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JORNALEGO ANO IV - Nº. 116, em 10 de Dezembro de 2005. Ensaio-testemunho
DA INFORMAÇÃO. DO CONHECIMENTO. DA SABEDORIA.
A MONTANHA, de Cássia Janeiro.
Subo a montanha Pontilhada de perguntas. Sei que de cima Verei o que vivi (cheiros, sons, cores e sabores), Porque experimentei o mundo antes De vê-lo de longe. A montanha se move e lateja; Pulsa a minha alma Cravada de dúvidas Que um dia foram certezas. Eu sou a minha própria montanha.
O que se segue é um ensaio amador sobre a compreensão da vida e do seu contexto. É uma forma de pensar escrevendo. Peço licença aos leitores que têm maior experiência e domínio sobre a matéria para expor meus pensamentos. Se discordarem, por favor, pronunciem-se, para que melhor possa me esclarecer e, eventualmente, refazer minhas ponderações. Afinal, isto é um ensaio. Vou tentar abordar o que poderíamos chamar dos três níveis do entendimento humano. A visão didática aqui utilizada e a classificação adotada podem não ser as mais adequadas, mas servem ao propósito: ordenar idéias a respeito, compreender o processo e, com isso, organizar a atividade do pensamento. Seja do próprio autor ou, se calhar e no que couber, sugerir posturas para o leitor, neste particular. Algumas variáveis desempenham um papel importante no tratamento do assunto por parte dos sujeitos envolvidos, a saber: tempo disponível, idade, nível educacional, tipo de atividade, aptidões, satisfação, necessidade etc. Por exemplo: uma pessoa com um tipo de atividade física intensa não tem tempo sequer para receber um maior volume de informação. Se o seu nível educacional for deficiente e se além do mais for jovem, não adianta incutir idéias filosóficas avançadas ou algo mais complexo. Enfim, uma série de composições pode ser arranjada jogando com aquelas variáveis, o que demonstra que cada caso é um caso. As considerações aqui feitas só podem ser generalizadas para efeito de tratamento teórico do assunto, não como um receituário para determinar o comportamento individual das pessoas. Para começar tratemos da Informação. Como se sabe, atualmente, ela é passada e adquirida basicamente pelos meios de comunicação, a chamada mídia; assim os jornais, o rádio, a televisão, mais recentemente a Internet, servem a esse fim. Também através do contato humano, das conversas, das correspondências, das ligações telefônicas etc. as informações são transmitidas. Um importante expediente utilizado nesta área é a publicidade e o que agora se convencionou chamar de marketing. Não somente servem para que as pessoas se informem sobre produtos e serviços como para induzi-las a adquiri-los e utilizá-los. Nesse campo é preocupante e serve aos objetivos deste ensaio o que vem a seguir, na frase colhida no site da Associação Brasileira de Imprensa. “O jornalismo enveredou pela linha da notícia como entretenimento, que leva ao risco de julgamentos muito rápidos e superficiais das matérias, o que não é bom para os veículos e seu público”. Acrescento a isso a onda do jornalismo investigativo que, quando se transforma em denuncismo inconseqüente, deturpa a função informativa, porque na maioria das vezes vem acompanhado de um viés interesseiro, político ou de qualquer outra natureza. O Conhecimento é um outro campo do saber a ser analisado. Trata-se do campo da tecnologia, da técnica, do conhecimento especializado, da capacitação. Estamos na seara do conhecimento universal, de como a vida e o seu entorno apareceram, evoluem e funcionam. É o lugar também da produção, da ação, do fazer, do saber fazer e do fazer fazer. Aí se ocupam o operário, o engenheiro, o economista, o artesão, o médico, a dona de casa, o geógrafo, o astrônomo, o professor, o advogado, o político, o militar, o religioso, o faxineiro, o artista e uma infinidade de profissões ou atividades amadoras. Cada um apreende, desenvolve a sua aptidão e a executa. Grande parte do tempo de formação de uma pessoa é destinada a esses misteres, especialmente no final de sua infância e no esplendor de sua juventude, continuando pela idade madura produtiva. Porque deles depende a nossa sobrevivência. Finalmente, a Sabedoria, o ápice na cadeia do entendimento humano. A tentativa de decifrar os segredos da vida, conhecer, avançar e admitir seus mistérios. Nesse particular, instrumentos poderosíssimos são a ciência, a filosofia e a arte, nesta última incluindo minha preferência, a literatura. Por excelência, estamos no campo da reflexão. Quase que necessariamente para se chegar até aqui deve-se transpor, de alguma forma, os nichos anteriores e ter acumulado certa experiência da vida. Não é um campo propício aos jovens, embora não proibido a eles, freqüentado pelos mais maduros e vividos. Todos os três níveis do conhecimento interligam-se entre si, se interpenetram, num processo interativo e iterativo. Em qualquer etapa da vida humana, da mais simples a mais complexa, não se prescinde de qualquer desses patamares do conhecimento. Conforme a necessidade, a aptidão, a possibilidade, ocupa-se mais de um ou de outro. Contudo deve-se ter em mente a necessidade de administração do tempo e do interesse para ater-se mais a um do que a outro nesses três níveis. Não se deve abandonar nenhum. Hipertrofiar a atenção em somente um deles em detrimento dos outros decorre da necessidade lúcida ou lúdica de cada um ou, infelizmente, de uma avaliação inadequada de quem pratica esta ou aquela preferência. O meu testemunho a seguir explica melhor o que tenho em mente e quero transmitir. Nesse ponto, ao expor minha opinião, na realidade uma preocupação, quero frisar que vivemos num tempo intenso de comunicação. O volume de informação recebido é muito grande. Não se consegue processar tamanha carga de informação. “Quem lê tanta notícia?” Além do mais, ela pode vir cheia de falsas informações, meias-verdades e contra-informações. Nesse particular é importante separar o joio do trigo. Principalmente porque a mídia em geral atende a interesses comerciais, corporativos, políticos e ideológicos. Muita informação intoxica e não deixa espaço e tempo para os outros campos do saber. Mais atenção do que se dá à informação haveria de ser dada, por exemplo, ao conhecimento de sua atividade profissional ou mesmo amadora. O bom conhecimento de sua especialidade é um bom passo para o conhecimento geral. Uma boa visão de sua especialidade é meio caminho andado para uma boa compreensão cósmica. Principalmente quando se interage com outros ramos do saber. Para terminar, ainda outra consideração pessoal. Vivo a gozar a minha aposentadoria e tenho todo o tempo do mundo (o que me sobra pra viver) e liberdade para me fixar aqui, ali ou acolá. Resolvi restringir o tempo disponível para informação, mantendo-me minimamente informado, através de algum telejornal e com rápidas vistas às páginas de um jornal diário (principalmente para saber o que estão levando os cinemas da cidade). Detenho-me em poucos textos e análises de autores conhecidos e confiáveis, que estejam mais preocupados com o que expõem do que a se expor. Praticamente não leio revistas (só nas salas de espera de dentistas e médicos). Quanto ao conhecimento profissional, não mais careço deles; satisfaço-me com o que restou, sem colocá-los efetivamente em prática. Algum conhecimento sobre como lidar com computadores e regras de literatura para o exercício desta minha atividade atual merece destaque. Procuro – é-me mais prazeroso – investir no quesito que aqui denominamos, talvez pomposamente, de sabedoria. Não com a pretensão de tornar-me sábio, mas ter uma visão melhor, como disse anteriormente, da vida e do seu contexto. Nesse campo optei pela literatura por ser mais condizente comigo, diante da complexidade da ciência e da filosofia, principalmente de suas linguagens, tangenciadas, mas inalcançáveis por simples mortais. Quanto às religiões compreendo-as como expedientes comportamentais, não como reveladoras dos mistérios. Vejo-as mais como geradoras de mistérios provocando embaraços no pensamento humano. Nessa classificação talvez fosse o caso de não incluir os pensadores místicos (especialmente os do oriente) que não pertencem às religiões reveladas (judaísmo, cristianismo e islamismo) e que sacam muito bem das coisas. Procuro concentrar o tempo à minha disposição nessa última atividade que, aqui, talvez erradamente, na falta de outro rótulo, denominei de Sabedoria. Concentro-me em ler e eventualmente escrever algo para organizar o pensamento. É uma tentativa deliciosa para sair por pouco tempo da caverna de Platão, observar o ambiente, cegar-me com a claridade e voltar correndo para seu interior, na penumbra em que todos vivemos. E agora, para terminar de fato, ainda usando clichês filosóficos, recorro à máxima socrática. Resumo da ópera: “Sei que nada sei”. |
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