JORNALEGO
ANO IV - Nº. 111, em 30 de
Setembro de 2005.
Crônica epistolar
GUANABARA
Rio
(GB), 20 de Janeiro de 1965.
Querida Ana Maria,
Cheguei bem, embora a viagem tenha
sido muito cansativa. O tempo estava bom quando nos despedimos na rodoviária.
Fazia uma noite fresca e agradável com a promessa de vento sul. Transposta a
divisa dos estados caiu o temporal. Ficamos parados por muito tempo em Campos. O
Paraíba do Sul tinha inundado algumas áreas ribeirinhas. Esperamos a água baixar
para passarmos, assim mesmo ela entrou no porta-malas do ônibus deixando úmidas
as minhas roupas.
Não telefonei porque se levam
horas para que uma chamada para Vitória se complete. Como não temos telefone,
meus colegas fazem o pedido no posto telefônico do subsolo do Edifício Marques
de Herval, na Avenida Rio Branco, vão ao cinema na Cinelândia e, ao voltarem,
ainda esperam muito tempo para poder conversar com as namoradas que deixaram.
Estou bem alojado numa
república de estudantes capixabas no Flamengo. Moro perto da Fundação
Getúlio Vargas, que fica na Praia de Botafogo, onde já começaram as aulas. O
curso é muito conceituado e eu preciso completar minha formação que foi fraca
numa faculdade infante de um pequeno centro.
Eu já conhecia o Rio, quando vim
especialmente assistir o Pelé jogar no Maracanã. A cidade me extasia! Fui à
praia de Copacabana no dia seguinte à minha chegada, com o tempo ainda nublado e
as ruas sujas das fortes chuvas. Barracos desabaram nos morros, famílias
ficaram ao desabrigo e houve mortes.
Hoje é feriado, dia de São
Sebastião, padroeiro da cidade, que agora se confunde com o Estado da Guanabara
depois da mudança da capital federal para Brasília. Neste ano será comemorado o
quarto centenário do Rio. Grandes festas estão programadas, inclusive um
festival internacional de cinema que espero acompanhar, se os estudos
permitirem.
A ex-capital encontra-se calma a
despeito do golpe militar do ano passado, que no linguajar dos poderosos do
momento é conhecido como Revolução. Um eufemismo! Caluda!
As coisas piores já passaram.
Agora é acertar o que foi feito de errado, colocar nos trilhos a tenra
democracia republicana brasileira. Espero que o processo eleitoral deste ano
restabeleça a ordem ferida. Vai ser uma disputa acirrada, acredito que o
Juscelino vá se candidatar novamente competindo com o Lacerda na eleição de
Outubro próximo.
Andei folheando um livro artístico
de fotografias antigas desta cidade maravilhosa. Como, desde sempre, ela é
linda! A Avenida Central, hoje Rio Branco, fazia lembrar os bulevares de Paris.
Igual ao que vemos nos cartões postais franceses.
Prédios monumentais ocupavam toda
a extensão do logradouro. Essa palavra condiz bem com aquela época. Ainda restam
alguns edifícios. O Palácio Monroe, a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas
Artes, o Teatro Municipal, os edifícios do Jockey Clube, do Clube Naval e do
Jornal do Brasil, e, lá no fim, ou no começo, sei lá, o Castelinho. É pena que
tenham derrubado outros tantos, que não cheguei a conhecer.
É o caso da Galeria Cruzeiro que
deu lugar ao atual Edifício Avenida Central. Espero que aquelas construções que
citei possam ser conservadas para embelezar o centro nervoso da cidade.
A despeito de tudo que fizerem com
esta minha já querida cidade, tenho certeza que ela continuará linda. Estão
construindo um aterro, na praia do Flamengo, que dará lugar a um magnífico
parque que se estenderá do Aeroporto Santos Dumont até o Morro da Viúva.
Planeja-se outro aterro, o da Praia de Copacabana para alargamento das pistas de
carros, das calçadas e da faixa de areia. Acho que estas iniciativas darão novo
charme à cidade.
Chega de deslumbramentos, de babar
por sobre a cidade adotada. Logo que o curso terminar, estaremos casados e quero
morar para sempre por aqui. Já me considero um carixaba ou capioca.
É aqui que quero ter nossos filhos.
A cidade ainda tem muitos
problemas. As favelas, por exemplo. Às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas tem
uma imensa – a da Catacumba – uma cidade dentro da cidade. Acredito que as áreas
planas e ainda despovoadas do município-estado poderiam ser usadas para
transladar essas famílias de gente honesta e trabalhadora para que não fiquem
expostos às intempéries, evitando o sofrimento decorrente das chuvas de verão.
A ocupação da Barra da Tijuca e da
Baixada de Jacarepaguá poderia ser cogitada. Com um bom planejamento urbano, que
inclua uma eficiente rede de transportes de massas, isso poderia ser viável. Não
será difícil transpor os maciços que nos separam de lá, com túneis por onde
passariam os trens metropolitanos. Os túneis rodoviários para Copacabana, o
Catumbi-Laranjeiras e agora esse que estão construindo entre a Lagoa e o Rio
Comprido, por baixo do Corcovado, demonstram como isso é possível.
Resolvido este problema que é
socialmente delicado e de difícil solução – bem sei – não haverá cidade mais
linda do mundo. O povo é hospitaleiro, amigo, saudável, alegre e todos vivem em
comunhão. Nossos governantes têm uma grande responsabilidade.
Estou vivendo um momento muito
especial. Feliz pelo curso que pode me abrir um belo futuro, assim como é belo o
futuro desta cidade e de nosso País. Sinto-me apaixonado pela cidade que em boa
hora adoto e sempre apaixonado pela mulher da minha vida, meu amor, meu futuro,
meu tudo, minha Ana Cidade Maravilhosa Maria de São Sebastião do Rio de Janeiro,
Fevereiro, Março... de 1965, 1966, 1967... Etc.etc.etc.
Antevejo nesta série de et
ceteras nossa eterna felicidade. Imaginemos uma eternidade de quarenta anos!
Como será, então, bela a nossa vida nesta cidade, com os nossos filhos e netos,
emoldurada por lindas praias, matas, montanhas, no convívio amigo desse povo
pacífico.
Beijos do seu saudoso, saudoso
também de futuro.