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JORNALEGO ANO IV - Nº 110, em 20 de Setembro de 2005. Opinião CORRUPÇÃO, CORRUPTOS E CORRUPTORES
Garçom, traga-me a conta, por favor! – Vamos ver: um filé à francesa, um macarrão à milanesa, uma água mineral, uma coca cola, uma ver-se-cola... – Garçom, ver-se-cola, que diabo é isso? – Não colou (e prontamente retirou o item do rol dos pedidos). *** Colou, enquanto durou, o comunismo na União Soviética. Não colaram os mil anos do nazifascismo, o propósito da renúncia do Jânio Quadros, o governo Collor, os vinte anos na presidência da república da coligação PSDB-PFL e o projeto de permanência do PT no poder. Quando os projetos chegam a bom termo, mesmo utilizando meios discutíveis, a história é amiga e complacente. Mas, vez por outra, tem uma pedra no caminho. E aí, não cola. *** A evolução da chamada crise política por que passa o país em decorrência das denúncias de extensa rede de propinas para subornar altos funcionários públicos e políticos, leva-me às considerações que se seguem, a guisa de um exercício de livre pensar. Sem qualquer intenção de justificar o quê ou quem quer que seja. A atividade da corrupção pode ser exercida de várias maneiras, das mais sutis às mais escancaradas formas. Ela ocorre em todo o mundo, durante toda a história e domina o Estado brasileiro e o seu processo político e administrativo. Pretendendo ser didático, passo em revista três tipos diferentes, igualmente perniciosos, execráveis e antiéticos. Não necessariamente independentes entre si, como este texto poderia fazer crer. Em primeiro lugar o que se viu no governo Collor e que lhe rendeu o impeachment. Esta foi uma punição política, uma vez que em todos os processos judiciais por que passou foi absolvido por falta de provas, não deixou rastros. Coisa de profissionais! Neste pequeno ensaio rotulo – volto a afirmar, para efeito eminentemente didático – esse tipo de corrupção de governo de corruptos. A nefasta estratégia, operada por P. C. Farias, visava a utilizar o poder para amealhar dinheiro em proveito de um grupo privado, uma verdadeira máfia liderada pelo então Presidente da República. Dizia-se que o objetivo era alcançar a soma de um bilhão de dólares. Já no governo FHC, o movimento de privatização dos ativos estatais atendendo a uma estratégia neoliberal e de mudança da Constituição visando à votação do estatuto da reeleição deu margem a um outro tipo de exercício da pilantragem. Assim se passou o que aqui me permito chamar de governo de corrupção. No qual não aconteceu o mais tênue vestígio de punição. A privatização foi terreno fértil para grandes negócios com os mais altos lucros e rolou grossa chantagem para a obtenção dos votos que permitiria outro período governamental para o líder do movimento. A sua passagem pelo poder foi festejada por muita gente pelo fim da inflação galopante, pela lei de responsabilidade fiscal, a atuação do setor saúde etc., contudo foi uma época de escabrosas transações. A pedra não estava no caminho. As maracutaias colaram! Não houve Pedro Collor nem Roberto Jefferson, a despeito da oposição incompetente do PT. Finalmente chega-se ao governo Lula. Assiste-se ao festival de denúncias, destacando-se a de pagamento de um suposto “mensalão” a deputados, destinado a comprar seus votos no plenário da Câmara dos Deputados. É o governo de corruptores. Lógico, como já alertei acima, também de alguns corruptos. Eu, que votei seis vezes em Lula para Presidente (duas das quatro eleições tiveram segundo turno) sinto-me perplexo. Em todas as denúncias passadas de corrupção o PT estava fora. Por essas e outras eu o elegi como o partido de minha predileção. Era o partido da esperança, com um belo discurso e algumas experiências regionais boas. Nunca um governo teve tanto apoio popular e gerou tanta expectativa de mudança. Não há desculpas do tipo de perseguição política ou ideológica como aconteceu com Getúlio Vargas ou Jango e que eu esperava pudesse vir a acontecer com Lula. Seu governo hipertrofiou a política econômica do anterior. Sua atuação é festejada pela comunidade financeira e empresarial (com a possível exceção dos exportadores pelo câmbio valorizado). Serviu à classe dominante. Não enfatizou o social, não viabilizou a reforma agrária, não mudou o país, como se almejava. A seu crédito: o estancamento da privatização. Trata-se de corrupção da cúpula do partido com a conivência ou omissão da cúpula do governo. Existe até certa condescendência com o Presidente para garantir a governabilidade neste período final de seu mandato e, lógico, o sucesso da oposição na próxima eleição, que tem medo de se expor. Por seu turno, a banca nacional e internacional não está a fim de matar a galinha dos ovos de ouro (juros de quase 20%a.a.). Afinal quem alimentava a maracutaia? Ironia, esse termo inventado pelos companheiros do PT voltar-se contra eles. Sabemos que os empréstimos bancários lavavam o dinheiro. Mas qual a origem primeira da dinheirada? A apuração deve continuar nesse sentido. E agora José? A festa acabou, o fogo apagou... Resta a luta pelo poder no PT e a das eleições do próximo ano. O governo Lula deve se arrastar, se tanto. *** Há um túnel no final daquilo que pensávamos fosse a luz! Vivemos um tempo de dissociação entre o social e o político. Esgarçou-se o processo de politização da sociedade que vinha sendo feito pelo PT sucedendo ao PTB de Vargas. Não há expectativa de resgate nem do agente que liderará a retomada. Não se vislumbra o que poderá acontecer quando a crise porventura acabar ou com o fim do governo Lula, precocemente ou não. Leio inteligentes cronistas que especulam e sugerem nomes para o próximo mandato na Presidência da República. Na minha visão, todos incorrem no mesmo erro. Num dom-sebastianismo primário. Ninguém, messias ou quixote, vai nos salvar. Sempre pensei partidariamente. Elegi o PT como o partido de minha predileção. Nele votei todos esses anos. Coincidentemente, seu fundador, símbolo e líder maior é o Lula, em quem votei em quatro eleições. Depois das três derrotas iniciais, votaria no candidato do partido, fosse ele quem fosse (em termos, é verdade). Acreditava na ética do partido, em seus objetivos, como acreditava que havia uma estratégia e um programa para mudar a cara do país. Nada disso aconteceu. Como também não há mezinhas, poções mágicas ou milagres que nos livrem do mal, amém. Cogita-se de uma reforma partidária e eleitoral (por exemplo: voto distrital, o comparecimento não-obrigatório às urnas...), do parlamentarismo, ou de outros escapes epidérmicos, analgésicos ou maquiadores. Não serão esses remendos que nos farão sentir melhor. Não há salvação, remissão dos pecados. Há um longo processo a percorrer. Reina o individualismo e o fulanismo no meio partidário. As constantes mudanças de partido por parte dos políticos testemunham essa conclusão. Nossos parlamentares são representantes de si mesmos. Nossas agremiações políticas não têm projeto de Nação e programa de governo. Têm uma estratégia para ganhar eleições e dominar a máquina do estado. Não têm memória, planos nem princípios éticos. Não há líderes! Um registro lamentável na marola da crise é a ressurgência da arrogância direitista. Daquela mesma oposição que elegeu Severino, agora frasista e verborrágica, cavalgando a certeza de sucesso nas próximas eleições. Como subproduto (ou escória) campeia o deslumbramento da direita festiva através de sua grossa ironia, escárnio, preconceito renovado, sarcasmo e deboche. Sobre isso, faço aqui um simples registro, um lamento, não uma crítica. O PT e todos os que o apoiaram ofereceram a cara para bater e eles estão batendo. Paciência! É tempo de “jogar pedra na Geni”. De oportunistas e do vôo rasteiro das aves de rapina. Que não sejamos vítimas de um moralismo ingênuo. Na caçada ao mocinho entregar o ouro aos bandidos. Os grandes capítulos da história do Brasil (Independência, Abolição da Escravidão, República, O Petróleo é Nosso, Diretas Já) foram decorrentes de movimentos nacionais apartidários ou suprapartidários. No momento, à mão, não há idéia que magnetize o povo. Nossos intelectuais estão hibernando, e, felizmente, os militares estão nos quartéis. O desenvolvimentismo, o nacionalismo xenófobo e o neoliberalismo já não mais se constituem bandeiras confiáveis. A calmaria reina. A travessia vai ser longa. Quem sabe, essa calmaria, nessa travessia, por acaso, não nos faça redescobrir um novo Brasil! Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES)
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