JORNALEGO
ANO IV - Nº. 112, em 10 de
Outubro de 2005.
Ensaio
ETERNA IDADE
“Sei que nada sei”, “mas desconfio
de muita coisa”. Por isso penso. E, por vezes, corro o risco de escrever sobre o
que penso. Sem querer convencer ninguém.
“Penso, logo existo”. Donde se
conclui ser condição básica para pensar o fato de existir. Acho que virei
Descartes de cabeça para baixo. Acredito que ele queria dizer exatamente o
contrário do que acabo de concluir. Contudo o dito pode ser encarado como uma
via de mão dupla, transitável nos dois sentidos. Faz sentido!
O software da informática só
existe a partir do hardware. E para que serve o hardware sem o
software? A música só existe a partir de um instrumento e este só tem razão
de ser se emite música.
Assim a mente, a inteligência, o
pensamento, a memória, a intuição, a sabedoria, os sentimentos, o que se chama
de alma ou espírito, e até os sonhos só existem por causa do corpo e dele são
indissociáveis.
Vem-me ocorrendo, recentemente, um
pensamento relativo aos seres vivos diante da eternidade.
Primeiramente: o que é a eternidade? É o
infinito do tempo. Além de um oito deitado precedido com um sinal de
menos ou de mais é aquilo que não tem início nem fim. Um tempo desde toda a
eternidade e para toda a eternidade.
O universo poderia ter fim? É
provável que sim; aliás, é quase certo. Se ele teve um princípio, um big bang,
pode haver um fim, um big crunch. O infinito seria finito? Mas não
sejamos tão universais assim, foquemos a atenção em nosso planeta e na
vida que nele existe. A vida, toda ela, humana, animal, vegetal, microscópica.
Seguindo nessa direção poderíamos incluir até os minerais, cujos átomos também
estão pululando de prótons, nêutrons e elétrons e outras partículas subatômicas,
eu diria, “vivas”.
Então, para melhor raciocinarmos,
unicamente para efeito didático, procedamos cartesianamente, limitemo-nos à
Terra, situando-a em nossas coordenadas. Desde o seu início, antes mesmo da vida
por aqui florescer até quando ela, a Terra, vier a desaparecer. Um tempo mais
restrito, um conceito menor de infinito. Tanto negativo quanto positivo. Do
nascimento à morte de nosso planeta, seja isoladamente, seja juntamente com todo
o nosso universo. Considerações à parte sobre a existência de outros universos.
O que eu passei a desconfiar, nas
minhas horas de solitário pensar, é que tudo, nesse tempo definido acima, sempre
existiu e sempre existirá. Tudo, inclusive nós, os humanos, existimos
eternamente.
“Nada se cria tudo se transforma”
segundo Lavoisier. Portanto o corpo que nasce estava latente no seio da mãe
Terra desde a sua criação. O corpo que morre sempre estará presente nesse mesmo
seio por toda a eternidade. Assim um bebê que nasce é a transformação da matéria
de uma forma em outra, sua composição sempre existiu e sempre existirá. A
matéria do morto nunca terminará, seja sepultado seja cremado.
A vida, claro, não é eterna. A
matéria o é, enquanto durar a eternidade.
Já que a matéria é eterna, o que se
dirá sobre o espírito ou a alma? As religiões que falam em vida depois da morte,
reencarnação, afirmam que eles são eternos.
Na minha visão, espírito ou alma
são caudatários da matéria, mais precisamente do cérebro. Eles (o espírito ou a
alma) existirão, enquanto houver matéria viva. O que sobrará depois da vida será
matéria em decomposição, mas continuará matéria. Memórias, recordações,
saudades, sentimentos – tudo que pode constituir o espírito ou a alma – restará
na matéria que sobreviver, isto é, no corpo (na cabeça) dos outros viventes. Nos
corações e mentes de outrem. É o que chamamos de transcendência. Só a matéria
permanecerá eternamente sob uma forma ou outra.
Por decorrência, os assim chamados
espírito ou alma não seriam eternos. Na minha visão teriam fim, como expus. Até
mesmo as mentes mais religiosas, ao crerem em outras vidas, ao não admitirem um
fim espiritual, aceitam, por outro lado, um princípio dessas entidades, mesmo
para os espíritos ditos reencarnados. Eu desconfio que, se eles tiveram início,
supostamente teriam também um fim. Nasceram com a vida e se extinguiriam com
ela. São imanentes à vida e às funções orgânicas. Portanto, mesmo no pensamento
religioso, elas não seriam eternas, considerando o infinito negativo. Já a
matéria é eterna, desde todo o passado e para todo o futuro. Viva ou morta, ela
é eterna. Sem qualquer exaltação à matéria. Não há por quê.
A afirmação contrária ao que foi
exposto acima, referindo-se especificamente à não-existência eterna da alma ou
espírito, é uma questão de fé. De crença. Fé é tudo aquilo que exorbita da
ciência. Que fique entendido: a ciência, ao cobrir todo o conhecimento humano,
não tem a pretensão de abarcar toda a verdade universal. “Mistérios sempre há de
pintar por aí”. Os limites do conhecimento vêm sendo expandidos, mas o
conhecimento científico (e humano) é sabidamente limitado, como limitado também
é o seu instrumento mais precioso: o cérebro. O que supera esses limites está no
terreno do misticismo ou da fé.
O misticismo – como a arte – pode
ser uma atividade muito instigante, desde que não descambe para um misticismo
religioso. Entenda-se, neste caso, por misticismo, a observação, a meditação, a
especulação, a cogitação sobre o que vai além do comprovado cientificamente.
Muita coisa intuída nesse terreno foi posteriormente comprovada – dedutiva ou
empiricamente – pela ciência, principalmente com o advento da física quântica.
Além daí, situa-se o terreno da fé. E a fé é a véspera do dogmatismo. A fé “é
porque é”. O dogmatismo “é porque dizem que é”.
Enfim, pensar é uma atividade
altamente gratificante, embora possa render altas controvérsias, no mínimo.
Melhor é quando organizamos o pensamento e o apresentamos sob a forma de um
texto. Melhor, muito melhor é sua divulgação, expondo-se os argumentos e
permitindo-se o contraditório por parte daqueles que discordem deles.
***
Uma palavra
suplementar sobre o mencionado Descartes. Está na moda, em vista das descobertas
do mundo quântico, menosprezar o pensamento cartesiano. Na minha concepção ele é
uma forma educada, um método, um instrumento valioso para pensar. Talvez até o
próprio Descartes o descartasse (!) além de sua utilidade como instrumental.
Ainda me lembro de uma peça teatral, vista há mais de quinze anos (Diálogos
Entre Descartes e Pascal). Na peça, esse jovem filósofo idealista
(interpretado pelo também jovem ator Daniel Dantas) era facilmente suplantado
pelo experiente Descartes (protagonizado pelo maduro Ítalo Rossi). Entre outros
motivos, porque este último filosofava disciplinadamente, com método, em
contraposição à erupção desordenada das idéias do sábio interlocutor. Esse
encontro talvez nunca tenha ocorrido realmente, só no campo da ficção. A
propósito Descartes acreditava na existência de um Ser Supremo. Eu, como disse
no início, desconfio de muita coisa!
Para saber mais sobre René
Descartes (1596-1650) e Blaise Pascal (1623-1662) clique nos atalhos a seguir:
http://www.mundodosfilosofos.com.br/descartes.htm
http://www.mundodosfilosofos.com.br/pascal.htm