloriosa para os financistas, desastrosa para a
economia e a sociedade.
As novas lideranças que ora despontam na
política latino-americana não mais me empolgam, embora tenham a minha preferência. O que se espera
dos candidatos que estão a despontar no México, Equador e Chile, do presidente recém-eleito na
Bolívia e dos que já se encontram assentados no poder, na Venezuela, Uruguai, e Argentina (que vem
de uma vitoriosa recomposição de sua dívida externa)? Foram eleitos, como no Brasil, mais pelo
insucesso da política neoliberal do que pelo que propõem. Eles, todavia, sonham um sonho. Nós
já despertamos. O que nos resta? Um novo ciclo sob o comando da dobradinha PSDB-PFL, de triste
memória? Ou nos contentaremos com a conquista do hexa campeonato mundial de futebol?
Será que o novo quadro tem futuro sob a
insensatez hegemônica americana do mundo? Com a África negra a degringolar? A Ásia amarela a mostrar
os dentes afiados de um capitalismo noveau riche, perpetuando o modelo desumano, desigual, a
submissão do trabalho, a destruição do meio ambiente?
Não existe alternativa, hoje, para o
capitalismo dominante. O seu pior inimigo está no seu próprio ventre, a expor de vez em quando suas
vísceras: Vietnam, Katrina etc. O velho não morreu e o novo ainda não foi gerado.
A vida é como ela é, dizia Nelson
Rodrigues. Não como gostaríamos que fosse. Os modelitos do passado estão ultrapassados. Que arranjo
a vida guarda para os pósteros? O fim das ideologias? Duvido! Isso é igual à religião, o pobre homem
sempre precisará de uma quimera, de uma utopia. O fim da história (está provado) não se deu. Ela é
ativa, dinâmica, viva. Ainda bem!
“Meu mundo caiu!”. Zombo de mim. “Zombam
de mim, mas quem fala não tem razão”. Eu, a pensar que detinha a chave do sucesso e dominava alguma
sabedoria política! Hoje, nem sequer acredito nas experiências de sucesso do passado! “A história só
se repete sob a forma de farsa”. Ainda restam alguns clichês que a gente vai salpicando nestes
textos de reflexão. “E agora José?”
A poesia fere, purga, redime, alegra.
Daí porquê termino a versejar. Pode ser que nessas vãs palavras não a encontrem, mas levam jeito de
poema.
Voilà!
LUTO
“O luto o põem os vivos, e não os mortos”.
Di-lo Saramago.
Digo eu:
Pranteemos o que se foi e vai.
Nisso reside o sentimento do nojo,
Neste canto do findar.
Apesar do fumo na roupa, no corpo, na alma,
Quem morreu foi o que passou.
Digo mais:
Saudemos a nova aurora
E a dos anos por vir,
Neste canto do recomeçar.
Ao luto, a luta.
Na vida, a lida.