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JORNALEGO ANO IV - Nº. 113, em 20 de Outubro de 2005. Conto CURRICULUM VITAE
“A vida é um conto narrado por um idiota, cheio de som e fúria, que não significa nada”. (Macbeth, ato V, cena V). Depois que ouvi a história recente de João Gomes, contada com muita graça e com um pouco de ironia por um amigo comerciante do centro de Vitória – grande observador da vida em sua pequena vizinhança –, lembrei-me daquele velho companheiro, a quem não vejo há mais de quarenta anos, e de nossa intensa amizade, desde tenra infância. Fomos colegas por quase 20 anos, no Jardim de Infância Ernestina Pessoa, na escola de D. Odete e D. Mariazinha e no colégio Salesiano. Morávamos nas imediações do Parque Moscoso: eu, pras bandas do Politeama; ele, no início da Ladeira Santa Clara. Éramos filhos únicos e nos adotamos como irmãos. Jogávamos ferrinho, papão com bolinhas de gude, brincávamos de camonibói, construíamos cabanas nos altos dos fícus da principal alameda daquele parque e, invariavelmente, caminhávamos juntos e pegávamos o bonde, quando o colégio se mudou para o Forte de São João. Sua loquacidade – e uma necessidade compulsiva de falar, especialmente de si próprio e de suas pretensas qualidades – levava-o facilmente a cometer alguma indiscrição, o que permitia a reconstituição de seu perfil. Mesmo sexagenário, ao acordar, antes de se levantar, com a ignição acionada por outro tipo de tesão, cumpria seu dever de marido com a velha companheira de quase uma vida inteira. União juramentada no civil e no religioso e, jocosamente, no militar, pois o casório se dera nos idos de 64. Aquele embate acontecia quase sem solução de continuidade desde que se casaram. No seu jargão machista: “comparecia” sempre. Quando isso não lhe fosse mais possível, mesmo com o auxílio da contenção urinária voluntária, iria lançar mão dessas milagrosas drágeas azuis para disfunção erétil. “Porque, sem isso, a vida não faz sentido!” Aos domingos, cedinho, depois do cumprimento do dever marital, nosso herói levava a consorte à missa na Catedral, subindo a íngreme Professor Baltazar. Contrito e cínico, fiscalizando o mulherio, persignava-se, ajoelhava-se, levantava-se, sentava-se, orava, cantava, elevava as mãos aos céus no Padre Nosso e cumprimentava os fiéis circunvizinhos, no momento apropriado, com a Paz de Cristo. Não comungava, “não tinha pecados.” “Ademais, isso de desfilar compungido, indo e vindo da mesa de comunhão, é coisa de mulheres!” Depois da santa missa ia gozar a sua folga dominical, folga das folgas da semana. Já fora o tempo de trabalho assíduo como assistente administrativo de um dos altos poderes estaduais, na Cidade Alta. Agora gozava uma vida frouxa, na doce fruição de uma justa aposentadoria. Orgulhava-se em desmentir aquela piada infame, na base da gozação: o aposentado tem outro aposentado entre as pernas. Domingo era dia de Curva da Jurema para encontrar velhos amigos do Parque Moscoso num dos quiosques na orla da Praia do Canto, na mesa de sempre, ao lado da pista das caminhadas e dos ciclistas. Contar piadas, falar mal – pela ordem – dos conterrâneos, dos políticos e do Brasil e ver a mulherada passar em suas roupas justas de ginástica (barriguinhas malhadas, peitões siliconados e glúteos consistentes) e contar os últimos feitos e conquistas. A patroa estava longe, providenciando a indefectível macarronada com frango dos ajantarados de domingo. Nos dias de semana, era diferente: ao meio-dia em ponto ele se assentava à mesa a exigir o rango, devidamente acompanhado da sua cerveja preferida. Pois se assim não fosse, não dava tempo de ver seu programa de esportes seguido do noticiário da tarde, na Globo, de cujo canal só saía para assistir jogos no campeonato espanhol ou italiano de futebol e corridas da fórmula Indy, na Band. Não ia a cinema, abominava livros. Houve uma época, com o advento da televisão, em que as salas de cinema rareavam na cidade. A partir daí desacostumou-se de ver filmes na tela grande. Vangloriava-se de há mais de 20 anos não pisar num cinema, mesmo agora, com a inauguração de ótimas salas de projeção. Quanto aos livros, não tinha paciência para se dedicar a suas leituras. Certa ansiedade não o permitia ir adiante, sempre que tentava uma incursão literária. Perder horas a fio com as fuças enfiadas num livro a ler ficção não era com ele! Não podia ficar parado, estava sempre procurando alguma coisa para se agitar. De vez em quando, dava uma olhada nos jornais da terra, sempre à mão no bar doce bar, principalmente nas páginas de esportes ou nas manchetes expostas nas bancas dos jornaleiros, para ter alguma noção de como andavam as maracutaias políticas. Freqüentava, nos dias úteis, as mesas fixas de jogo de damas da praça da antiga Prefeitura. A seguir, um pit stop no bar da esquina, no início da ladeira São Bento, onde conversava sobre política, futebol e fazia proselitismo do seu rigoroso código de ética e de moral. Ali, como consumação diária, tomava uma única dose da branquinha, que pendurava na conta, para abrir o apetite e garantir o sono pós-prandial que, como sabemos, era também provocado pela consciência tranqüila e o consumo de uma lourinha de pescoço comprido. Uma concessão que fizera ao seu clínico, passando dos tradicionais 600 ml para a long neck para não provocar as boas taxas de glicose das quais sempre se gabava. Jamais se distanciou muito do lugar onde nascera e sempre morou: no pequeno perímetro do centro de Vitória, atualmente de poucos e resistentes moradores. Transpôs a Cidade Alta e agora morava do outro lado, perto da antiga Convertidora. Fizera poucas incursões ao Rio de Janeiro, a Minas Gerais e ao sul da Bahia. Não conhecia São Paulo nem Brasília. As regiões mais longínquas de seu habitat e do exterior eram entrevistas na telinha da televisão. Simbolicamente: “nunca passou da Vila Rubim”, disse meu interlocutor. Considerava-se ótimo pai de família, sem nunca ter sido pai. Cumpridor de suas obrigações, contas e impostos pagos em dia, temente a Deus e com uma ligeira queda para o espiritismo. Em casa não faltava nada. No início da semana ia às compras, à feira livre e aos supermercados, atribuição que não repartia com a cara metade. Sabia os preços de tudo e de todos. Mesmo sem filhos, tinha um código rigoroso para educação da infância e da juventude, o qual defendia com unhas e dentes em discussões acaloradas. Sua plataforma consistia em: berço, educação e religiosidade. Esmerava-se em cumprimentar a todos, distribuindo bons-dias, boas-tardes e boas-noites a todos a quem encontrava, especialmente porteiros, faxineiros e outros profissionais subalternos, demonstrando assim sua humildade e humanidade. Não saía mais à noite, por temer a violência e para não perder as novelas, das seis, das sete e das oito, os noticiários e os programas de humor da TV. Sua vida era de uma tranqüilidade absoluta. Acredito que seu eletrocardiograma deveria resultar numa linha horizontal com poucas e discretas ondulações. Uma pessoa muito simples, alegre, brincalhona, que amava a vida e as músicas do conterrâneo Roberto Carlos. Em dia com as obrigações no leito conjugal, com sua assiduidade à igreja, com sua despensa bem fornida, esses e outros, eram os pilares básicos de sua filosofia de vida e por isso estava em paz consigo mesmo, com o país e com o mundo. Daí advinha o sarcasmo e a ironia do meu informante. Não obstante, eu o compreendia muito bem: produto de suas circunstâncias, dono de uma personalidade simplória e nem por isso desprezável. Fora um grande amigo e... amigo é amigo, assim como mãe é mãe! Enfim, João Gomes era um bom homem – como diria minha santa mãe portuguesa (que Deus a tenha!), em outra situação, é verdade. Quando éramos crianças e pedíamos comida, ela dizia: “Está com fome, come joão-gomes que é um bom homem”. Eu não entendia patavina e continuei não entendendo, até que recentemente consultei o dicionário e descobri que joão-gomes é uma erva, no presente caso, uma das minhas tantas madeleines. Como disse, fui seu colega desde o jardim de infância. Separamo-nos somente quando me mudei para o Rio, para cursar a universidade. Guardo boas recordações das peladas e campeonatos de futebol no colégio, quando ele me protegia, escalando o perna-de-pau da turma no seu time sempre campeão. Mas, em compensação, arranjei-lhe sua primeira namorada. Uma graciosa menina de nome bonito e apelido infeliz: Maria Olga, Mariola. Não sei por que o João Gomes apareceu na nossa conversa, despertando minha memória, provocando em mim saudades dele e daquele bom tempo. O que me foi contado se deu durante uma visita, quando eu estava me recuperando no Hospital das Clínicas, aqui de São Paulo, de uma operação cardíaca, quando me puseram três mamárias e duas safenas nas artérias que não estavam tratando a contento o meu pobre coração. Depois disso fui obrigado a parar de fumar. Fui proibido terminantemente. Daqui pra frente vou providenciar a minha aposentadoria e disciplinar essa vida louca que estou vivendo. Ela sempre foi muito agitada, vamos ver se doravante eu tenho um pouco de sossego. Fiz todos os cursos da minha especialidade, até o pós-doutorado. Isso além do estressante trabalho e das responsabilidades inerentes aos cargos que ocupei e que por eles tanto me esforcei para ter e manter. As viagens! Foram poucas as de lazer. Tantas as de trabalho que me permitiram conhecer praticamente todo o mundo. Mas sempre corridas e rápidas. A vida vivida nas grandes metrópoles do Rio de Janeiro e de São Paulo me cansou. Os filhos são quatro; os netos, seis. O patrimônio construído com muito esforço já foi devidamente repartido, sem que eu dele usufruísse. Tudo me desgastou muito. Dois casamentos desfeitos. Agora tenho uma namorada, a terceira, depois do último divórcio. Quero ver se mudo de vida. A volta para Vitória está sendo cogitada, é quase certa. Vou procurar o colega de antigamente e reatar a velha amizade. Jogar conversa fora, enquanto “seu” lobo não vem. Além da cirurgia aludida estou sofrendo de um enfisema pulmonar por conta dos anos a fio puxando fumo, no bom sentido. Às vezes no mau também. Isso quase complicou o pós-operatório; mas agora vou bem. Vou aproveitar a vida enquanto posso. Tenho grandes planos: ler os livros de literatura que ainda não li e ver os novos filmes que estão chegando à praça. Acho que voltarei sozinho à terra natal. Duvido que minha atual namorada largue seu rendoso emprego numa financeira multinacional aqui em Sampa para ir comigo morar na ilha ou em Vila Velha. Lá eu arranjo outra namoradinha. Ô terra de mulher bonita! Lá está também o meu amigo, meu irmão, João Gomes, o bom-homem. Minhas origens. À la recherche perdu du temps (sic). Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES) Todos os números anteriores podem ser encontrados em: O JORNALEGO está no Skype. Procure pelo nome do redator.
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