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JORNALEGO ANO IV - Nº. 115, em 30 de Novembro de 2005.
Conto: O ÚLTIMO TANGO Levou sua solidão de viúvo para um passeio de carro. Antes de chegar à rodovia, ao divisar uma jovem sozinha na calçada de uma rua sem movimento, diminuiu a velocidade, olhou cuidadosamente pelos retrovisores e parou. Ofereceu carona e o convite foi aceito. A menina, analisada de rabo-de-olho era bem novinha. Recatada. Teria pouco mais de vinte anos. Não vou descrevê-la. Fazê-lo seria dar-me ao desfrute dos pormenores de uma bela mulher e propiciar igual deleite aos leitores. Não chegaram até ao balneário, destino original da viagem. Pararam num restaurante discreto à beira da estrada que servia peixes e mariscos. Um motel vizinho facilitou a vida do velho senhor e a do narrador. Nem sequer tirou o carro do estacionamento depois do almoço. – Uma menina tão linda, parece-me um pouco triste. – Né nada não. Sou assim mesmo. Não tô triste não. Tô preocupada. Saí de casa exatamente pra refrescar a cuca. – Mas em que consiste essa preocupação? – Problemas financeiros. Preocupações com o meu filhinho. Isso passa. – Tá quente, não? Acho que este ar refrigerado não está funcionando a contento. Ainda bem que a piscina privativa dá pro lado aberto deste apartamento. Por que você não dá um mergulho? Trouxe maiô? – Não trouxe o biquíni, mas a idéia é ótima. Enquanto acomodava-se numa cadeira de plástico ao lado da mesa redonda da pérgula, viu a acompanhante desnudar-se tranqüila e totalmente para em seguida mergulhar na água cristalina. A gloriosa visão fez-lhe bem. Atônito, ficou a admirar a plasticidade do quadro vivo que se lhe apresentava. O corpo esbelto, de linhas desfocadas pelas águas ondulantes, a banhar-se languidamente. Lembrou-se do seu tempo de jovem, de suas namoradas pudicas, dos encontros aleatórios e das mulheres do sobrado suspeito onde por vezes terminava suas noites. Da noiva amada e do seu casamento. Da vida em comum. Quantos anos! Dos amores proibidos. Da saudosa mulher. Desse amor tão intenso, interrompido por uma depressão seguida de morte, quase suicídio. Na piscina, um quadro cubista. A água a decompor a figura feminina através de prismas por onde incidia a luz da tarde. Cabelos longos a cascatear nos ombros. Uma mancha escura a lembrar um ouriço submerso a se mover nas águas claras das praias de sua adolescência. Faixas brancas de pele alva, deixadas pelo uso freqüente do sumário sutiã e da minúscula tanga, contrastando com o resto do corpo moreno queimado de sol. Olhares e lembranças. Brincadeiras furtivas em lugares protegidos dos adultos. A primeira experiência de puxar calcinhas. O olhar. O tato. O beijo. Beijos. Abraços. Danças. Namoros. Meninas. Moças. Mulheres. Como todas se parecem fisionomicamente no cara a cara da entrega! Lindas. Bonitas. Nem tanto. Amáveis. Chatas. Todas enigmáticas. Compleição complexíssima. Mistérios! Nucas. Pernas. Coxas. Braços. Nádegas. “Seios de mãe a transbordar carinhos”. Lábios e lábios. Pétalas a desabrochar. Mãos e dedos. A plástica do corpo feminino jovem. O desalinho cheiroso dos cabelos. O sentimento romântico superado. As lembranças inconfortáveis das pressões do amor. A liberdade. Ainda restaram o desejo físico e a estética do sexo. A eufemística locação do corpo jovem como salvação para o prazer sexual da senil idade. De quem muito gozou e sofreu por amor e saciou-se de sexo. Agora o sossego, o recesso. Libertação, enfim, da sina amorosa. Misoginia tardia? Saiu da piscina, nua e molhada e deitou-se na cama. Cochilou de lado, sentindo-se admirada. Franqueava recôncavos, lagos, promontórios, falésias, remansos, montes e vales, uma paisagem exuberante e sensual. Ele a esquadrinhava com olhos atentos e gulosos. Depois, passou a acariciá-la suavemente a partir dos cabelos úmidos. Com isso, despertou-a. Abraçou-a candidamente e beijou suavemente suas faces. E assim quedaram “trocando respirações”. Ao se despedirem, nossa personagem observou uma quantidade razoável de notas depositada em baixo de sua bolsa. Sem contar, dobrou as cédulas e guardou-as na bolsa. Prometeram se encontrar no mesmo local, no mesmo dia, à mesma hora, da próxima semana. Depois de deixá-la, voltou enlevado para casa, onde caiu num sono reparador e acordou sentindo o cheiro de moça a impregnar o ambiente. Veio a vontade de reencontrá-la. Sonhava e não deixava de pensar nela um minuto sequer nos dias que se seguiram. Julgou-se ridículo e preocupado. Vivia excitado, contando as horas. Descobriu-se apaixonado. Foi quando, numa caminhada, uma bala perdida desferida pela violenta conjuntura e por um narrador de fraca criatividade, expediente barato de contista amador, interrompeu a paixão que irrompera num coração que se julgava imune a tais fantasias. Poderia ser em qualquer dia, menos na quinta-feira, para evitar a coincidência com o costumeiro almoço semanal do autor com os amigos e a conseqüente síndrome de Zückerman que, segundo Rubem Fonseca, leva o leitor – principalmente certa leitora – a não dissociar o personagem do narrador, ou ambos do escritor. Portanto, foi na quarta-feira aprazada, que nossa heroína esteve esperando seu companheiro por quase toda tarde, rejeitando caronas. Voltou pra casa, de baixo astral, ao constatar o bolo. Na semana seguinte, nos mesmos dia e hora, estava ela no local de sempre. Esperou por mais de uma hora. Um carro parou. Nele, um homem maduro lhe ofereceu carona. Aceitou. Ficou inicialmente tímida, meio constrangida; aparentando um ar triste. Perguntada a respeito disse: – Problemas financeiros. Preocupações com o meu filhinho. Tudo passa! Referências:
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