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JORNALEGO ANO IV - Nº. 117, em 20 de Dezembro de 2005. Crônica: MEU CASO COM A SUPER STAR Fala-lhes o autor. Dispensei por ora o narrador por me ter causado algum constrangimento em certos contos. Cassei-lhe a palavra. Tomo a mim esse encargo no presente caso. Tudo tem a ver com a síndrome de Zuckerman que, segundo Rubem Fonseca, leva o leitor a confundir o personagem com o narrador e este com o autor. Quando lancei “O Último Tango” no número 115 do Jornalego, recebi alguns comentários que me davam como o personagem da aventura amorosa ali contada. Não passou pela cabeça dessas pessoas que era uma peça de ficção explorando uma determinada situação, de certa forma comum nas relações humanas. Eu seria o protagonista de uma aventura vivida por um senhor viúvo que se apaixonou por uma garota de vida, digamos, airada. Ora vejam só! Tenham paciência! Eu, um senhor circunspecto, a relatar minhas próprias escapadas amorosas por aí! Pode? Houve outros pronunciamentos nessa linha. Uma amiga me disse: cada vez mais seus escritos se parecem com você! Lógico que eles têm muito a ver comigo, com o que penso, mas não chega a descrever minhas próprias ações. Ora bolas! Seria muito mais fácil ao leitor admitir o meu poder de imaginação e criatividade em tais contos do que pensar que eu fosse capaz de protagonizar essas histórias. Imaginar sim, vivenciá-las jamais. Quem me conhece mais intimamente deveria sacar isso. O que me falta em desenvoltura com as mulheres sobra-me em imaginação. Não me vejo vivendo tais situações e além do mais espalhando por aí minhas eventuais peraltices. É séria a tal da síndrome de Zuckerman! O autor nunca deveria se encontrar, nem sequer ser conhecido dos seus leitores para evitar confusões dessa ordem. Mas resolvi tomar uma decisão. Vou contar aqui um caso real. Eu agora quero ver o que vão dizer ao lerem o relato do que se passou comigo na última viagem que fiz ao Rio. Um caso eminentemente verdadeiro. Meu encontro com uma famosa bailarina e atriz. Almoçava solitariamente numa mesa interna do Restaurante Hipódromo, na Praça Santos Dumont, no Baixo Gávea. Ao chegar ao final de um alto filé Chateaubriand e do último gole de uma meia garrafa de um tinto chileno, eis que se deu a aparição irradiante da bela estrela. O restaurante é uma casa mediana, sem luxo, muito apreciada por artistas. Talvez por causa de sua parte interna que sempre é mais protegida e menos freqüentada do que a varanda. Serve boa comida a bons preços. O estabelecimento fica do outro lado do Jóquei Clube. Estava a pensar na morte do bezerro, sentado de costas para a entrada, quando me adentra aquele monumento de mulher. Ao vê-la e reconhecendo-a de imediato, tive um impulso de chamá-la; na realidade exclamei alto e bom som, em admiração, o seu nome. Foi de susto. Os fãs geralmente imaginam que são íntimos de seus artistas favoritos, dada à freqüente exposição de suas imagens na televisão. Ela, que se dirigia para uma mesa mais ao fundo, possivelmente se escondendo da curiosidade pública, estranhou, em princípio, a minha chamada. Depois, deve ter imaginado que pudéssemos nos conhecer de algum lugar. Do interior de São Paulo, por exemplo. Sentou-se simpaticamente à minha mesa explicando que naquele restaurante tinha certeza de encontrar a água gasosa São Lourenço, com alto teor de potássio, recomendada por seu personal trainer para repor os sais minerais despendidos durante os esforços das aulas de ginástica. Bebia diariamente dois litros para segurar o rojão de sua intensa atividade. Estava vestida com uma roupa colante de ginástica e uma pequena saia, dessas de enrolar na cintura e fechar com um laço pelos cadarços das pontas. Mas não estava retornando da ginástica. Vinha de sua sessão de psicanálise, o que fazia há mais de dez anos. Quando me deu uma chance de falar eu disse da minha admiração por ela, desde seu aparecimento nos palcos do Rio num espetáculo de dança, quando tinha apenas dezessete anos, destacando-se como a maior e principal bailarina do grande elenco. Já tinha se convencido de que nós não nos conhecíamos. Bem entendido, ela não me conhecia. Eu a conhecia até demais. Foi explicando minha admiração pela dança, pelo teatro, pelas novelas e filmes, passando por literatura, que ganhei a atenção e a afeição da bela e culta mulher. Compartilhando da água mineral, íamos conversando, e eu me sentia empolgadíssimo. Já tinha me apresentado, explicado a razão do meu nome, com todas as particularidades históricas do meu real xará vândalo, minhas origens, formação, atividades, família e ela sempre interessadíssima por tudo. Lá para as tantas, depois de me olhar atentamente, referindo-se aos meus lábios: – Como estão sem cor! Ponderei que pudesse ser do nervosismo provocado pelo encontro e também pela falta de melanina, provocada pela exposição à luz solar, sem os requeridos cuidados de proteção na minha juventude. Sem a menor cerimônia aconselhou-me a passar um pouco de batom, ao leve, para maquiá-los e melhorar a aparência. Artista é outra coisa! Acostumados com esse expediente nem se preocupou com meus escrúpulos de macho latino. Procurou o batom em sua grande bolsa e não o encontrou naquela bagunça. Curvou-se por cima da mesa, segurou-me firmemente o queixo e encostou seus lábios nos meus deixando ali uma mancha vermelha que espalhou com os longos dedos da mão esquerda. Ela é canhota. Eu estava totalmente corado. Mas isso foi somente o começo. Que hálito divino! Depois, sentindo-se mais ambientada e segura a meu respeito, explicou que eu pareço um pouco, lembro é o termo mais apropriado, o seu pai. A propósito, vinha tratando, entre outras coisas, de certo complexo de Electra, com o seu psicanalista. – Não faria isso que fiz nunca com o meu pai, mas você não é meu pai, só me lembra ele. Logo que acabei de tomar um cafezinho e pagar a conta, que incluía três garrafas da São Lourenço, ela me convidou a acompanhá-la ao seu apartamento, no Leblon, onde fazia seus exercícios de alongamento, meditação, relaxamento e considerava o seu tugúrio, ali se refugiava da lida extenuante e pensava na vida. Sua residência mesmo era no Recreio dos Bandeirantes. Como eu não sou homem de fugir da raia, pegamos um táxi, admirados pelos circunstantes, especialmente pelo atarantado motorista. Fomos. Em lá chegando, a primeira coisa que perguntei foi por seu marido. Ele estava filmando uma novela. Por associação perguntei: você tem celular? Ela respondeu afirmativamente informando, porém, que ao adentrar o seu refúgio desligava imediatamente o aparelho. Lá também não tinha telefonia fixa e somente ela possuía as chaves. – Isto aqui é igual a uma penitenciária de segurança máxima; celulares não têm acesso. Sorriu-me um sorriso de Gioconda. Respirei aliviado. Para descontrair seus músculos foi conversando e fazendo alguns exercícios de alongamento. Eu apreciava, sentado num sofá, estonteado, aquelas pernas quilométricas a serem repuxadas e contraídas nas mais incríveis posições. Pernas quase do meu tamanho! Vestia agora somente a roupa de ginástica depois de retirada a pequena saia. E falava, falava... Foi quando me convidou para participar do relaxamento. Viera exausta do esforço despendido na recente sessão de psicanálise (que, aliás, fora ótima, segundo confidenciou-me). Deitamo-nos num tatame que tomava todo o principal quarto do apartamento com música instrumental em surdina ao fundo. Não digo mais por que me impede a discrição. Melhor, minha indiscrição tem limites. Contudo posso informar que o nosso colóquio chegou a bom termo, seja lá o que o leitor possa imaginar. Ela deu vazão às suas fantasias e eu estava totalmente satisfeito e relaxado. Antes de sair tomamos (isso mesmo, no plural) uma boa ducha que me deixou pensando como poderia ser o paraíso. Melhor do que isso só tendo muita fé. Bom, agora que vou terminando este causo, gostaria de ver a cara daqueles leitores que, por certo, pensarão que estou a fazer ficção. Quando faço ficção eles pensam que é realidade. Agora, que relato um fato real, aposto que não acreditarão nas minhas palavras. Ô raça! Desde que comecei a escrever contos meus leitores se deparam com essas encruzilhadas contrapondo a imaginação à realidade. Isso me deixa preocupado devido à necessidade de manter a minha boa reputação moral. Neste caso que ora historio, nem tanto, porque pude massagear o meu ego machista e me sinto confortável, mesmo incorrendo numa pequena indiscrição. Afinal, eu soube respeitar os limites, especialmente salvaguardando a imagem da minha parceira – por pouco não a trato de minha personagem – a quem muito admiro pelo seu talento e beleza. E simpatia. Como é dada, tratável, amável! Que mulher maravilhosa! É assim mesmo. Onde se situa o limite entre o real e o fictício? A literatura ensina-nos a conviver com essa situação, que reflete mais fielmente a vida. A única realidade que existe é a ficção. Porque ela se diz ficção e isso é realidade. Por seu lado, a realidade não existe. Cada um tem a sua, produto dos sentidos de cada qual. Uma única coisa me intrigou. Foi quando nos despedimos com aqueles prosaicos beijinhos faciais, ela me olhou fixamente nos olhos e apertando uma das minhas escanhoadas bochechas disse: – Você é uma gracinha! |
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